“A revista Animal foi formadora do meu caráter, eu tinha 12 anos, e ela determinou o rumo da minha vida.”

O Divino quando criança?

 

Entrevista com Adriano Motta, autor de Mickey Speed #_01:

 

1 – Qual a história por trás de Mickey Speed?

Vinha fazendo uma série de trabalhos chamados “Storyboards” desde 2004,para filmes que não existiriam. Eram uma associação livre de desenhos que sugeriam cenas cinematográficas. A estrutura desses desenhos quase que forçava quem se propusesse a lê-los a abdicar de uma ordem linear, tornando o processo de leitura totalmente randômico. Uma narrativa abstrata, algo que permeia todas as frentes do meu trabalho. Mickey Speed veio de uma vontade natural de produzir um dos meus Storyboards em forma de livro.

2 – Foi um livro difícil  de ser produzido?

Não. A única coisa inesperada para mim foi a encadernação. Fiquei um tempo procurando um lugar que fizesse o acabamento de costura lateral em “grampo a cavalo” que é mais comum. Quando encontrei um lugar que me deu um preço viável, quis acompanhar o processo para saber que tipo de equipamento dava esse acabamento. Era uma máquina de costura Singer igual à que a minha mãe tinha, e o processo era manual, com uma senhora passando cada livro na máquina, um por um.

 

3 – Que possibilidades uma história sem texto te impulsiona?

No caso de Mickey Speed, em que a narrativa é totalmente free-form, acho que adicionar som (em se tratando de imagem+texto costumo me referir a texto como som) implicaria uma literariedade que interromperia esse fluxo delirante de sonho que o desenho procura representar.

 

4 – Quando você começou a pensar na construção o de  narrativas?

Desde criança quase só faço desenhos pensando nas implicações espaço-temporais das ações representadas. Minha educação visual se fez nas histórias em quadrinhos, mas, mesmo em história da arte fui marcado mais por trabalhos com qualidades narrativas, como os Desastres de Guerra de Goya e as óperas-gravuras de Hogarth, os trípticos de Bacon, os mapas de Fahlstrom, o Tricky Cad de Jess Colins, Paper Rad, Forcefield, as instalações de Thomas Hirschhorn, o univerno de Wim Delvoye, chega.

 

5 – Quem foram os autores/artistas que você admirava à medida que crescia?

A revista Animal foi formadora do meu caráter, eu tinha 12 anos, e ela determinou o rumo da minha vida. Não só os quadrinhos, a revista para mim foi um estilo de vida. Tudo que passei a ler e ver, de alguma forma saiu dali e depois foi puxando outras coisas. Mas minha vontade de viver veio da Animal.

 

6 – Que tipo de publicações  te atraem?

É preciso respeitar o papel que se usou para imprimir. Hoje em dia livro tem que ter um posicionamento como objeto, tem que honrar sua existência no mundo físico. Do contrário não precisa ser livro, pode ser web (que também é publicação, e muitas vezes jogada para uma segundacategoria). Voltando ao livro impresso, acho que sua matéria tem que falar junto com o conteúdo, então tem que ter um design e uma produção gráfica que seja coerente com o que se quer transmitir. Não me refiro necessariamente a tratamentos de luxo, o livro pode ser xerocado, desde que isso esteja de acordo com seu propósito. Sou apaixonado por livros, quando tudo desce redondo então (papel, encadernação, texto, tipografia, imagem, cheiro etc), chega a ser erótico.

 

7 – Quando você começou a se envolver com publicações  e quando começou a publicar?

Em 97 eu trabalhava como ilustrador no jornal O Dia. Ganhava uma merreca, mas, como ainda morava com meus pais pude juntar um dinheiro para bancar minha primeira publicação, um livro de 36 páginas intitulado “A Quem Interessar Possa”. Sem nenhum conhecimento de processos gráficos produzi mil exemplares impressos em offset. Depois me arrependi, pois estava uma merda. Não só a impressão, a história estava ruim, o texto e as imagens também. Distribuí em alguns lugares, mas os pacotes com quase todos os mil exemplares ainda estão na casa da minha mãe. O fato é que fiz essa publicação por impulso de publicar alguma coisa, vontade de mostrar para mim mesmo que era isso que eu tinha dentro de mim. Em Nova Iorque fiz outro livro, esse com tiragem mínima (50 exemplares impressos em serigrafia), chamado “Ex Nihilo”. A vontade de fazer livros nunca saiu de mim.

 

8- O que o ato de publicar significa pra você?

É o que quero fazer da vida. Ainda não é o que eu faço para me sustentar,mas eu chego lá. Fazer um trabalho autoral e colocá-lo à disposição de umpúblico amplo, de forma acessível, um trabalho de arte que qualquer umpode comprar, para mim é uma realização mais importante do que participar de exposições.

 

9 – O que você tem feito? Algum projeto novo em vista?

Recentemente lancei “Teratoma” ou “A Morte da Caveira de Metal”, num suporte de publicação que ainda vou explorar muito: o book-poster ou livro-pôster. Ou seja, páginas de um livro espelhadas numa superfície plana como um pôster para ser lido como um livro. O trabalho foi impresso em offset e está sendo distribuído gratuitamente na Galeria Ludha, no shopping Cassino Atlântico, onde aconteceu minha exposição “Atelier O Divino”. Agora ele estará disponível n’ A Bolha.

 

10- O que significa O Divino?

Uma corporação sem rosto por trás da qual me escondo covardemente.

 

11 – O que faz no seu tempo livre?

Tenho uma filha de 3 anos, não tenho tempo livre.

 

12 – Onde você mora?

No trânsito entre Humaitá e Rio Comprido.

 

13 – Por que você acha que as pessoas têm tanto medo do próprio corpo?

Porque não o tocaram suficientemente.

SOBRE O ARTISTA: Adriano Motta, nascido em Oklahoma, EUA, 1975. Formado em design, trabalhou como ilustrador para jornais e revistas. Trabalhou em todas as áreas do design, de editorial a web. Produziu sua primeira autopublicação em 1998, estudou sobre livros de artista em Nova York com David Sandlin, mantém uma produção constante de pinturas desde 2003, grava discos, participou da Orquestra Equestre de Libertação. Toca noise no sax-tenor e no soprano.

<http://www.odivino.com>

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