“O problema entre mim e a internet é que ela funciona em cima de fatos, números e informação. Mas sem a carne e o sangue e a respiração.”

Autor de "Gigantes do Jazz"

 

Tradução livre de entrevista com Studs Terkel, autor de Gigantes do Jazzretirada dos sites Mother Jones e The Progressive. Entrevistas originalmente disponíveis em outubro de 1995 (Mother Jones) e outubro de 2004 (The Progressive).

1 – Você ainda digita as suas entrevistas na sua velha Remington. Você já entrou na internet? (Mother Jones, 1995)

Eles me pegaram nessa na última convenção da American Booksellers Association. Eu não sabia sobre o que eles estavam falando. O problema entre mim e a internet é que ela funciona em cima de fatos, números e informação. Mas sem a carne e o sangue e a respiração. Com quem eu estou falando? Com o que eles se parecem? Seria uma multitude, 25 pessoas do outro lado? Quem é aquele garoto estranho? E a senhora com uma muleta? O toque humano é o que falta.

Esse é um dos aspectos de Coming of Age, uma das reclamações de muitas dessas pessoas mais velhas. Tecnologia – alguns dos meus heróis e heroínas bem sabem – deixa-os um pouco infelizes porque tem algo pessoal faltando.

2 – De uma certa forma, seus livros e entrevistas foram percursores da internet, provendo informação geralmente sem filtro e ideias para e vindas de pessoas comuns. (Mother Jones, 1995)

Se nós tivermos um futuro no século XXI, vamos querer poder dizer “Como foi o século XX nos Estados Unidos da América? O que era ser uma pessoa comum?”

3 –  Você de alguma forma criou os padrões de se fazer entrevistas. (The Progressive, 2005)

Padrões haviam sido criados milênios e milênios atrás. Eu sou chamado de um historiador oral. Eu não tenho ideia do que isso significa. Ou significa que eu sou um não-acadêmico, na verdade. Nos meus livros, você encontra a embasbacante sabedoria e eloquência das pessoas que nunca falaram de sua vida antes.

4 – Quando você vai entrevistar, você tem as perguntas escritas? (The Progressive, 2005)

Eu improviso.

5 – E quanto a você? Existe alguma pergunta que você evita responder? (Mother Jones, 1995)

Talvez sobre o meu autocentrismo. A forma como continuo com essa coisa. Durante as entrevistas para o Hard Times, eu tinha que encontrar algum assistente social. Bem, a minha esposa (Ida, de 56 anos) era uma assistente social durante a Depressão. E eu pensei, hmm, ela vai servir. Vou mudar o nome dela, e assim o fiz.

Por acaso ela era a minha esposa, mas ela servia bem para o que eu precisava ou eu nunca a teria usado. Ela estava me contando – e essa é a parte – sobre um cara branco, um velho trabalhador de estradas. Ela lembra dele como um cara distinto, cabelo cinza, ele estava recebendo auxílio-desemprego, e a ela foram dadas ordens – ela era uma garota jovem -, ordens de olhar nos armários dessas pessoas. E enquanto ela me conta isso, começa a engasgar, obviamente. Ela diz que abriu o armário dele e estava vazio. E ela conta “Ele se sentiu tão humilhado, e eu também!”.

Você vê, esse é um momento maravilhoso. Maravilhoso. Foi um momento horrível, mas eu digo maravilhoso pra mim, de poder capturar como era se sentir humilhado. Mas enquanto ela engasga, eu digo “Isso é ótimo! Ótimo!” e ela diz “Seu bastardo!”

Bem, eu não me importo com o que ela diz. É isso, e é assim que eu funciono.

6 – Você já cortou algum trecho de uma entrevista para não causar desconforto a alguém? (Mother Jones, 1995)

Ah, sim. Nenhuma entrevista, nenhum livro vale machucar alguém, isso é irreparável. Eu acredito fortemente em proteger a privacidade das pessoas. Acima de tudo, eu não quero fofoca ou esse tipo de coisa. O que é dito por aquela pessoa, que é revelador para aqueles que estão lendo? O que é o ponto em comum? Claro, essa pessoa diz, sou eu!

7  – Tendo entrevistado por tantos anos, você ainda se surpreende com o que as pessoas te dizem? (Mother Jones, 1995)

Os entrevistados em Coming of Age foram muito menos ranzinzas do que você pensaria. A maior parte disse que sem os jovens estaríamos perdidos. Uma mulher, uma velha Southern Belle, agora com 87, filantrópica, depõe: “Bem, esses jovens, a história deles foi roubada deles. E o que nós fizemos para que eles nos respeitassem?”. Uma outra senhora apontou como “eles tentavam atropelá-la com os patins e as bicicletas, mas quando eu quero cruzar a rua, eles sempre são solícitos em me ajudar”.

As pessoas no livro reconhecem a ambivalência de seus sentimentos, que existe algo que foi perdido. As respectivas vidas sempre foram plenas – mas eles sofrem pelos jovens, como será a vida deles?

8 – O que você pensa que nos espera no futuro? (Mother Jones, 1995)

Eu gostaria de saber. É tão incrível – a não ser que surja algum movimento espontâneo de algum tipo, como a TV e a mídia em geral nas mãos de menos e menos gente -, os Murdochianos, você sabe – tudo que escutamos é um ponto de vista. É preciso haver algo comum.

Lembrem, Coming of Age começa com George Bernard Shaw sendo parafraseado “Eu sou da opinião de que a minha vida pertence toda a comunidade enquanto eu viver”. Não importa quais os assuntos com que eles têm que lidar de forma coletiva. Quando você participa de algo, mesmo que aquele movimento perca, os sucos começam a fluir e você sente que conta. Você conta. Bem, isso é significativo.

9 – O ambientalista David Brower, que você entrevistou em Coming of Age, nos pediu para perguntarmos: “Quando você decidiu que nunca iria se aposentar? Ou você vê algum final para seu trabalho à vista?” (Mother Jones, 1995)

Eu não consigo me imaginar aposentado. O que eu faria? Eu sempre vou estar fazendo algo, fazendo perguntas, mesmo se não houver um livro. Eu suponho que se tivesse um epitáfio, seria “Curiosidade não matou este gato”. Eu não me vejo aposentado no sentido com que entendemos a palavra – não sei como eu poderia. Morrer no microfone ou na máquina de escrever não seria ruim.

SOBRE O AUTOR : Louis “Studs” Terkel (1912 – 2008) foi um escritor, historiador, ator e radialista Americano, ganhador do prêmio Pulitzer de nNão-ficção em 1985 por “The Good War” e conhecido pelo seu programa de rádio “The Studs Terkel Program”, que foi ao ar na WFMT Chicago, entre 1952 e 1997. Ele é considerado o maior exponencial da história oral norte-americana e o responsável pela criação de um dos maiores acervos de entrevistas contendo ideias e perspectivas, tanto de pessoas comuns quanto influentes que viveram na segunda metade do século XX. Para ele, não existia uma voz que não merecesse ser ouvida nem uma história que não devesse ser contada.

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