“Por alguma razão o silêncio sempre foi inspirador pra mim. Acredito que, com ele, sobre mais espaço para se focar nas imagens e na história por detrás delas. “

Tommi Musturi

 

Entrevista com Tommi Musturi, autor de Caminhando com Samuel:

 

1 – Qual a história por trás de Caminhando com Samuel?

Bem, é algo que eu chamo de “quadrinho em episódios”, um livro que se torna completo através de uma série de histórias curtas e ilustrações de uma página inteira. É basicamente um livro existencial que lida com situações complexas. Posso dizer que, para a maioria das histórias, escolhi uma palavra com significado, para mim abstrato, e construí uma história baseada nela. Então você pode encontrar histórias curtas baseadas por exemplo nos temas “casa”, “amizade”, “aprendizado”, “arte” …

Se eu for falar do personagem principal, Samuel é um tipo de fantasma, invencível na maior parte do tempo. Ele é como um cidadão comum que ninguém percebe nas ruas de uma grande cidade. Tento mostrar o seu lado humano. Em um momento é a pessoa mais forte do mundo e na outro a mais fraca. Suas ações são como as do mundo real, onde nossas escolhas revelam o que somos e nossas crenças.

2 – Foi um livro difícil de ser produzido?

O livro saiu bem naturalmente. Provavelmente porque eu não pensava em escrever um livro. O personagem nasceu no meu caderno de rascunhos enquanto eu treinava para expressar emoções sem palavras usando a linguagem corporal e ações simples. Algum tempo depois fui para a África Ocidental (Benin e Togo), e enquanto estava por lá enchi meus cadernos de rascunho com formas abstratas que, de certa forma, refletiam a natureza que encontrei por lá. E em algum momento percebi que esse cenário seria ideal para o carinha que eu andava desenhando. Então fiz uma história curta de seis páginas e depois disso despertei para outras ideias. Comecei a pensar no todo e assim comecei a construção do livro.

 

3 – Que possibilidades uma história sem texto te impulsiona?

O que me agrada em trabalhar com narrativas sem texto é o fato de que estão sempre mais abertas para interpretação. Eu pessoalmente odeio arte autoexplicativa. Por alguma razão o silêncio sempre foi inspirador pra mim. Acredito que, com ele, sobre mais espaço para se focar nas imagens e na história por detrás delas. Utilizo de muitas sutilezas nos meus quadrinhos, pequenas nuances que normalmente são essenciais, mas que provavelmente desapareceriam se eu usasse texto. A melhor estratégia em não se usar texto é que o leitor precisa pensar mais. E quando eu consigo que ele se envolva com as histórias é o momento em que o conteúdo realmente toma vida.

 

4 – Quando você começou a pensar na construção de narrativas?

Quando eu tinha quatro ou cinco anos, eu fiz um quadrinho, mal me recordo, mas encontrei-o em uma caixa onde a minha mãe guardou alguns dos meus desenhos. Tinha apenas uma página e se chamava “A Guerra não é OK” e mostrava dois tanques se aproximando, cada um vindo de um lado da folha do papel. Eles atiravam ao mesmo tempo, e no último quadro não tem mais nada. Pensando agora, essa história poderia ser um episódio de Samuel.

 

5 – Quem foram os autores/artistas que você admirava à medida que crescia?

Quando penso sobre isso me lembro de três quadrinhos: O primeiro é o italiano Cocco Bill, do Jacovitti. Eu ficava fascinado com as histórias malucas e o uso da imagem (por exemplo, se Coco tivesse que contar até onze ele ganhava onze dedos) e o quão detalhista era. Eu poderia ler a mesma história mil vezes, e sempre haveria algo novo. Outro livro era The Digedags de Hannes Hegen, da Alemanha Oriental. Tecnicamente era um livro bem precário, com ilustrações e textos abaixo delas. O que eu gostava era o quão longas eram as histórias, incomum em livros para crianças. As imagens eram detalhadas e impressas em cores vivas, e a natureza era bastante presente e servia bastante para o conteúdo aventureiro da história.

Outro quadrinho que eu sinto necessidade de mencionar é o americano Judge Dredd. Nunca fui muito fã de quadrinhos norte-americanos sobre super-heróis. Lia alguns, mas a maior parte da minha leitura era de quadrinhos europeus. De qualquer forma, convenci minha tia a comprar a primeira edição que saiu em 1984 na Finlândia, e fiquei impressionado! A arte era poluída, e o mundo distópico era bem diferente dos cenários mais polidos dos heróis norte-americanos. Foi o primeiro quadrinho que li que incluía muitas cenas de violência. Eu gostava muito e ainda gosto. Muitas dessas histórias sobre futuros distópicos acabaram virando verdade em algum momento ̶ programas de TV sobre “realidade”, cirurgia plástica se tornando comum, tudo isso estava incluído nas primeiras edições do Dredd.

 

6 – Que tipo de publicações te atraem?

O que eu normalmente procuro são livros que lidam com questões reais que julgo serem autênticas. Sou atraído por vida em geral, de paradigma existencial (na qual incluo o meu trabalho), e também gosto de um bom livro, simples, pragmático. Ultimamente tudo que se vê são edições de luxo feitas dessa forma para tentar competir com outras formas de entretenimento ̶ o conteúdo não vende muito esses dias, ao contrário da embalagem. A maioria das pessoas não está preparada para novidade, esse é o nosso mundo, e eu não sou muito orgulhoso dele.

 

7 – Quando você começou a se envolver com publicações e quando você começou a publicar?

Comecei meu primeiro fã-zine aos catorze anos com o meu amigo Sami. Se chamava “Sickness”, e fizemos cinco edições em dois ou três anos. Anos depois me mudei pra Helsinki para estudar, e juntamente com um colega criamos uma editora “de verdade”, chamada Huuda Huuda. O ano era 2006, e tentamos criar uma reação para o fato concreto de que naquele tempo nada interessante era traduzido pro Finlandês quando o assunto era quadrinhos. Então começamos com alguns livros, e em pouco tempo estávamos publicando de dez a quinze quadrinhos por ano, traduções de vários lugares do mundo e também artistas locais. Até agora acredito que tenhamos publicado cerca de setenta livros, o que já é bastante, se você considerar que não sabíamos nada sobre o mundo editorial dominado pelos figurões da indústria.

 

8 – Qual a história por trás do nome Kutikuti?

A palavra “Kuti” tem dois sentidos em finlandês. Significa “cócegas”, mas também “projétil”, então existe um contraste entre uma coisa que te faz rir e artefato que explode. Nós tínhamos pensado em vários nomes, mas por algum motivo escolhemos este. Bem, um nome é um nome. Enfim, tudo começou em Helsinki em 2005. Eu e outros quadrinistas havíamos na época acabado de nos mudar para Helnsinki. Tínhamos todos a mesma média de idade (nascidos nos anos 70) e havíamos nos graduado em diferentes escolas de arte. Então,majoritariamente passávamos o nosso tempo em bares pensando no que deveríamos fazer. Pensei que era melhor agir em vez de acordar vinte anos depois e ainda estar naquele mesmo bar. Alugamos um espaço e pouco tempo depois começamos a publicar um jornal de quadrinhos chamado Kuti.

 

9 – Como funciona para você alternar entre publicar o seu próprio trabalho e o dos outros?

Isso foi algo que eu aprendi a fazer, mas não tem sido muito fácil. O mais difícil de encontrar é tempo para fazer tudo. Nos últimos três anos, basicamente toquei a Huuda Huuda sozinho, o que significa quesou o responsável por atualizar o site, escrever releases para a imprensa, fazer o design dos livros, negociar com as editoras e os artistas, vender os livros, viajar para os festivais e todo o resto que você pode imaginar. Isso é bastante trabalhoso, e nada disso pode deixar de ser feito porque existem contas a serem pagas. Além disso eu tenho o meu próprio trabalho na minha cabeça, que é o prioritário a fazer. Nunca recebi nada pelo trabalho que desenvolvo naHuuda Huuda. Conseguimos pagar os artistas e os seus royalties, os tradutores e a sua remuneração, e por aí vai… Mas basicamente é apenas trabalho voluntário, que eu valorizo para a cena local. Entretanto, me sinto bastante frustrado às vezes. Para conseguir trabalhar nos meus próprios livros,preciso encontrar tempo suficiente ̶ não consigo desenhar duas horas aqui e três horas ali. Para construir um livro como Samuel, significa que eu preciso sentar e realmente trabalhar nele, mergulhar e deixar o quadrinho me levar. Diria que é uma batalha eterna que escolhi travar.

 

10 – Até onde o seu trabalho reflete a sua vida de editor?

Bem, meu trabalho autoral e o que eu publico são duas situações diferentes. Apenas publico material de que eu gosto e que sinto ser relevante. Não publico apenas entretenimento ̶ preciso de uma outra razão para isso. Entretenimento é um bônus. Claro que tudo isso é filtrado através da minha perspectiva, trazida dos meus próprios livros e dos trabalhos de outros artistas. Nas publicações de outros, o que eu mais valorizo é o nível artístico, o conteúdo, mas também o fato de que alguém foi capaz de elevar a expressão do quadrinho a outro patamar. É tudo isso junto que, somado, me faz querer publicar um trabalho ou não. Logicamente,para uma pequena editora, existem séries de livros que são inacessíveis, porque têm seus direitos de publicação atrelados aos interesses de outras editoras maiores, que demandam ônus adicionais, e por esse motivo se tornam caros demais para que eu possa publicá-los. Meus próprios projetos sempre acabam tomando proporções épicas, então costumo trabalhar com eles durante alguns anos. Mas, tanto no meu trabalho quanto no catálogo da HuudaHuuda, você consegue encontrar formas parecidas de lidar com alguns temas da humanidade e da própria vida em si mesma.

 

11 – Você pode definir o que o ato de publicar significa para você?

É uma parte essencial dos quadrinhos. Um artista pode trabalhar sem uma editora, mas não é uma situação muito estável. Se você parar pra pensar perspectiva de quadrinhos finlandesa, ela é muito restrita. Todas as pessoas se conhecem de alguma forma. Apesar de termos uma boa quantidade de artistas, a produção não se sustenta por si mesma. Situação semelhante acontece para muitos limitadosestratos em países europeus. Huuda Huuda e a Kutikuti têm e tiveram o papel de trazer as novidades, de oferecer a chance de jovens artistas talentosos de publicarem pela primeira vez. E isso é fundamental, eu sei, porque eu e a minha geração não tínhamos esse tipo de oportunidade. Esta é arazão que nos faz, então, criar e fomentar tais oportunidades. Então, majoritariamente publico para esse cenário, mas também tento alcançar um novo público-alvo. Andei viajando muito durante osúltimos dez anos e uma coisa que sempre faço é mostrar o trabalho de artistas finlandeses, o que para mim é fácil de fazer já que eu convivo commuitos artistas finlandeses. De qualquer forma, em nosso país, Huuda Huuda e Kutikuti são as alternativas ao mainstream.

 

12 – E o que você tem feito? Quais os projetos em mente?

Acabei de terminar um projeto de dez anos chamado “The Book of Hope”, uma novela gráfica publicada originalmente na Finlândia e na França em cinco partes menores. Ano passado eu trabalhei seis meses só com a produção de uma coedição do livro que foi publicada na Alemanha, na Polônia, na Dinamarca e na Espanha. Eu escrevi à mão as traduções em todas as edições em línguas estrangeiras, então foi um dos motivos de ter demorado tanto tempo. Enfim, muitas viagens daqui para frente, e vou ter que comparecer a algumas feiras para exposição do livro. Durante os últimos anos, tenho trabalhado com o segundo livro do Samuel, com o título “Obey Samuel”. Quando o primeiro livro, Caminhando com Samuel, foi lançado, decidi que a história acabava por ali. Mas depois de algumas semanas surgiram ideias de novos episódios, e mesmo que eu tentasse usá-los em outras histórias, parecia que haviam sido escritos para o Samuel. Então senti esse pequeno ser fantasmagórico me forçando a escrever um segundo livro. Vamos ver se vai ser o último. De qualquer forma, será mais longo ,um colossal trabalho a ser feito, mas eu ainda estou dentro do meu cronograma. Será um livro um pouco diferente comparado ao primeiro, já que agora existem certos capítulos dentro do livro que funcionam para dividir a história toda em partes menores. Eu também estou usando formas narrativas mais variadas, mas um leitor que tenha gostado do primeiro livro possivelmente vai se sentir em casa com o próximo também. Além do Samuel, tenho trabalhado em um pequeno panfleto para a editora Kuš! Komiks, da Lituânia, e provavelmente publicarei alguns cadernos de rascunho em breve. Tem também esse instigante projeto que denominei de “The Future”. É uma novela gráfica sci-fi que vai narrar um possível futuro para a humanidade. É também um trabalho bem fragmentado, extenso, e ando tentando combinar todos os estilos diferentes de desenho em um só. Com características épicas, mais uma vez, eu diria.

 

13 – E o que você faz no seu tempo livre?

Se eu tiver algum, faço o habitual: encontro com amigos, shows, leio, ouço música, e por aí vai. Recentemente comecei a jogar basquete com amigos. No verão passo muito tempo no interior de onde eu vim. Uma coisa que gosto muito é pescar com alguns poucos amigos que também trabalham no campo criativo. Combina uma série de atividades salutares: estar na natureza, esquecer o trabalho e tudo que está relacionado, comer alguma comida fresca local e também fazer exercício. Isso é necessário para quem passa muitas horas sentado na frente de uma escrivaninha ou de um computador. a 25 graus célcius, o sol ainda não nasceu, e você está rodeado do mais completo silêncio. É um ato contemplativo

 

14 – Onde você mora?

Em Tampere no momento, cerca de 160 km de Helnsinki, meio-sul da Finlândia. Vivi aqui por quatro curtos períodos anteriormente, e gostei. Morei dez anos em Helsinki e já é suficiente. O ritmo de vida aqui é muito mais tranquilo, e o efeito disso é que consigo concentrar-me mais no que faço. É uma cidade com tradição trabalhista de esquerda e fortes movimentos underground. É totalmente diferente de Helsinki, onde todo mundo só aparenta querer estar na moda. Apesar do fato de Tempere não oferecer muito suporte para as artes, vejo que esta pequena cidade pode ser muito criativa e alternativa com múltiplas variantes.

 

15 – Por que você acha que as pessoas têm tanto medo do seu próprio corpo?

Porque elas percebem que o Deus que as criou cometeu um erro.

 

SOBRE O ARTISTA: Tommi Musturi tem fortemente influenciado uma geração inteira de artistas finlandeses. Como quadrinista, ilustrador e artista visual, experimenta com diversos estilos e campos artísticos e está sempre a se reinventar. A intensidade e visão de um mundo absurdo, porém maravilhoso, são elementos constantes do seu trabalho.

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