“Criar algo a partir do nada e fazer novas pilhas de coisas novas e dá-las para os amigos.”


Entrevista com Gary Panter, autor d’ O Babaca:

1 – Qual a história por trás d’O Babaca?

O Babaca é uma meditação sobre os babacas  ̶  eu queria que o quadrinho saísse engraçado e radical, mas eu não gosto de babacas. Gosto de pessoas legais. Existem babacas no mundo, e essa é uma piada e um aviso para que as pessoas tomem cuidado com esse tipo de gente. A tortura desse babaca chamado Henry Webb é que ele vive em um universo solipsístico. Todo mundo se parece com ele, então na realidade ele está se matando. É também sobre reencarnação, sobre a evolução individual cumulativa, tanto para cima ou para baixo.

2. Foi um livro difícil de ser feito?

Foi fácil. Foi desenhado de uma forma simples e espontânea sem acabamento, então tive que me concentrar em manter a arte dentro de um sistema simples. E eu tinha que me fazer rir, então ele fluiu muito facilmente. Espero que ninguém vá pensar que eu valorizo a maldade. Eu valorizo a bondade. E desenhei-o originalmente em um caderno de rascunhos.

3. Que possibilidades uma narrativa visual te dá?

No quadrinho, ao contrário da pintura, do cinema ou do teatro, é possível ler  ̶  para frente, para trás, ou ler a página inteira de uma olhada, ou não continuar lendo, ou reler. Nos quadrinhos o leitor pode ler lentamente ou rápido e controlar a velocidade. Então é muito pessoal e melhor lido deitado na cama.

4. Quando você começou a pensar em narrativas?

Quando eu era pequeno, meu pai tinha uma loja de variedades e trazia sempre alguns quadrinhos para casa. Ele também pintou o Piu-piu e o Frajola em cima da minha cama. No primário eu colaborei com o meu colega David Douglas em uma pequena história em quadrinhos sobre um T-Rex, que era sempre enganado por um pequeno Brontossauro. Eu acho que o primeiro quadrinho em que eu reparei na construção da narrativa foi o Donald Duck de Carl Barks. Eu não era analítico, mas era um observador atento.

5. Quais autores/artistas você lia enquanto crescia?

Quando criança: Lewis Carroll, Edgar Alan Poe, Jules Vernes. J. Frank Baum, Ray Bradbury e a enciclopédia. Na faculdade: Phillip K Dick, Anthony Burgess, E R Burroughs, Wm Burroughs, JG Ballard.

6. Que tipo de publicações te atraem?

Revistas de arte e música e alguns quadrinhos. Eu não gosto da maioria dos quadrinhos.

7. Como você se envolveu com publicações, e há quanto tempo você publica?

Eu comecei a autopublicar quadrinhos xerocados em 1976 porque eu era muito impaciente para ser publicado e não entendia onde meu trabalho se enquadraria no mundo. Em 77 eu conheci a WET e Slash e comecei a ser publicado por outros. Mas tem uma boa dose de satisfação e diversão nesse pequeno gesto pessoal, na manufatura, no seu valor.

8. Você pode definir o que o ato de publicar significa pra você?

Criar algo a partir do nada e fazer novas pilhas de coisas novas e dá-las para os amigos.

9. E o que você tem feito? Que outros projetos estão em andamento?

Meus próximos livros são: Hippie Trip  ̶  notas sobre instalações de arte; Songy in Paradise  ̶  uma paródia de Paradise Regained de John Milton e o próximo disco de Devin Gary & Ross; Fog Window  ̶ , um jornal hippie que eu estou escrevendo e desenhando, e um grande livro do Jimbo, que vai levar um bom tempo para desenhar.

10. O que você faz no seu tempo livre?

Jogar coisas fora. Eu colecionei coisas demais. Cozinhar a minha versão de comida Tex Mex. Tocar guitarra sozinho. E tocar na banda Devin Gary & Ross. A banda vai sair em uma curta turnê pelos EUA em duas semanas.

11. Onde você mora hoje em dia?

Eu vivi no Brooklyn pelos últimos trinta anos.

12. O que vem em mente quando pensa ao Brasil?

Pratos com bife, a floresta tropical vs fazendeiros, os índios da Amazônia e animais e música e dança.

13. Por que você acha que as pessoas têm tanto medo dos próprios corpos?

Nós estamos vivendo em corpos que são muito fortes em seus instintos e existe uma cultura e sistema de controle que faz dinheiro para pessoas más tentando controlar o instinto das outras pessoas por dinheiro. Então existem vários mil anos de truques de controle perpetuados na humanidade por babacas  ̶  às vezes babacas sinceros. Em muitos lugares e formas somos treinados para temer e trabalhar contra a natureza. Ser legal é melhor do que ter uma dívida com algum curandeiro e seus mecanismos de controle. Existem instintos naturais e precisamos regulá-los, mas é melhor não deixar outra pessoa tirar seu tempo e dinheiro com seus truques institucionalizados. As pessoas têm medo de morrer e são vulneráveis a ideias fáceis vendidas para elas de uma verdade a respeito da qual estamos frequentemente muito errados.

SOBRE O ARTISTA : Gary Panter nasceu no estado de Oklahoma, EUA, e foi criado no Texas.  Estudou pintura na East Texas State University e mudou-se para Los Angeles em 1977. Lá começou a trabalhar em diversas frentes: pintura, design, quadrinhos e produção visual comercial, estabelecendo-se como artista multimidiático cujas criações atravessam fronteiras tradicionais, uma constante de seu trabalho até hoje. No final de década de 1970 foi realizada a primeira mostra com sua principal suite de pinturas. Nesse período também desenhou cartazes e flyers para bandas como The Germs e The Screamers. Deu-se o início de sua longa associação com as várias incarnações de Pee-wee Herman, assim como a criação das primeiras aventuras de seu alter-go punk/nuclear/hillbilly, Jimbo. Em 1980 Gary publicou o The Rozz-Tox Manifesto, influentíssimo documento que orientou sua geração a infiltrar o mainstream com as ideias e cultura do underground. Os quadros de Gary constituem uma grande fração de sua prolífica atividade durante a década de 1980, quando também fez a cenografia e desenhou os bonecos usados no Pee-wee Herman’s Playhouse e foi responsável pela arte de capa para bandas como The Red Hot Chili Peppers. Manteve ainda contínua produção de quadrinhos através de seus mini-quadrinhos e suas contribuições para a revista Raw e outras antologias.

Retornando aos quadrinhos no começo da década de 1990, Gary lançou sete número de Jimbo. Depois se dedicou a espetáculos de luz, encenando elaboradas performances psicodélicas em seu estúdio. Mais recentemente, colaborou com Joshua White – a dupla já montou espetáculos de luz no Hirschhorn Museum, em Washington, D.C. e na Anthology Film Archives em Nova York. Em 2006-2007, Gary foi um dos artistas selecionados para a  mostra itinerante: Masters of American Comics. Seus quadros e desenhos foram recentemente expostos na Dunn and Brown, em Dallas e na Clemetine Gallery, Nova York.

Em 2008, Gary foi o tema de uma exposição individual Aldrich Contemporary Art Museum. Seus livros inlcuem uma compreensiva compilação de seus trabalhos, Gary Panter (PictureBox), e quatro graphic novels: Jimbo in Purgatory (Fantagraphics); Jimbo’s Inferno (Fantagraphics); Cola Madnes (Funny Garbage); Jimbo: Adventures in Paradise (Pantheon). Gary já recebeu vários prêmios, entre os quais três Emmy Awards, pela sua produção de design no Pee-wee’s Playhouse, assim como o Chrysler Award em 2008 na categoria Excelência em Design. Ele também possui fama de ser bom churrasqueiro e gosta de espetáculos de luzes, música psicodélica e literatura pós-moderna.

<http://www.garypanter.com>

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