“O editor possui muita responsabilidade ̶ publicar o livro é apenas o início de um contrato entre o autor e a editora.”

Rui Tenreiro

Entrevista com Rui Tenreiro, autor de A Celebração:

 

1 – Qual a história por trás de “A Celebração?”

A Celebração conta a história de dois protagonistas quase idênticos que encontram uma estranha criatura na floresta, o que vai aparentemente mudar o caminho de sua jornada. Um tempo depois, um pássaro-demônio possui o corpo de um dos viajantes. Usando-o como um hospedeiro, ele vai deliberadamente fazer com que eles sigam o caminho que ele desejar, fazendo com que se percam em uma vila onde a celebração está acontecendo, e onde o pássaro-demônio irá se revelar e gerar um grande ovo ̶ o objeto de seu desejo e o centro da celebração da vila. É uma história cujos elementos estão integrados de uma forma ou outra, ou desempenham alguma função.

2 – Foi um livro difícil de ser construído?

Não, ele veio muito instintivamente. Consegui chegar a elementos que me agradavam e apliquei-os a uma história que tive prazer em alinhavar. Trabalhei nela de 2006 a 2008.

 

3 – Quais as possibilidades de uma história sem texto?

A linguagem visual pode ser universal, sem precisar de tradução. Também faz com que o leitor se conscientize do texto, através da ausência. A Celebração é rarefeita como texto ̶ o mínimo necessário para que a história avance. O texto pode revelar muito sobre um personagem. Na minha opinião, bolhas de diálogo com texto escrito não é o jeito ideal de introduzir sons em uma imagem, eles são apenas uma solução. Então geralmente fico feliz de ver alguma solução que elimine bolhas de texto, e que deixe os quadrinhos tão dinâmicos quanto um filme, por exemplo.

 

4 – Quando você começou a pensar em narrativas?

Eu apenas comecei a pensar seriamente em narrativas quando meu editor norueguês Erik Falk me pediu para fazer uma história. Até então, eu só queria uma desculpa para publicar desenhos. Mas o editor pediu uma história, então fui forçado a escrever uma. Hoje eu penso que desenhos podem às vezes ficar no caminho das histórias. Eu também penso que quadrinhos são como séries da HBO, uma vez que você entra numa história, ela pode prender como se você estivesse assistindo The Wire ou Twin Peaks.

 

5 – Quais foram os autores/artistas que você admirava à medida que crescia?

Moebius e Hugo Pratt foram meus favoritos quando era criança. Eu também lia muito Asterix, mas me influenciava menos. Uma coisa que me influenciava era uma novela gráfica em que meu pai começou a trabalhar quando eu era criança (sim, ele também desenha). Ele começou a trabalhar nela novamente, recentemente, depois de 30 anos!

 

6 – Que tipo de publicações te atraem?

Aquelas que resistem a querer ser desesperadamente adoradas. Tenho lido muito Manga ou Kamaga nos últimos dez anos, e desde que a Drawn and Quarterly começou a publicar autores japoneses, tem sido difícil voltar para os quadrinhos ocidentais ̶ com algumas exceções como Oliver Schrauwen, Sammy Harkham e os livros que a Landfill Editions e a Breakdown Press têm lançado no Reino Unido.

 

7 – Quando você começou a se envolver com publicações e quando começou a publicar?

Eu comecei a editar e imprimir livros quando não tinha mais nada para fazer, em 2004. Uma série de artistas que eu admirava não estavam sendo publicados no formato livro. Criei uma pequena editora que rapidamente saiu fora de controle porque eu não conseguia lidar com tantos pedidos. Postei um catálogo on-line apenas como um catálogo, sem ser uma loja, mas as pessoas queriam comprar todos – e eu nem tinha Paypal. Enquanto meu trabalho pessoal evoluía, tive que decidir entre publicar o meu próprio trabalho ou o dos outros. Foi então que fechei a minha microeditora de um homem só, Soyfriends, em 2009. Atualmente estou editando um livro com quadrinhos sul-africanos e estou à procura de parceiros e editores. O livro já existe, mas tem sido usado como uma demonstração para uma publicação maior e melhor.

 

8 – O que o ato de publicar significa para você?

Foi uma forma subconsciente de não depender de outros editores, de quebrar a hierarquia editorial. Se você pode publicar os livros que quiser, por que esperar que alguém faça isso por você? Vá e descubra como fazer! Nem todo mundo pode ser um editor, mas às vezes ajuda acreditar que você pode ser, porque talvez você acabe virando um. Por que não?!

 

9 – Até onde o seu trabalho pessoal refletiu no seu perfil editorial?

Eu acho que me facilitou ver as coisas de ambos os lados, artista vs editor. Enquanto a maior parte do trabalho do artista fica pronto antes de o livro ser impresso, o trabalho do editor continua muito tempo depois, com alguma ajuda do artista. É do interesse do artista promover seu próprio livro, mas são as editoras que devem promover e distribuir o autor. Eles servem um ao outro. E algumas editoras não fazem isso o suficiente. Em alguns casos em que o artista faz a maior parte da promoção, ou até da distribuição, a editora deveria aumentar os royalties do autor! É o justo.

O editor possui muita responsabilidade ̶ publicar o livro é apenas o início de um contrato entre o autor e a editora. Se a editora não faz a sua parte, é um sinal prejudicial para o artista. Se uma editora está direcionando todos os seus recursos em alguns autores e pouco em outros, isso é muito ruim para os que não auferem investimento. Esses artistas deveriam sair da editora e procurar alguma outra que vá efetivamente trabalhar com eles. Ninguém deveria se apegar a uma editora que não faz nada por eles. Deveria ser uma cooperação, mas é bom lembrar que o autor já trabalhou muito antes de o livro ser impresso. Mesmo com uma pequena editora, eu não conseguia dar cabo da impressão, da distribuição e da promoção enquanto desenvolvia o meu próprio trabalho autoral em tempo integral. Quando alguns autores ficaram impacientes, tomei a decisão de fechar a editora, ou eu acabaria exercendo mal as duas atividades.

 

10 – E o que tem realizado ultimamente? Quais projetos tem em mente?

Eu tenho trabalhado na minha próxima grande história chamada “Lanternas de Nedzu”, uma história de amor/horror sobre um homem que se apaixona por um caranguejo. Tenho desenvolvido-a lentamente desde 2007. É muito diferente de A Celebração, tem muito mais foco nos personagens e diálogo, mas acontece no mesmo universo. É provavelmente uma história mais madura. Também estou trabalhando com Olle Forslöf da PEOW, que está ilustrando uma história que eu escrevi chamada “O Ogro”, uma fábula popular russa. Não começamos a procurar uma editora ainda, mas vai ser a minha primeira colaboração com um artista. Eu estou ansioso, confio na forma como Olle desenvolve os processos.No lado comercial, tenho me envolvido com direção de arte e cenário para um filme chamado “A Torre”, do diretor norueguês Mars Gorud. Um estúdio francês vai fazer a animação. O trabalho deve começar este ano. É bastante responsabilidade, mas me sinto 100% pronto para a tarefa.

 

11 – E o que você faz no seu tempo livre?

Eu tenho uma pequena loja pop-up onde vendo Kakigöri (um tipo de gelo raspado japonês). Procure#kkgri no instagram. Eu adoro passar tempo com a minha família, lendo Komaga/Mangá/Gekiga, ou comer com os meus amigos. E quem não?

 

12 – Onde você mora ?

Estocolmo. E pelo menos uma vez por ano visito a minha cidade natal, Maputo.

 

13 – Por que você acha que as pessoas têm tanto medo de seu corpo?

Provavelmente não são os corpos que dão medo, mas a mente.

 

SOBRE O ARTISTA : Rui Tenreiro é um artista moçambicano. Ilustrador e diretor de arte, cria experiências narrativas através de histórias, sejam elas no formato de livros, filme ou escrita. Foi o criador, editor e administrador da Soyfriends (2005-2011), uma pequena editora que produzia e distribuía obras de autores independentes. A Celebração é seu segundo livro. Além do Brasil, já teve seu trabalho publicado na Noruega, Canadá, França, Espanha e Estados Unidos. Atualmente vive e trabalha em Estocolmo.

<http://www.theculturefront.com/>

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