“Nós entendemos tudo errado, eu acho, em relação à organização dos sentidos e dos condutores venais que imaginamos para descrever corpos.”

 

Uma entrevista com Nathanaël, autora de Je, Nathanaël:

1 – O pau-duro literário existe?

Tem que existir. Do contrário a sua Anatomia Primária, seu livro, não existiria. Talvez seja uma questão de qual linguagem para qual boca. E o que é um corpo nesse caso. Nós entendemos tudo errado, eu acho, em relação à organização dos sentidos e dos condutores venais que imaginamos para descrever corpos. Eu suponho que me questionaria, hoje, o que de fato é a literatura, uma vez que o esforço massivo parece ser de domesticação global. Quem é “nós”?, é uma outra pergunta.


2 – O que vem a ser um texto para se foder? E seria ele apenas fodível em determinada língua?

Essas são perguntas escorregadias – longe de mim tentar responder as perguntas que o livro faz. Talvez seja interessante que essas frases tenham sido tomadas de empréstimo do francês, e quando o “garoto fodível” é evocado no livro, voltamos novamente ao inglês. Com certeza os sentidos são limitados pelas linguagens pelas quais eles tentam se comunicar.

Quanto ao pau-duro literário, parece uma coisa que existe precisamente no momento em que desaparece.  É um segredo que a linguagem, uma mentira que ela conta, da mesma maneira que um amante usa o seu corpo para tocar outro. O que quer que faça, acaba caindo dentro de si mesmo até o nada.

3 – Você acha que existe algo além do corpo na linguagem?

Na época desse livro, eu provavelmente teria dito que não. A esse ponto, para mim, não é claro o que um corpo é nem se está vivo, se é capaz de estar vivo. Cada vez mais me  parece como um cadáver, fora do tempo. Je Nathanaël como um todo não sucumbe a esse tipo de pensamento. Ainda me parece acreditar em algo que ainda não se foi. Mesmo enquanto se lança para baixo.

4 – Qual a história por trás de Je Nathanaël?

Je Nathanaël é, em  certo sentido, o único livro que escrevi (talvez ao lado de Absence Where As), que pode ser  compreendido arqueologicamente. Apesar de eu querer muito subestimar o nível em que este trabalho se tornou estrangeiro para mim. A versão em francês foi publicada em 2003, há mais de uma década, e muitos mais livros atrás, e a minha mente está em um outro lugar. Ainda assim, de Je Nathanaël eu posso afirmar que não existe uma linguagem única. Que, ao contrário de tudo que eu escrevi, e certamente havia escrito até então, esse trabalho foi escrito entre duas línguas, e sendo assim eu não posso dizer que ele tem uma linguagem original, ou algo que lembre uma língua materna: é ao mesmo tempo uma tradução e uma refutação da tradução. Não tem um sentido completo ou total de existência tanto em francês quanto em inglês (nem, eu suspeito, em português ou búlgaro, duas línguas em que o trabalho foi traduzido integralmente; tem também passagens em esloveno, uma língua que até onde eu compreendo não permite a ambiguidade de gênero – mas isso é uma verdade para todas as línguas, uma vez que elas governam e são governadas por códigos de gênero e regimes sexuais rígidos (independente do que se é sugerido em sua superfície).

Se a primeira parte que escrevi (O Outro Corpo) foi escrita em resposta a uma edição de um jornal literário sobre tabu (um tema não muito interessante, no meu ponto de vista), não eram tanto os elementos fodíveis do texto que estavam em questão, mas o relato de um corpo em uma língua (francês), que é tão irremediavelmente baseada em gênero. Minha tentativa foi de apagar a noção de gênero do francês, ou confundi-la em um grau que expusesse esse óbvio ridículo, assim como a incompatibilidade com o corpo, enquanto talvez, rachando, abrindo algo de/do desejo. Estranhamente, em inglês, essas preocupações desaparecem, uma vez que o inglês tem a propensão de mascarar gênero sob um disfarce com um semblante de universalismo, o que obviamente é uma asneira. Mas as duas línguas tratam o gênero de maneiras bem diferentes, então a sobreposição de versões cria mais lodo do que clareza, o que pra mim me parece correto.

Há mais uma coisa que eu gostaria de dizer. Me parecia, quando escrevi esse livro, que eu tinha algo a dizer a Gide e à maneira como ele havia deixado Nathanaël suspenso nas páginas de seu livro. Essa era uma preocupação persistente para mim. Eu publiquei um livro em 1999 em que deixei duas mulheres presas em uma estação de metrô subterrânea que havia sido isolada do mundo exterior. Eu me perguntava o que havia acontecido com elas, então eu escrevi outro livro para descobrir. Com Les Nourritures Terrestres foi similar; eu me perguntava qual a responsabilidade de um escritor com as figuras presentes em seus trabalhos, e que direito nós tínhamos de falar por elas.

5 – Você traduziu A Obscena Madame D, da Hilda Hist para o inglês. O que existe no trabalho de Hilda, em sua linguagem, que você não encontra em mais nenhum lugar? E quais os seus pensamentos em relação às comparações que surgem de tempos em tempos nos Estados Unidos sobre o trabalho dela e o de Clarice Lispector, agora que finalmente mais gente tem tido acesso aos seus escritos? Essa é uma questão que vale a pena comentar?

Com Hilst foi tão visceral e imediato. Eu li pela primeira vez A Obscena Senhora D em um estado tão exacerbado, em um verdadeiro exílio, talvez a única vez na minha vida que eu posso dizer que vivi no exílio (na minha cidade natal, e tem uma longa digressão aqui que eu vou poupar nesta entrevista); e o que me ocorreu, mesmo através da tradução, era o quão intrincavelmente esse trabalho expunha a isca do que havia sido disseminado como a escrita do corpo, primariamente através da literatura francesa, muitas vezes feminista (alguém poderia apontar, por exemplo, que Cixous se apropriou totalmente – talvez até tenha antropofagizado – de  Lispector para seus próprios fins, criando uma novela literária saída de outra que já existia em outro lugar. A disseminação que ela controlava e manipulava; poderia se dizer o mesmo do tratamento dado por ela a Joyce, ou mais recentemente,a  Derrida). Talvez o fato seja que A Obscena Senhora D não cobre o corpo em teoria, e o leitor tem que se contentar com a sua perversidade, sua feiura, a sua ternura, sua inteligência desgrenhada, imbricadas em uma coisa fedida chamada mundo, que inclui todas as partes do corpo. Não é algo a ser descrito, e eu já fui chamada tão constantemente para tentar descrevê-lo que eu prefiro não dizer nada e apontar de volta para o trabalho que nós fizemos juntas enquanto traduzíamos Hilst, contra certas predisposições linguísticas (anglófonas, apesar de não exclusivamente).

Quanto à recepção de Hilst nos Estados Unidos, ao lado de Lispector, não estou em uma boa posição para dizer. Cada literatura é falsamente representada em sua tradução, por causa da seletividade, e por tempo demais, Lispector era a única representante para certo público anglófono de uma literatura chamada brasileira. Que Hilst chegue como contrabalanço necessário é algo a ser reconhecido, mas com um desapontamento pela rápida instrumentalização e comodificação, não apenas de sua literatura, mas da narrativa pela qual ela é descrita. A tendência de falar com lamento cobre a necessidade de silenciar-se. Nesta instância, eu penso: nós fechamos nossa boca e nós lemos. Quando a abrimos não é para falar.

6 – Você sabe, eu acho que  entendi que queria publicar livros quando  estava lendo Je Nathanaël deitada em um futon em Chicago, às quatro da manhã, e eu li a seguinte frase: A foda se quer genealógica. Obrigada.

Minha amiga, eu não acho que exista uma sentença correta nesse caso, ou até uma memória correta, a não ser que seja a memória de uma amizade. Podem duas pessoas se conhecer em um livro? Pra mim toda a questão está nestas duas linhas : “Eu sou um livro que já foi escrito. Eu sou o livro que ninguém se atreve a escrever”. O conduíte que você descreve corre de Chicago até o Rio, sem escalas.

SOBRE A AUTORA: Nathanaël é autora de vários livros, publicados em francês e inglês, no Canadá e nos Estados Unidos. Suas obras mais destacadas são: Paper City, Je Nathanaël, L’injure, L’absence au lieu, We Press Ourselves Plainly, Carnet de désaccords (finalista do Prix Spirale-Éva-le-Grand) e s’arrête? Je (2007), pela qual recebeu o Prix Alain-Grandbois, concedido pela Academia de Letras de Québec. As traduções de Nathanael incluem obras de Édouard Glissant, Catherine Mavrikakis e Hilda Hilst (este último em colaboração com Rachel Gontijo Araujo). Sua tradução de Murder, de Danielle Collobert foi finalista do Best Translated Book Award em 2014. Sua tradução de Mausoléu dos Amantes, de Hervé Guibert tem sido reconhecida por bolsas como a do PEN American Center e do Centre National du Livre de France. Ela vive em Chicago e leciona na School of the Art Institute.

http://polysemique.blogspot.com.br/

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