“Tentando lembrar agora da foda da noite passada para que eu possa então tentar fazer uma analogia tão apropriada quanto fosse possível e ainda assim dizer a verdade.”

Douglas é autor de "Seu Corpo Figurado"

 

Entrevista com Douglas A. Martin, autor de Seu Corpo Figurado:

1 – Qual a história por trás de “Seu Corpo Figurado”?

Eu menti pra conseguir um grande agente depois do meu primeiro livro, Outline of My Lover. Quando eu fui para a reunião quando seria decidido se eu iria ou não ser publicado, contei como, além do livro que depois viria a se chamar “Once You Go Back” e no qual ela estava parcialmente baseando a sua decisão, eu também estava planejando escrever um livro sobre Anais Nin, uma coisa histórica. Paris em tal e tal ano. Eu era muito amigo do Colm Toibin na mesma época, e ele então tinha uma fé extrema no que eu estava fazendo com inspiração autobiográfica a que, apesar de tudo eu ainda me referia como ficção, criação de histórias. “Essa voz ficcional que você encontrou é  uma coisa especial” Ou algo nessas linhas. Eu ainda não havia publicado Seu Corpo Figurado até então, logo ele não sabia do que estava falando. Mas quando fui visitá-lo no escritório que ele manteve por um tempo na New York Public Library, parte de algum acordo ou residência – uma dessas coisas que eu mesmo nunca conseguiria – ele me perguntou algo como “O que eu iria fazer uma vez que tudo estivesse acabado?”. Mexendo nas coisas da minha infância, comecei a pensar que gostaria de ir para além de mim mesmo e ao mesmo tempo olhar para quem obteve sucesso ou não em seus próprios termos. Existem outras raízes para isso também. Eu não escreveria sobre o relacionamento que vivia na época, mas um namorado da minha idade, que não estava me bancando financeiramente, no máximo artisticamente, me deu o livro de Guy Davenport, Balthus. Outro garoto, esse me fez mudar a forma de falar para tentar ser mais parecido com ele, me deu uma monografia do Francis Bacon antes disso. Hart Crane eu não compreendia, mas tinha vontade de fazê-lo. Foi muito importante para mim ter uma coisa com que eu pudesse trabalhar dessa forma, aprendendo e então transcrevendo essa reação inicial para o que eu estava sorvendo. Ver então como todas essas reações podem se somar, em que áreas elas podem se conectar, e o que começa a ser dito. Não imaginamos o Narciso falando, certo? É uma rara alegoria. Como não torná-la preciosa, até mesmo com esses personagens românticos? Eu tinha acabado de sair do mestrado em escrita e nunca desejei ser um desses caras gays da minha turma que escreviam protagonistas femininas para si mesmo. Uma versão anterior continha a Nin e também O’Keeffe, conectando-as a Balthus e Crane respectivamente, através de outro homem, mas eu não consegui achar alguém similar para Bacon e Dyer, então essa parte da estrutura colapsou um bocado, e eu acabei optando por retirá-la no fim para manter o balanço. Começou ainda mais ambicioso.

2 – O pau-duro literário existe? Recentemente quais os trabalhos que você tem tido prazer em ler?

Eu sou fundamentalmente utilitário em minha leitura. Quero dizer, eu tendo a ler coisas enquanto estou escrevendo, na verdade rascunhando, ou apenas relacionadas a projetos. Tudo tem que se relacionar. O poeta a que eu me referi aí em cima achava que isso era uma coisa feia sobre mim. Mas deixe-me tentar ser honesto. Eu estou parando de escrever agora para pensar um pouco além do dia de ontem, quando eu estava trabalhando em uma história lendo Borges porque a vizinha mencionou-o e eu não conseguia me lembrar ou dizer imediatamente o título da história escrita por ele que ela estava tentando lembrar. De maneira geral eu sabia o que ela queria dizer, e eu adoro o Borges, mas mesmo assim. Eu estou lendo bastante de seu trabalho não-ficcional ultimamente. Tanto que eu devo até comprar uma cópia do livro que eu tenho retirado frequentemente da biblioteca. E também estou competindo por um trabalho com um escritor mais tradicional, com muitos deles eu suspeito, então eu estou lendo suas histórias para entender mais o que eu posso oferecer, ou como serei visto. Gozo. Eu sei que existe algo que eu devo ter tentado convencer alguém a ler, também. Esse não é o título que estou tentando lembrar, mas The Map and the Territory de Houellebecq é o meu livro de jantar quando estou comendo sozinho. Isso quer dizer que ele me agrada e induz, a um conforto, de alguma forma. Gozo. A Girl is a Half-formed Thing, de Eimear McBride. Essa foi a última coisa que me fez ficar acordado além da hora de dormir para ler e ainda me fazia acordar algumas noites no meio do sono só para ler mais um pouco…. ele me imergiu. Eu gostei como tive que correr atrás dele. Mas mesmo lá havia um autoconhecimento. Esse é o tipo de novela doméstica que eu posso chamar de lar. E eu estava lendo-a, para começar, porque um jovem editor, tentando conseguir poder para adquirir a minha última produção, me indicou, disse como ela estava comparando com um manuscrito meu para o chefe dela.

 

3 – O que vem a ser um texto para se foder? E seria ele apenas fodível em determinada língua?

Foder para mim é uma linguagem por si só, ou somente se parece com uma foda quando chega àquele espasmo quando você está inventando as suas próprias palavras entre todos dois (três? mais?). Literatura é algo profundo o suficiente, ou delineado o bastante, ou poderoso o suficiente para que você deixe de lado alguma de suas posições mais rígidas. Deve ser, ou então eu ainda não estou livre o bastante, eu não consigo ser interativo o suficiente. Tentando lembrar agora da foda da noite passada para que eu possa então tentar fazer uma analogia tão apropriada quanto fosse possível e ainda assim dizer a verdade.

 

4 – Você acha que existe algo além do corpo na linguagem?

Sim. O espírito ou traço (Derrida, e com isso eu quero dizer toda a corrente underground das filosofias verdadeiramente ocultistas) do corpo que uma vez já foi. A memória que se propaga. Talvez seja esse o virus de Burroughs. Mas indo direto ao ponto: eu só falo sobre Burroughs tanto quanto o faço por causa da sua conexão com pessoas na minha vida real, encontros com corpos reais. Gus Van Sant me disse uma vez enquanto nadávamos que ele era o seu autor favorito, e então uma vez tive a chance de conhecê-lo, logo antes dele morrer, e a pessoa que podia ter me levado para conhecê-lo decidiu que a minha presença só acarretaria problemas. Eu poderia então ter conhecido a Kathy Acker. Mas talvez ela pudesse ter me desestimulado em carne e osso.

 

5 – O que ato de publicar significa para você?

Eu escrevi algo, e ele encontrou o seu caminho até você, e isso me deixa feliz, mas se eu não precisasse fazer o meu caminho no mundo, provavelmente não o faria. Não digo isso em termos de ego mas financeiramente. E com isso eu quero dizer comer, pagar aluguel, pagar empréstimos estudantis. E essa lista só aumenta. Eles me têm. Publicar livros para que você possa publicar mais livros. Mas em que termos? Em uma das minhas primeiras viagens para a cidade de Nova York, sabendo que eu tinha crescido para além do lugar de onde eu vinha e tentando entender aonde eu poderia ir, na mesma época eu estava tentando publicar algumas novelas, algumas até mais nuas do que Outline of My Lover, Amy Scholder, que tem sido um lastro constante na minha vida desde então, me perguntou em uma reunião para onde eu via a minha escrita caminhando. Eu ainda me lembro disso. Eu disse a ela que, se eu tivesse grana, eu só escreveria no meu caderno para sempre. Isso era o que mais importava para mim. Mas eu vi como isso se sucedeu a Nin.

 

6 – O que você tem feito ultimamente? Que outros projetos estão em andamento?

Caramba! Além de como conseguir  um emprego acadêmico real, para que a faculdade me pague para tirar férias (e escrever!!)?? Você vai amar isso. Eu estou trabalhando em um projeto de tradução com alguns dos textos de Elfriede Jelinek. Quem sabe que forma eles tomarão? Tem a novela a que eu me referi de passagem respondendo a alguma das suas perguntas, a questão do gozo. Minha coisa “true crime”, muito anti-In Cold Blood. Pense Genet, The Maids. Um grande trabalho sobre a obra de Acker, desejos, influências. Não é  uma crítica tradicional, tudo isso, ou puramente acadêmica ou amigável para o leitor comum. Então quem sabe onde vai parar no fim das contas?

 

7 – Onde você mora hoje em dia?

Eu estava para me mudar para Los Angeles. Outro dos meus empregos. Mas eu vou continuar a dividir o meu tempo entre Brooklyn, NYC, Middleton, CT (para trabalho) e um lugar chamado Calicoon, meio que na floresta, ou o lado da Catskill Mountain, que não é o lado rico, o lado errado dos trilhos, e onde eu também comecei uma espécie de história que é de alguma forma especulativa, ou ainda será. Eu consegui comprar uma casa de alguém que precisou se desfazer rapidamente, há alguns anos. Com o meu companheiro, que não está fazendo filmes no momento, mas pagando parte das contas com bicos de edição de reality shows, com grana não dos meus livros mas das aulas que dou em três faculdades, qualquer semestre, todo semestre, desde 2011.  Eu acrescento a hipoteca as minhas queixas a respeito do custo de vida a que me submeto.

 

8 – Qual a primeira coisa que vem à sua mente quando você pensa no Brasil?

Lispector. Uma última história sobre um garoto. Ela está bem em evidência aqui nos Estados Unidos, tendo o seu momento finalmente. Mas antes disso, na época em que eu estava escrevendo Seu Corpo Figurado, aquele mesmo poeta, ele ainda não havia largado seu emprego em editoria comercial, e o grande FSG estava tentando decidir se adquiria alguns dos trabalhos de Lispector para lancá-la de alguma forma além do que ela já havia sido até então traduzida, onde e quando. Ele trouxe para a casa uma noite uma coleção dela, Laços de Família, e me deu. A história A Imitação da Rosa virou o meu tudo.

 

SOBRE O AUTOR: Douglas A.Martin é autor de dois romances (Branwell e Outline of My Lover), um livro de contos (They Change the Subject) e uma antologia de poemas (In the Time of Assignments) e é coautor de um livro de haiku. Vive no Brooklyn, em Nova York.

<http://douglasarthur.blogspot.com>

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