“Eu não tenho muito tempo livre, mas às vezes vou até a farmácia e fico debaixo das luzes fluorescentes como se fosse um alien.”

Matt Thurber

 

Entrevista com Matthew Thurber, autorde 0-800-RATOS:

 

1 – Qual a história por trás de 0-800-RATOS?

Eu morei anos em Sunset Park, no Brooklyn, que no livro foi transformado em Volcano Park. É uma área com alta densidade populacional e circundada por uma grande colina com um parque e um bocado de árvores no topo. Eu estava pensando no ecossistema da vida urbana e o quão frágil é a sua estrutura inteira. E em como pode haver uma pulsão de morte do meio ambiente que está nos levando à ruína. O filme “Serpico” foi altamente influenciador para este livro. Achei a história de Frank Serpico tão profunda, no sentido de que, ao se tornar um policial infiltrado, ele começa a questionar a sua própria identidade e o significado e o propósito da aplicação de leis.

2 – Foi um livro difícil de ser construído?

Sim, ele levou cinco anos. Começou como uma série gráfica, e eu tirei uma longa folga após a segunda edição para respirar um pouco e pensar em como continuar a narrativa. É como um grande quebra-cabeça e começou a partir de algumas ideias bem intuitivas, que eu estava tentando aglutinar/encaixar em um sistema lógico.

 

3 – Que possibilidades uma narrativa visual te motiva?

Cada meio tem os seus poderes específicos, e é uma luta descobrir quais são. Nas narrativas visuais/quadrinhos você pode criar sentimentos mostrando e não necessariamente contando ao leitor do que se trata, deixando-o livre para que ele mesmo de certa forma complete a história. Você consegue trabalhar com o silêncio. Palavras e imagens se juntam para criar uma fricção infinita.

 

4 – Quando você começou a pensar em narrativas?

Talvez olhando através da janela do carro e imaginando uma pessoa correndo lá fora e pulando por cima de obstáculos.

 

5 – Quais foram os autores/artistas que você admirava à medida que crescia?

Eu fiquei muito impressionado com Daniel Pinkwater, cujos livros de criança mudaram a minha realidade. São como aventuras em um universo oculto-paralelo para crianças. Também House of Stairs e Interestellar Pig, de William Sleator. Eu amava a antologia de ficção científica Dangerous Visions de Harlan Ellison; Elfquest de Wendy e Richard Pini; Bloom Country, quadrinhos de Berke Breathed; Flying Circus de Monty Python. Eu também amava Tintin e Asterix. Minha mãe sempre nos levava a livrarias e bibliotecas.

 

6 – Que tipo de publicações te atraem?

Geralmente aprecio obras com uma boa dose de mistério ou poder editorial. A revista Bananafish dos anos 90 é um ótimo exemplo de um mundo que se abre com um estilo de prosa extravagante e ilustrações bizarras. Recentemente gostei muito de ler Funny Times, um quadrinho em formato de jornal e um periódico satírico. Também de zines publicados por indivíduos obstinados, mas na maioria das vezes leio livros antigos.

 

7 – Quando você começou a se envolver com publicações e quando começou a publicar?

Eu produzia livros artesanais na escola primária sobre vários assuntos como meus gatos ou os sonhos que tinha. Fiz um quadrinho de ficção científica sobre porcos quando eu tinha doze anos chamado “Killer Pigs: Target USA”. No ensino médio comecei a fazer zines e distribuí-los pelo correio. Depois que me mudei para Nova York, voltei a fazer zines com quadrinhos artesanalmente.

 

8 – O que o ato de publicar significa para você?

É como me comunico com o mundo. É um acolhimento geral ao conjunto da raça humana e ao universo. Se não publico alguma coisa regularmente, me sinto deprimido, porque é como se estivesse parando de existir.

 

9 – E o que você tem feito? Quais projetos tem em mente?

Uma nova série de quadrinhos chamados “Art Comic”, que é uma espécie de autobiografia alucinógena sobre o mundo das artes. Estou trabalhando em um mural para uma escola pública em Nova York. Tenho trabalhado também num teatro de fantoches chamado Mrs. William Horsley para algumas performances. E também dirijo a galeria Tomato House com a Rebecca Bird.

 

10 – E o que você faz no seu tempo livre?

Eu não tenho muito tempo livre, mas às vezes vou até a farmácia e fico debaixo das luzes fluorescentes como se fosse um alien. Tenho assistido a muita animação, gosto de procurar filmes esquisitos em VHS. Sou bom em preencher tempo livre porque gosto de começar novos projetos até que a minha vida vire uma avalanche de atividades confusas. Mas não posso reclamar.

 

11 – Onde você mora?

Em Brownsville, Brooklyn.

 

12 – Por que você acha que as pessoas têm tanto medo do próprio corpo?

É uma pergunta percuciente, e eu continuo reescrevendo-a porque não acho que possa efetivamente articular tudo do que gostaria. Primeiramente, nossa mídia nos enche de mensagens sobre como nossos corpos deveriam ser, então constantemente sentimos que não conseguimos estar à altura dos padrões que nos bombardeiam de todas as telas de televisão e capas de revistas. As pessoas são induzidas a sentir que sua aparência física é vital e que vários produtos irão levá-las à felicidade. Além disso, passamos muito tempo em um espaço virtual, e assim ignoramos o valor do corpo. É difícil ser você mesmo, mas o que isso significa no final das contas? Na verdade, espero é que se lembrem, nessa era que é bastante repressiva e conservadora, do quão maravilhosos todos os corpos o são, e quão imperioso é sentir-se livre e aproveitar sua existência física.

 

SOBRE O ARTISTA : Matthew Thurber é cartunista, músico, cineasta e artista multimídia. Nasceu no estado de Washington e mora em Nova York desde 1996. Agraciado pela NYFA Fiction Fellowship 2010, Thurber tem criado narrativas visuais e ilustrações para uma série de antologias e revistas, tais como: Kramers Ergot, The Believer, The New York Times, Mould Map, The Ganzfeld e Paper Rodeo. Em 2014, seu musical “Mining the Moon” foi produzido no Brick Theater, no Brooklyn (NY). Tem atuado extensivamente como Ambergis (uma contínua e mutante banda dedicada a narrativas). Atuou também como saxofonista na banda de muzak-jazz-punk Soiled Mattress and the Springs e já teve seus trabalhos expostos na Southfirst Gallery, The Fumetto Festival (Suiça) e na Weird Things, (Toronto).

<http://www.matthewthurber.com/>

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