“O ponto de partida do guia/livro do Broke Ass é: ‘eu estou duro, não tenho algo que se possa chamar exatamente de emprego, mas não vou ficar parado, tenho necessidades fisiológicas e existenciais’ (leia-se encher o bucho, a cara e, se possível, me divertir e aprender alguma coisa).”

Tradutor do "Guia Broke-Ass Stuart Para Viver com Pouco Dinheiro em NY"

 

Uma entrevista com Thiago Nasser, tradutor do Guia Broke-Ass Stuart para viver com pouco dinheiro em Nova York:

 

1- O que é o Guia Broke-Ass Stuart para viver com pouco dinheiro em Nova York?  Foi um livro difícil de traduzir?

O livro é um misto de guia de sobrevivência, diário, ode a uma Nova Iorque em via de desaparecer, crítica e ao mesmo tempo agente da gentrificação, etnografia urbana e social, e, claro, um bildungsroman pós-irônico. Livros bons são fáceis de traduzir. Simples assim. Que outro livro me faria meditar profundamente sobre as similitudes e diferenças entre um boteco e dive bar?

2- Qual a diferença entre este Guia de Nova York e os milhares de outros guias que existem por aí?

O ponto de partido da maioria dos guias é “eu sou um turista, vou tirar férias do trabalho, estou com alguma bufunfa no bolso e quero ‘explorar’ a cidade e tirar fotos para mostrar para tirar onda com meus amigos” e por isso eles são sempre são iguais. O ponto de partida do guia/livro do Broke Ass é: “eu estou duro, não tenho algo que se possa chamar exatamente de emprego, mas não vou ficar parado, tenho necessidades fisiológicas e existenciais (leia-se encher o bucho, a cara e, se possível, me divertir e aprender alguma coisa). Além disso tenho um certo pendor para a zoação que preciso exercitar”. Portanto a cidade que se descobre é outra e o ponto de vista é outro.  Nova Iorque vai muito além da Estátua da Liberdade e o Stuart pode não ser o sujeito mais amável, mas e daí?

 

3- Este é o único Guia que realmente li, desde a introdução até a última página. Li até as listas no final. A impressão que tenho é que se pode ler como grande narrativa. Como essa experiência de leitura se deu para você, dentro e fora do processo de tradução? E qual para você foi o processo de pesquisa, de escrita, desse cara? O que tem esse guia que te dá a possibilidade de lê-lo como prosa e não necessariamente só como um guia turístico?

O guia pode ser lido de várias maneiras: de cabo a rabo, sentado na privada e sem qualquer perspectiva de ir a Nova Iorque. Ou o guia pode ser lido como um “Guia”, propriamente dito, sentado no banco em Columbus Circle e tentando descobrir onde comer e dissecando as opções de kebab como se o Broke Ass fosse um crítico do Guia Michelin. A divisão por bairros ajuda a dar uma organizada também. Por mais que seja sempre bom sair sem rumo, eu curti ler as introduções de cada bairro e a partir daí escolher dois ou três lugares. A partir dessas coordenadas traçava uma rota pelo bairro. Alguns lugares eram toscos demais, mas acabava descobrindo outros através deles.

 

4- O Guia Broke-Ass para viver com pouco dinheiro em Nova York é um testemunho de uma cidade que aos poucos vem se tornando uma geografia de franquias e bancos?

A cidade está mudando, claro, e continuará mudando sempre. Reclamar de topografias urbanas tomadas por redes e franquias e lamentar a perda da “autenticidade” daquela parte da cidade da qual você se sentia dono faz parte do modo discursivo hipster e de qualquer vanguarda que olha no retrovisor. Nesse sentido, o guia acaba sendo também uma interessante etnografia urbana à la Walter Benjamin.  Stuart vai flanando e decifrando a cidade, revelando os sinais dos estertores de uma cidade e do nascimento de outra. A boa notícia é que outros proto-hipsters virão, novas geografias e movimentos culturais surgirão e ocuparão nichos urbanos efervescentes enquanto lamenta-se a abertura de um Dunkin Donuts em Williamsburg. Até que um dia Manhattan voltará à decrepitude pré-Giuliani dos anos 1980 e o ciclo será reiniciado.

 

5- Você sabe que o Stuart concorreu a prefeito de San Francisco. Você votaria nele? Por quê?

Votaria no macaco Tião. Por que não votaria no Stuart?

 

6- Seu bar Broke-Ass favorito em NY?

McSorley’s Ale House. Lincoln, Guthrie e Hunter S. Thompson beberam ali. Você se sente menos pobre nessas horas.

 

7 – Seu bar Broke-Ass favorito no Rio de Janeiro?

Comuna. Digo isso na esperança de conseguir uma bebida de graça.

 

8- A primeira coisa que vem à mente quando você pensa na Nova York do Broke-Ass.

Dive bar. E bichos de pelúcia gigantes.

 

SOBRE O TRADUTOR: Thiago Gomide Nasser é mineiro ortodoxo comedor de quiabo, nasceu num campo de trigo na América, cresceu nas pradarias do Planalto Central e se refugiou no Rio de Janeiro, onde virou feirante, tradutor e doutor. Seus hobbies incluem fotografia caprina e línguas mezzoitalianas. Ele também é um dos fundadores da Junta Local.
<www.juntalocal.com >

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