“Eu quero algo na minha boca. Eu não posso dizer mais do que isso. Inglês, punjabi, urdu, francês, espanhol. Eu não sei.”

 

Uma entrevista com Bhanu Kapil, autora de Incubação: um espaço para monstros:

1 – Qual a história por trás de Incubação: um espaço para monstros?

Eu era um ponto zero na forma de uma garota. Eu era uma imigrante e pegava carona. Essa é a minha autobiografia levemente disfarçada na forma de uma novela de ficção científica mal-escrita.


2 – Você acha que existe algo além do corpo na linguagem?

Resíduo, cinzas, células epiteliais. O que o corpo verte ainda é corpo? Eu penso nos processos de descamação como sintaxe. Os lugares na língua que são não-verbais, que não promovem ou sabotam o movimento de avanço da sentença. Uma neutralidade que não seja nem corpo, nem língua, você poderia dizer. Acumulações em outro sentido. Eu penso no poema (Waiting) de Yevgeny Yevtushenko – o casaco azul jogado em cima da cadeira e então deslizando para baixo. Assim. Na língua, existem gestos, que são corporais, sim, mas também parte de uma ordem inorgânica. Eu penso no casaco azul se decompondo no espaço de tempo entre 1983, quando li o poema pela primeira vez, e agora.

3 – O que vem a ser um texto para se foder? E seria ele apenas fodível em determinada língua?

Minha orientação sexual é ler e escrever. Isso é menos sobre foder agora do que é sobre colocar algo na sua boca. Eu quero algo na minha boca. Eu não posso dizer mais do que isso. Inglês, punjabi, urdu, francês, espanhol. Eu não sei.

4 – O pau-duro literário existe? Recentemente quais os trabalhos que você tem tido prazer em ler?

Eu não poderia dizer pau-duro. Re: pau-duro. Você tem que perguntar alguém capaz de ter um. Ou que tenha um, eu acho. Você deveria entrevistar o Ben Lerner. Mas hoje eu estou pensando em The Devastation, da Melissa Buzzeo. Estou lendo este livro, e pensando no seu trabalho particular com obliteração e amor ante uma visita aos campos de refugiados em Calais. Eu também quero ir à Líbia. “Zones of exemption”, li hoje, on-line, no Global Detention Project. O que mais eu deveria ler?

5 – O que o ato de publicar significa para você?

Uma membrana esticada sobre um coração ainda vivo.

6 – O que você tem feito ultimamente? Que outros projetos estão em andamento?

Eu quero ir para a Líbia e para a França, para visitar dois tipos de campos. O antes-do-campo e o pós/antes-do-campo. Este é um desejo ardente. Por quê? Eu comecei um projeto com a minha mãe: Memoir of a Civil War on Abandoned Stickers. Ela escreveu uma memória em um adesivo, em Hindu, e eu escrevi a tradução em um adesivo em branco, voltado pra ele. Eu acumulei três páginas – uma espécie de processamento de baixo pra cima. Uma narrativa construída de fragmentos. Que não é desviada. Pelo modo da narrativa em si. E eu quero continuar essa forma de acumular – os pedaços – da vida vivida. Das narrativas de refugiados contemporâneos e migrantes. Isso ainda não muito formado, a não ser pelo chamado muito forte vindo do meio do corpo para pensar adiante sobre o espaço europeu e seus espaços coextensivos; é por isso que os campos na Líbia, em particular, pulsam como o lugar em que quero estar. Para clarificar, eu sou mãe de um filho jovem, e também cuido da minha mãe, e sou professora com muitos alunos – como eu possivelmente poderia deixar essa vida, que acontece todo dia, e ir? Mas eu quero. Esse é o meu próximo projeto. Sou influenciada pelo professor Andrea Spain, com quem eu iria colecionar uma aula sobre populações neste verão. Mas nós não demos a aula. Agora eu quero vivê-la.

Eu também quero escrever uma narrativa muito simples sobre a minha infância, que nunca vai voltar. Quero dizer, o bairro de imigrante em que eu cresci foi inteiramente reescrito pelo presente. Eu já escrevi a versão de baixo para cima, mas agora eu quero escrever algo que os leitores da Grã-Bretanha possam: ler. Por quê? Eu não sei por quê. É como se eu quisesse escrever um panfleto ou documento histórico de algum tipo. Eu sei que podia escrever isso em cinco dias, mas não estou sozinha o suficiente nessa época da minha vida.

7 – Onde você vive hoje em dia?

Colorado. A cor: vermelho. Mas eu quero viver perto do mar. Este é um novo desejo, aliás. California, talvez. Ou Vancouver.

8 – Qual a primeira coisa que vem à sua mente quando pensa no Brasil?

Lucas de Lima empurrando sua cadeira para longe da mesa no painel da Mongrel Poetiks na &Now, dizendo “Eu não estou interessado”. Quando um organizador tentou perguntar-lhe – bem, eu não lembro o quê. Ele foi, naquele momento, uma presença feroz e indissolúvel. Eu não quero tornar exótico o momento que estou descrevendo, mas eu fiquei profundamente sensibilizada pela sua negativa em se envolver em uma calibração ou recalibração da posição que ele já havia assumido em sua fala/conversa. Seu livro, Wetland, publicado pela Action Books, é tremendo, eu penso. Eu o li na banheira, logo, está distendido. Eu também estou lendo a biografia de Benjamin Moser sobre Clarice Lispector e às vezes tento evitar eventos sociais para que eu possa continuar lendo. Ela acabou de deixar o Recife para morar no Rio. O que mais? Penso numa intensa variante de verde – uma cor – que eu não vi –  mas que está lá – no Brasil – e que eu não posso imaginar viver sem tê-la visto. Eu comi um peixe em Porto Alegre – numa varanda – quando tinha vinte e poucos anos. Estava viajando com um homem que estava no negócio de importação e exportação de orquídeas e nogueiras. Ele foi encontrar um cliente. Eu comi o já mencionado bacalhau. Com um copo de vinho branco glacialmente gelado. Agora eu estou duvidando da minha memória do bacalhau. Algum tipo de peixe. Mas, em Porto Alegre, tudo era pálido, creme e cinza, e azul-claro. Eu não cheguei a ver o verde, que podia muito bem ter sido o brilho de um sobretudo de uma mulher que acabara de sair de uma farmácia com uma garrafa de oléo de amêndoa, o colarinho levantado contra a chuva.

SOBRE A AUTORA : Bhanu Kapil é autora de cinco obras de prosa/poesia: The vertical interrogation of strangers (Kelsey Street Press, 2001), Incubation: A space for monsters (Leon Works, 2006), Humanimal: A project for future children (Kelsey Street Press, 2009), Schizophrene (Nightboat Books, 2011) e Ban en Banlieu (Nightboat Books, 2015). Nascida no Reino Unido, filha de pai e mãe indianos, Bhanu vive no Colorado, onde leciona na The Jack Kerouac School of Disembodied Poetics da Naropa University.

<http://jackkerouacispunjabi.blogspot.com.br/>

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *