“A publicação para mim é uma disciplina de fuga. É um output, uma saída, não uma ferramenta.”

 

Entrevista com Federico Lamas, autor de Vá para o Diabo e Visão Infernal:

 

1 – Qual a história por trás de Vá para o Diabo?

Vá para o Diabo é a visão infernal. É uma técnica-conceito que nos permite revelar uma honestidade brutal acerca de nossos verdadeiros desejos como humanos. Às vezes são desejos reprimidos, ocultos, que nos envergonham. O que queríamos ser/viver na realidade. Para mim, como artista, o afloramento de minha própria ideia me dá uma ferramenta para compartilhar meu pensamento, meu humor e a minha maneira de ser.

2 – Foi um livro difícil de ser produzido?

O primeiro livro não foi muito trabalhoso. Até porque o projeto não foi feito para ser um livro necessariamente. É um projeto bastante aberto, que se vai produzindo com gravuras, ilustrações, colaborações e livros. E o primeiro livro é uma compilação de meus primeiros desenhos, minha virtual estreia como ilustrador. A verdade é que não ilustrava muito antes disso. Mas essa minha técnica-conceito me causou uma sensação de pertencimento a esse mundo (no mundo dos ilustradores, digo).

 

3 –Que possibilidades uma história sem texto te impulsiona?

A universalidade! O acesso a todo o planeta. Em minha jornada como artista aprendi várias coisas com os meus trabalhos e meus colegas. Primeiro, o prazer de fazer um livro que qualquer um pode tê-lo, e não apenas um colecionador de arte. E outra, saber que o mundo não se divide por países. Há grupos que partilham uma certa visão, um certo senso de humor, e estão espalhados por todo o mundo. Tenho amigos e faço amigos em muitas cidades, e o que nos une não tem nada a ver com nossos passaportes.

 

4 – Quando você começou a pensar na construção de narrativas?

Com o cinema. Assistindo King Kong 2, que é um filme muito ruim. Mas eu vi o filme em 86, num cinema muito grande, bonito. E mais adiante sempre foi o cinema a fonte da minha busca narrativa. Fazer imagens com histórias. Mas a edição e a manipulação da imagem foi o que mais me motivou a desenvolver outras disciplinas para o meu trabalho.

 

5 – Quem foram os autores/artistas que você admirava à medida que crescia?

Desde menino tudo que era tirinha argentina: Mafalda (e tudo do Quino), Patouruzu, Fontanarrosa. Eu gostava muito das enciclopédias, das revistas National Geographic e dos velhos livros de ciência ou eletrônica. Depois dos doze anos comecei a ler alguns romances clássicos, mas acho que só depois dos dezenove apareceram os ilustradores/escritores que me fascinaram: Raymond Carver, Bukowski, Crumb, Dostoievski, os livros de Groucho Marx, os quadrinhos da Altuna na Playboy.

 

6 – Que tipo de publicações te atraem?

Eu gosto de quase tudo, como também é a minha afinidade com a música e com a comida. Das publicações que se destacam pelo objeto. Não por serem especiais em algo. Tenho fascinação pelo estilo dos outros. De ver como as coisas ocorrem para os outros artistas. De ideias novas. De ler entrevistas longas, perguntas e respostas como se fosse transcrição de uma conversação. Adoro os fã-zines que contêm ideias novas, que buscam intervir fisicamente na edição para dar-lhe algo a mais.

 

7 – Quando você começou a se envolver com publicações e quando começou a publicar?

A publicação para mim é uma disciplina de fuga. É um output, uma saída, não uma ferramenta. A mesma coisa ocorre com a minha atividade como VJ. Tenho ideias, que são vídeos, ilustrações, movimentos, objetos. E penso logo qual a melhor maneira de compartilhá-las. Gosto muito de controlar os processos e não ser tão dependente de grandes tiragens. Amo minha impressora inkjet A3, e tê-la me dá a possibilidade de fazer pequenas tiragens ou de experimentar com papéis. Publicar é uma necessidade de compartilhar a minha obra, da mesma forma que posso emoldurar um quadro.

 

8 – E o que você tem feito? Que outros projetos tem alinhado?

Agora estou inquieto resolvendo algumas questões pendentes de trabalhos em vídeo e tenho me esforçado muito para fechar acordos de publicação em vários países para o meu novo livro com visão infernal. O livro já está pronto, me pedindo para que o publique bem bem bonito.

 

9 – O que você faz no seu tempo livre?

Vejo muitos e muitos filmes de todas as épocas. Estou ampliando meu acervo constantemente, é quase uma catarse. Mas gosto também de sair de casa, estar com outras pessoas em outros espaços. Trabalho e vivo no mesmo espaço e como meu trabalho é mais solitário, sinto falta de outros seres humanos! Sinto falta de cozinhar, ping-pong, baralho, vermute e da conversa com os amigos.

 

10 – Que comida de bar brasileira você sente mais falta e por quê?

O meu clássico é um sanduíche de pernil do Estadão Lanches de São Paulo, com suco de beterraba, laranja e cenoura. Ou o cabrito com arroz verde do Nova Capela. Sou um grande fã de botecos. Circulo ao acaso para deparar-me com alguém. BH de São Paulo, Bar do Mineiro, Cervantes… também sinto falta do Frango a Passarinho do Armazém São Thiago em Santa Teresa, no Rio de Janeiro.

 

11 – Onde você vive hoje?

No bairro de Colegiales em Buenos Aires.

 

SOBRE O ARTISTA : Federico Lamas é artista visual e diretor de arte, trabalha com vídeo, desenho, publicações e instalação. Sua obra explora gêneros de representação artesanais e datados para criar narrativas que revertem expectativas. Expôs em Buenos Aires, Berlim, Toulouse, Barcelona, Cidade do México, Nova York, São Paulo e Lima. Foi premiado pelo vídeo Roger no 15º Festival de Arte Contemporânea Sesc_Videobrasil (2005) e com uma residência na FAAP, em São Paulo, por sua participação na 16ª edição do Festival (2007). Vive e trabalha em Buenos Aires.

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