“Eu sempre pensei que escrever é uma conversa, e eu suponho que isso implica algum nível de encontro entre dois corpos.”

 

Gail Scott, autora de Minha Paris

 

Entrevista com Gail Scott, autora de Minha Paris:

 

1 – Qual a história por detrás de Minha Paris?

Eu estava vivendo num apartamento para escritores, tendo ganhado um intercâmbio de seis meses pelo Conseil des arts et des lettres Du Quebec. Inicialmente pensei que seria divertido fazer algo turístico, usando Arcades Project de Walter Benjamin como uma espécie de guia. Mas quanto mais eu andava por Paris, e isso era nos anos 90, mais eu me interessava pelo que acontece com as ondas consecutivas de artistas e militantes de vanguarda que datam desde a época de Benjamin até o presente. Então o livro se tornou uma conversa entre Benjamin e Gertrude Stein, entre outros, sobre essas questões.

2 – Você acreditar haver algo além do corpo na linguagem?

Certamente ambos, o corpo e a linguagem, são gerados através de uma rede complexa de condições e circunstâncias. Eu sempre pensei que escrever é uma conversa, e eu suponho que isso implica algum nível de encontro entre dois corpos. Mas quando é um assunto de texto escrito, o que está na linguagem são palavras tomadas de empréstimo de todos os lugares.

 

3 – O que viria a ser um texto para se foder? E seria ele apenas fodível em determinada língua?

Eu não tinha certeza do que você queria dizer com “texto fodível”. Me lembrei então do que um jovem escritor de Vancouver escreveu no Goodreads sobre, eu acho, o meu último livro, “The Obituary”:  “Ah sim, mais uma vez, mais mais” (algo nessas linhas), um texto que envolve a proximidade do leitor, a interferência do leitor, o trabalho do leitor para o prazer do leitor, parece ser disso que você está falando. Eu chamaria de um texto democrático.

 

4 – O pau-duro literário existe? Se sim, quais trabalhos você tem tido prazer em ler ultimamente?

Esse verão eu tenho lido Beckett. Beckett. Beckett.

 

5 – O que o ato de publicar significa para você?

É doloroso na medida em que eu sou uma escritora de prosa experimental, e existem poucas editoras interessadas em publicar esse tipo de trabalho; e, se o fazem, frequentemente parecem ter dificuldades em apresentá-lo para o público. Claro que o momento especial de conhecer o leitor, que só a publicação de um trabalho permite e estimula, é maravilhoso.

 

6, 7 – O que você tem feito? Que outros projetos tem em mente? Onde você mora hoje em dia?

Sempre morei em Montreal, apesar de recentemente eu ter passado um bom tempo em NYC. Estou trabalhando em uma espécie de ensaio, bem no estilo de Montaigne, sobre os poetas que li e com quem conversei durante a era Obama.

 

8 – Qual a primeira coisa que lhe vem à mente sobre o Brasil?

Eu tenho amigos brasileiros em Montreal, uma amiga de Quebec, uma produtora de filmes, que frequentemente viaja para o Brasil. Então isso conjura uma série de coisas baseada em trechos de histórias que ouço. Política intensa. Carnaval. Amazônia em chamas.

 

SOBRE A AUTORA : Gail Scott é autora de seis livros, incluindo Heroine (Coach House, 1987; Talonbooks, 1999) e o aclamado Main Brides (Coach House, 1993; Talonbooks,1997). Seu romance Minha Paris (Mercury Press, 1999) foi selecionado pela Quill & Quire como um dos dez melhores livros publicados no Canadá em 1999. Scott foi nomeada, em 2001, para o Govenor General’s Award, por sua tradução para o inglês do livro The Sailor’s Disquiet, de Michael Delisle. Ela vive no Canadá e leciona na Universidade de Montreal.

<http://www.gail-scott.com/>

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