“Ah sim, a autopublicação é também inerentemente a grande ação anticapitalista…”

Heather Benjamin por Heather Benjamin

 

Entrevista com Heather Benjamin, autora de Exorcise Book:

 

1 – Qual a história por trás de Exorcise Book?

Exorcise Book nasceu basicamente de uma ideia que eu tive de fazer um livro que fosse apenas uma coleção de ilustrações, sem uma narrativa linear explícita, mas uma história solta formada a partir da repetição de imagens diferentes e símbolos.

2 – Foi um livro difícil de ser produzido?

Levou dez vezes mais tempo do que eu esperava, então acho que isso o torna difícil. A ideia com o Exorcise era que eu estava de certa forma me expurgando imageticamente. O processo de fazer essas ilustrações foi intenso e consumiu muito tempo, consumiu todo o resto da minha vida, na verdade. Eu passei muito tempo agonizando tentando decidir quais imagens incluir ou não incluir no livro, sem falar no tempo que levei para criá-las.

 

3 – Quais possibilidades uma narrativa sem texto te dá?

Eu tendo a apreciar narrativas mais óbvias que incluem texto, mas uma das razões que me faz realmente gostar de trabalhar sem palavras é que abre caminhos para interpretações mais pessoais do leitor. E requer um trabalho maior de compreensão  ̶  não deixa as coisas tão óbvias, mas também não torna o sentido totalmente obscuro. Apenas faz com o que o leitor tenha que se esforçar mais, e abre as portas para um senso de universalidade e personalização sem deixar de ser algo especificamente atrelado à minha experiência como criadora.

 

4 – Quando você começou a pensar em narrativas?

Eu escrevia muito quando era mais jovem, gostava de escrever histórias e poemas, e lia quadrinhos também. Essas duas coisas nunca fizeram sentido juntas para mim até o fim do ensino médio, ou um pouco depois. Acho que foi quando comecei a pensar sobre como imagens que não necessariamente incluem palavras, ou muitas palavras, podem gerar histórias e narrativas. Henry Darger é um grande exemplo de artista que me influenciou desde jovem e me fez começar a pensar sobre narrativas agridoces e surreais sugeridas por sequências de imagens que não eram
necessariamente colocadas em um formato de quadrinhos, sem perder o seu sentido de narrativa, ainda que retendo-o vagamente.

 

5 – Quais autores/artistas te influenciaram à medida que você crescia?

Quando eu comecei a procurar conscientemente por arte, eu buscava obras da Frida Kahlo, Henry Darger, Egon Schiele… eu costumava pintar bastante no colégio. Quando tinha por volta de 16 anos, fui introduzida ao mundo dos quadrinhos e da arte underground, conhecendo artistas como Gary Panter, Brian Chippendale, C.F., Mat Brinkman, todos os trabalhos lançados pela Picturebox, material antigo da Paperrad. Essas foram as coisas que me Introduziram às estranhas formas de se fazer quadrinhos,narrativas e arte. A partir daí eu comecei a voltar no tempo, pesquisando o trabalho de Robert Crumb, da Zap Comics, Weirdo e as artistas Trina Robbins, Wimmens Comix, todo o lance outsider dos anos 70, que ainda me influenciam enormemente.

 

6 – Que tipo de publicações te atraem normalmente?

Eu adoro zines que são apenas coleções de ilustrações, com ou sem palavras. Eu me interesso mais por trabalhos feitos sem o uso de um computador ̶  apesar de ser extremamente apegada à utilização de fotocopiadora no meu trabalho, que é tecnicamente um computador, apesar de eu ainda considerá-la inerentemente uma forma de máquina analógica. Para mim, usar uma fotocopiadora para criar um zine é muito, muito diferente do que construí-lo no photoshop, indesign ou o que for. Eu não apenas não gosto do resultado final de trabalhos feitos dessa forma, como acho que eles soam falsos e empertigados, é como uma trapaça. Eu gosto de coisas feitas a mão, com muita tentativa e erro e lágrimas e papel jogado fora.

 

7 – Como você começou a se envolver com publicações e há quanto tempo você publica?

Eu fiz o meu primeiro zine, a primeira edição de “Sad Sex” em 2008. Era um material em preto e branco, xerocado e em edição limitada, acho que quinze ou vinte cópias. Logo depois fiz a segunda edição e continuei a publicar Sad Sex até a décima edição, em 2012 ou 2013, e desde então tenho majoritariamente publicado sozinha meus próprios zines. Tive alguns publicados por outras pessoas e dois livros com meus desenhos compilados: Exorcise Book e Sad Sex, o último é uma coleção de bolso das primeiras dez edições do meu zine homônimo.

 

8 – O que o ato de publicar significa para você?

Quando eu decidi começar a imprimir zines com os meus desenhos, isso surgiu de um instinto simples e inocente  ̶  o fato de eu sempre ter adorado o formato livro, combinado com querer distribuir o meu trabalho de uma forma barata, combinado com um pequeno fervor pela ideia que eu tinha de um zine DIY (Do It Yourself / Faça Você Mesmo), inspirada pela jeito punk rock de publicar, toda aquela tradição. Agora que já estou trabalhando com isso há algum tempo, e tenho muito mais experiência e sentimentos em relação ao assunto, mesmo assim, no fim das contas ainda é porque eu amo livros. Eu amo imagens singulares, desenhos e pinturas, mas a experiência de olhar um desenho em um livro é muito diferente. Quando você olha um desenho ou um quadro na parede, na maior parte do tempo existem outras pessoas em volta, você está parado a uma certa distância, você tem um limite de tempo para a sua experiência. Olhar um livro de desenhos é uma experiência tão mais privativa, e acho que isso é bastante importante para mim no meu trabalho. Eu quero que as pessoas que se relacionam com meu trabalho possam mergulhar na experiência e serem capazes de estar realmente sozinhas com ele. Que possam carregar por aí nos bolsos, segurar bem perto dos rostos, dobrá-las, jogarem na parede, colocar dentro de um livro diferente, o que for. A experiência que um zine pode criar é uma apreciação, uma relação privada e pessoal, e essa é uma das razões que
me fazem amar o ato de publicar. Além disso, como falei, eu adoro o formato livro, esteticamente falando. É incrível poder ser capaz de disseminar o seu trabalho de uma forma barata, fazer zilhões de cópias e ainda ser capaz de dá-las de graça porque eles custaram para você menos de um dólar para fazer. Zines feitos de uma forma cara meio que
estão na moda agora. Eu não os odeio totalmente, alguns são ótimos, mas eu os vejo muito mais como livros. Para mim, o ponto de um zine é que é uma coisa barata que você passa horas e horas na copiadora tentando arrumar. Ah sim, a autopublicação é também inerentemente a grande ação anticapitalista… a lista do por que eu amo publicar zines poderia continuar para sempre.

 

9 – E o que você tem feito? Alguns outros projetos em mente?

Eu saí da escola de arte em 2010 e voltei ano passado para terminar a minha graduação, então isso obviamente tem tomado muito tempo. Tem sido uma experiência fantástica  ̶  estar na escola quando você realmente DESEJA estar na escola é fantástico.

Falando de projetos, eu coloquei uma série de projetos com outras pessoas na lista de espera porque tenho perdido muito tempo nos trabalhos da faculdade, mas eu tenho uma série de ideias e projetos para zines e livros, estou trabalhando na minha segunda exposição individual, ando experimentando com escalas maiores do que nunca e voltei a pintar um pouco, também tenho enveredado por ilustrações editoriais…

 

10 – E o que você faz no seu tempo livre?

O que é tempo livre?!

 

11 – Onde você vive hoje em dia?

Moro em Providence, Rhode Island. Me mudei para cá do Brooklyn para voltar pra faculdade, mas eu não tenho nenhum plano de me mudar tão cedo  ̶  eu realmente gosto daqui.

 

12 – Qual a primeira memória que salta à sua mente quando você pensa na Pãodeforma?

Eu penso muito em quando estava no Rio no ano passado durante a Pãodeforma, e o quão fantástica toda a experiência foi. Eu já tinha ido a muitos festivais de quadrinhos e zines nos Estados Unidos, mas nenhum deles foi como a Pãodeforma  ̶  não apenas o lugar era absolutamente lindo, e todo o trabalho era incrível e surpreendente, como a vibe geral de ser metade festa e metade feira de arte impressa era fantástica. Eu adorei que todo mundo, pessoas de todas as idades, pareciam tão excitadas e felizes, nadando na piscina, encontrando seus amigos, conversando, olhando o trabalho que estava sendo exibido, tocando discos, a coisa inteira era tão não-convencional comparada às feiras daqui, mas parecia um milhão de vezes mais genuína e divertida, incrível!

 

13 – Por que você acha que as pessoas têm tanto medo dos próprios corpos? 

Eu acho que tem muita coisa nessa pergunta, mas a minha primeira e mais importante resposta é que eu acho que isso vem majoritariamente de construções sociais e da mídia. As pessoas estão o tempo todo sendo bombardeadas, desde quando nos entendemos por gente, com imagens do corpo ideal, do rosto ideal, da pele ideal, peso ideal etc… E se isso não fosse ruim o suficiente, as pessoas são encorajadas a se sentirem desconfortáveis com a sua própria anatomia, ou de não se sentirem a vontade com ela. Um exemplo bem gráfico: a ideia de que a menstruação é algo sujo ou nojento é uma grande construção social. É um símbolo incrível de fertilidade e feminilidade, mas se transforma nessa coisa para a qual existe um mercado inteiro que gera dinheiro a partir desse único fato (companhias que vendem absorventes, OBs, etc) e as mulheres são forçadas a comprar e comprar e comprar mais produtos para manter sob controle e sentir vergonha. Sexo menstrual é uma coisa que só acontece com pessoas que estão mais confortáveis com o seu corpo e funções vitais do que a maioria. E OBs vêm com um aplicador, então você nem precisa sujar os seus dedos ou tocar a sua própria anatomia enquanto coloca. Eu acho isso insano, e que desperdício de plástico! Vocês estão tão desconfortáveis consigo mesmos ou desconhece tanto o seu próprio corpo que você não consegue colocá-lo sozinho? Eu uso absorventes sem aplicador, e toda vez que falo isso numa conversa alguém fica bastante enojado. Acho isso insano. Digressões à parte, o que eu estou tentando dizer é que o nojo e o desconforto das pessoas em relação a seu próprio corpo é um produto da sociedade normativa e da mídia. E mesmo para alguém como eu que não apenas está ciente desse fato, mas tentando ativamente transformá-lo, provavelmente nunca vou me sentir totalmente em paz comigo mesma, porque estou saturada dessas mensagens e padrões desde que nasci  ̶  essas influências correm de maneira profunda demais.

 

SOBRE A ARTISTA : Heather Benjamin é originalmente de Nova Jersey mas se estabeleceu como artista em Brooklyn. Estudou impressão na Rhode Island School of Design por dois anos antes de abandonar o curso e se mudar para Nova York. O trabalho de Benjamin é psicótico, sexual,delicado. Trata-se de uma exploração do humor, da dor, do medo e do êxtase da sexualidade humana.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.