“É estranho e um tanto perturbador porque nos lembra que somos claramente uma máquina ou um organismo.”

Entrevista com Seth, autor de Wimbledon Green:

1 – Qual a história por trás de Wimbledon Green?

Uma resposta simples. Depois que publiquei um livro de ilustrações dos meus cadernos de rascunhos (“Vernacular Drawings”) eu comecei a perder interesse em rascunhar ilustrações de página inteira nos cadernos a partir
daí… e descobri que estava mais interessado em fazer pequenas tirinhas soltas em vez disso. Eu fiz algumas peças autobiográficas nos meus cadernos, mas achei que elas eram um pouco tediosas de serem trabalhadas. Queria algo mais imaginativo, mais divertido de desenhar. Entretanto, eu também não queria colocar nem muito tempo nem esforço em planejar uma história complicada. Então eu decidi simplesmente improvisar e criar a narrativa enquanto desenhava, algo divertido mas fácil de inventar. Algo próximo de mim que eu não precisasse fazer pesquisa de nenhuma forma. Sendo um colecionador por natureza e conhecendo intimamente o mundo dos quadrinhos pareceu natural pra mim fazer uma história leve e engraçada sobre os tipos de colecionadores e as suas idiossincrasias.
Além disso, na época eu estava lendo um ótimo livro sobre colecionadores chamado “A Fine Madness” do N. Basbanes. Serviu como um bom guia pra minha história. Ladrões de livros, leilões corruptos e obsessivos compulsivos. Foi pura diversão.

2 – Foi um livro difícil de ser feito?

Não, bem o oposto. Foi praticamente apenas diversão. Eu desenhava uma página por dia durante seis meses (bem diferente de outros quadrinhos que fiz) e parecia quase uma brincadeira. Sem estresse.

 

3 – Que possibilidades uma narrativa visual te dá?

Nesse caso, sendo bem solta na parte do desenho e sem nenhum tipo de planejamento preliminar, eu abri as portas para não me importar com o trabalho parecer terminado ou polido. Significava ser livre e fácil, e espontâneo, e isso significava que eu não tinha que suar e me preocupar com o trabalho. Também significa que, como eu estava inventando a história enquanto avançava, que eu tinha que trabalhar com certas fórmulas de design. Um certo número de painéis por página, por exemplo. Facilitei o meu lado colocando um monte de pequenos painéis em cada página e dessa forma limitando o quão complexo o desenho seria. Você não consegue muita coisa nesses painéis pequenos e faz o trabalho fluir com uma boa velocidade. A de uma página por dia. Às vezes mais, se eu tivesse tempo, com outros livros, em que eu planejo antecipadamente o design da página e como eu vou contar as histórias, é tudo muito mais complexo. E também mais importante pra mim.

 

4 – Quando você começou a pensar em narrativas?

As minhas memórias mais antigas sobre narrativas são da época do jardim de infância. Muito jovem. Eu lembro de fazer uma série de desenhos sobre um pequeno submarino e dentro de uns rabiscos que representavam o oceano eu desenhava o submarino em várias atividades, sempre com o mesmo cenário. Eu compreendia, mesmo tão jovem, que estava quebrando as regras de um desenho incluindo ações que podiam acontecer no mesmo momento. Um tempo depois, eu lembro de desenhar um cenário de guerra em um pedaço muito longo de papel. Desenhei um exército de cada lado e ações deles avançando para o meio. No meio desenhei uma batalha, estava pensando sobre tempo e espaço de uma forma muito infantil, mas logicamente essa é a essência da linguagem das histórias em quadrinhos.
Mais tarde eu descobri as tirinhas e HQs e comecei a pegar a linguagem dos quadrinhos.

 

5 – Quais autores/artistas você lia enquanto crescia?

Existem alguns. Apesar disso, apenas poucos destes me interessaram por muito tempo. Um livro que eu li quando era bem jovem (com 5 anos ou talvez mais novo) influenciou muito a minha forma de pensar. Foi um livro gordo e mal impresso chamado 365 Bedtime Stories. Escrito por Nan Gilbert e ilustrado pela Jil Elgin. Cada página era uma história e todas elas eram sobre uma rua com
muitas crianças morando nela. Essa abordagem fragmentada de uma narrativa afetou profundamente a minha cabeça (eu entendo isso em retrospecto, claro) e eu suspeito que no padrão subconsciente de toda a minha escrita.

Com cartunistas, Charles Schulz seria meu interesse primário. Depois, Jack Kirby foi muito muito importante na minha adolescência. Um pouco depois, J.D. Salinger e Albert Camus. Ultimamente, Alice Munro e George Moore.

 

6 – Que tipo de publicações te atraem?

Isso depende de que época da minha vida estamos falando. Quadrinhos antigos, claro, sempre foram o meu interesse. Apesar disso, todos os tipos de efemeridades do século XX me interessam. Livros velhos, revistas velhas, panfletos velhos, jornais etc. Todos têm uma maravilhosa presença evocativa. Eu gosto de impressos. Obviamente. O New Yorker foi uma publicação importante pra mim no início dos meus vinte anos porque foi onde descobri muitas das minhas influências em cartum. Estou falando basicamente sobre velhos volumes do New Yorker do meio para o início do século XX. Não tanto os que estão atualmente nas
bancas. Raw e Weirdo Magazine foram muito importantes também nessa época da minha vida. O mundo digital de hoje não me seduz muito.

 

7 – Como você se envolveu com publicações, e há quanto tempo você publica?

Bem, eu não publico nada sozinho. Sempre trabalho com alguém. Minha história com publicações é majoritariamente com a D&Q de Montreal. Conheci o Chris Oliveros quando estava começando os meus próprios
quadrinhos e nós ficamos amigos, e ele tinha fé em mim, e eu tomei a decisão de começar a minha série PALOOKAVILLE com ele, e foi uma decisão muito sábia, pensando agora. Eu nunca me arrependi por um segundo. Drawn and Quarterly tem sido uma editora perfeita pra mim. Eles sempre me deram a liberdade de explorar e aprender a ser o artista que sou hoje.

 

9 – É fácil pra você ir e voltar entre o seu próprio trabalho e o seu trabalho como designer de livros?

Sim. Todo o meu trabalho é uma única peça. Significando, eu penso da
mesma forma desenhando e no design. Eu tenho um senso estético bem claro e flui pelas mesmas linhas com seja lá o que eu estiver trabalhando. Eu sou meio ditatorial em alguns casos. Tenho ideias fortes sobre beleza e estou
sempre mentalmente redesenhando o mundo dentro da minha cabeça, onde quer que eu esteja e o que quer que eu esteja olhando. Eu quase sempre gostaria mais se as coisas fossem feitas do meu jeito.

 

10 – Você pode definir o que o ato de publicar significa pra você?

Comunicação, primeiramente. Uma tentativa de comunicar para os outros como eu vejo a vida, e como ela me faz me sentir. De permitir que a essência de quem eu sou sobreviva de alguma forma entre a capa e a contracapa de um livro ou nas formas de um design.

 

11 – E o que você tem feito? Que outros projetos estão em andamento?

Basicamente a mesma coisa de sempre. Estou trabalhando na próxima edição de Palookaville – que conclui a minha longa história Clyde Fans e outro suplemento do meu livro de memórias, Nothing Lasts. Depois tenho duas ou três ideias de histórias que eu preciso decidir qual vai ser mais
urgente de trabalhar. Eu tenho sempre um bocado de projetos privados em que estou trabalhando. A maior parte do tempo em colaboração com artistas plásticos. Estou desenhando alguns objetos de cerâmica agora. E algumas
peças de ferro. Em breve vou começar a trabalhar numa série de pequenos desenhos para uma galeria no outono. E acho que vou começar a escrever um livro para crianças no ano que vem.

 

12 – O que você faz no seu tempo livre?

Veja a resposta lá, anterior! Brincadeira. Eu passo MUITO tempo com a minha esposa. Nós saímos para explorar o interior de Ontario. Procurando lugares velhos, monumentos antigos – olhando dentro de igrejas. Também passamos muito tempo sentados em piano bares mal-iluminados bebendo vinho. Eu falo muito.

 

13 – Onde você mora hoje em dia?

Em uma pequena cidade perto de Toronto chamada Guelph. Não é um lugar muito antigo. Acho que a primeira árvore foi derrubada aqui em 1827. De qualquer forma, demorou trinta anos até se tornar algum tipo de vila. É um lugar quieto, fácil de morar. Provavelmente vou morrer aqui. Espero que num
futuro distante.

 

14 – O que vem em mente quando pensa no Brasil?

Majoritariamente clichês, imagino. A floresta tropical. A Amazônia. A bela cidade de Brasília (que só vi em velhas fotos). Leiningen Versus the Ants, que meu pai leu pra mim enquanto era criança. Arquitetura estilo espanhol. Eu sei que isso deve ser cansativo e vergonhoso de você ler. Canadenses têm o mesmo problema quando você pergunta a alguém o que eles pensam do Canadá. Eles dizem neve, esquimós e a Guarda Montada.

 

15 – Por que você acha que as pessoas têm tanto medo dos próprios corpos?

Porque é a casa em que residimos. É nós mesmos… mas parece de certa forma uma prisão de carne em que existimos. Nós e não-nós. Nos apresenta a um essencial. Dentro e fora. É estranho e um tanto perturbador porque nos lembra que somos claramente uma máquina ou um organismo. Pode parar de funcionar a qualquer momento. Suas operações são estranhas e muitas vezes perturbadoras.
SOBRE O ARTISTA : Seth é o cartunista por trás da série de quadrinhos Palookaville, que começou na idade da pedra como um panfleto e agora é uma capa dura semianual. Seus quadrinhos apareceram no New York Times Magazine, Best American Comics, e McSweeneys Quarterly. Suas ilustrações têm aparecido em várias publicações,
incluindo na capa da New Yorker, the Walrus, Canadian Notes & Queries. Ele também é parceiro de Lemony Snicket na nova série Young Readers, All the Wrong Questions, e ilustrou e projetou uma nova edição deluxe de Sunshine Sketches of a little Town de Stephen Leacock. Ele é o designer de várias reedições de clássicos dos quadrinhos, coleções do trabalho de Charles Schulz, John Stanley, e Doug Wright. Seth já expôs em todo o mundo em uma variedade de exposições em grupo e individuais. Ele foi o tema de uma exposição individual Art Gallery of Ontario, que apresentou a primeira exibição pública de sua cidade modelo, Dominion. Ele é agora parte da coleção permanente da Galeria. Ele é o tema de um próximo documentário da National Film Board intitulado Seth’s Dominion. Seth vive em Guelph, Ontário, com sua esposa Tania e seus dois gatos em uma casa antiga que ele tem chamado de final de Inkwell/ Inkewell’s end.

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