Livreiros #1: Estação Carioca

“Você tem algum livro de autoajuda?”
“Alguma outra coisa do Deleuze e Guattari?”
“Esse livro foi psicografado? Você tem outros livros psicografados?”
“Vocês tem o ‘Cabeça de Porco’? Só pode ser esse, procuro um livro chamado ‘Cabeça de Porco’…”

Imagine um lugar onde todas as frases acima são válidas e cabíveis. Um lugar onde se consegue agrupar uma série de interesses variados, uma fonte de pesquisa literária que vai das Ciências Sociais às Ciências Exatas, passando pelas Jurídicas e pelas Artes. Pensou numa livraria? Não poderíamos estar mais distantes. O espaço em questão é o comércio de livros que fica bem na Estação Carioca do metrô, em um corredor entre o Edifício Avenida Central e a Caixa Cultural.


São sete livreiros, que de segunda a sexta ocupam o período das 07h às 19h organizando os livros em cima de carrinhos de mão, caixas de feira e mesas improvisadas. Uma variedade de capas, preços, gêneros e interesses. A feira começou com Francisco Olivar, ex-gerente da livraria carioca Entrelivros na década de 80, que, com a extinção de muitas livrarias nas décadas de 90 e 00, resolveu levar o seu negócio para a rua – primeiro para a Praça XV, onde continua até hoje aos sábados, e depois para a Estação Carioca. Aos poucos mais gente foi chegando, amigos, conhecidos, em busca de trabalho e independência financeira. O movimento foi crescendo, e há oito anos a feira da Estação Carioca conseguiu mais uma vitória: o apoio legal da Prefeitura.

A Bolha conversou com os livreiros da Carioca. Foi o primeiro passo de um novo projeto que busca conhecer um pouco mais sobre aqueles que fazem circular material impresso no Brasil: quem luta, quem guerrilha para viver e sobreviver de cultura, e – não podemos negar que é o nosso maior interesse – quem dissemina esse material de forma acessível nas ruas com os problemas diários que aparecem.

Fizemos dez perguntas para cinco dos sete livreiros (dois em questão não estiveram presentes nos três dias que fomos à Carioca) e trouxemos uma série de curiosidades. Nos divertimos com histórias e aprendemos muito sobre pessoas que, como nós, lutam para sobreviver de impressos no país. Para começar, como todo lugar aberto, o maior problema para qualquer evento: a chuva – se chove logo de manhã, os livreiros têm que esperar que ela passe para sair de casa; se chove no meio do dia, a solução é colocar plástico por cima dos livros e esperar passar.

 

Leia mais sobre cada livreiro abaixo.
Com amor, A Bolha Editora

 

olivar

Olivar / Banca do Olivar
Seu Olivar foi o precursor da feira do metrô, começando-a informalmente no início dos anos 2000. Trabalhou em algumas livrarias cariocas já extintas, e depois começou a circular com o seu próprio material em feiras de livros ao redor do Rio, e depois do país, sempre buscando vender por preços entre R$ 1 e R$ 2. É autor do livro infantil “Risadinha, o menino que não ganhava presente” e gosta de contar que em 1982, vendeu um livro pra Tom Jobim – “O Diário de Beverly Hills”.

1. Nome, idade, nome da banca
Francisco Olivar de Souza, 58, sem nome: só Banca do Olivar mesmo!

2. Há quanto tempo você trabalha com livros?
Conta aí, 79 até hoje, quantos anos são? Isso mesmo, 37 anos. Entrei no Largo do Machado, em 79, na Entrelivros.

3. Por que um livro em vez de qualquer outra coisa?
Eu sempre fui viciado em revista em quadrinhos na minha infância. Quando eu estava na faculdade, a situação ficou difícil, aí fui trabalhar na livraria. Juntei as duas coisas, já gostava de livro, e ainda ganhava algum dinheiro.

4. Como vocês encontram o material que vendem aqui? 

São mil lugares! Pessoal que cata lixo na rua, casa de clientes, bibliotecas que fazem doações, a gente compra, troca, entende? O meu grande problema hoje é repor livro. Eu vendo uma média de quinhentos livros por dia, a R$ 2, então minha meta é todo dia arranjar quinhentos livros.

5. Onde você mora? Quanto tempo você leva para chegar até aqui?
Moro no Flamengo. Chego aqui rapidinho.

6. Você acha que o povo brasileiro gosta de livros, gosta de ler?
Olha, há no Brasil uma raça chamada pseudointelectuais, que diz que o brasileiro não gosta de ler. Eu faço feira no interior, no interior de Minas, São Paulo, e a gente fica até 23h com as barracas e o pessoal em cima, não querendo que a gente feche, não querendo parar de ler. Essa coisa é mentira. A Estante Virtual vende mais de 10 mil livros por dia, o problema é o preço que tá muito caro, inacessível. Livros de $ 80, $ 100, o povo não tem condição de comprar. Mas coloca a R$ 2, tem até briga pra ver quem vai levar o quê.

7. Qual o último livro ou revista que você leu?
Foi um livro de um poeta russo. Maiakovski. Li a Antologia Poética dele.

8. Que tipo de livro o(a) senhor(a) mais vende por aqui?
Aqui vende tudo, livro raro, de macumba, Psicologia, Ciências… o que vende mais é Ciências Sociais, Filosofia, isso aí tudo na mesma hora vende. Vende demais. Tudo aqui é R$ 2, qualquer livro R$ 2.

9. Você acredita que dá pra viver a vida vendendo livros?
Olha, dá sim. Dá muito bem. Quem vende quinhentos livros por dia, não ganha $ 1000, porque tem despesa, mas pelo menos a metade sobra aí.

10. O que você faz quando não está aqui trabalhando? O que te dá mais prazer nessa vida?
Tempo livre? Vou à caça de livros pra repor.

 

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Rafaela / Banca da Carioca
Rafaela é filha do Olivar, o fundador da feira da Carioca, e junto do pai e da mãe administra as três barracas mais próximas da saída do metrô. Carrega o título de “Personal Book”, por conhecer o gosto literário de muitos clientes e frequentemente fazer indicações. Tem uma coleção particularmente grande de livros jurídicos e de Psicologia, e é a única a ter uma tenda protetora contra a chuva. Preços de R$ 2 a R$ 200.

1. Nome, idade, nome da banca
Rafaela Gallas, 31 anos, Banca da Carioca.

2. Há quanto tempo você trabalha com livros? Por que um livro em vez de qualquer outra coisa?
Acho que a minha vida toda. Eu nasci no meio de livros, meu pai e minha mãe sempre tiveram banca de jornal, ou trabalhavam com livros. Meu pai tinha uma livraria. Sai um pouco do ramo durante um tempo, mas acabei voltando.

3. Como vocês encontram o material que vendem aqui?
Depende. A gente trabalha com muito jornalista, que faz resenha de livros e acaba vendendo eles, a gente trabalha com ponta de estoque de muita editora, Record, Sextante, compramos de clientes, fazemos muita troca. O ponto máximo é compra na casa de cliente. Se eu tiver dinheiro e disponibilidade, tenho dez clientes pra visitar todo dia – eles passam aqui e falam com a gente, fazemos uma boa divulgação, temos um grupo no Whatsapp especialmente para isso – no momento a Banca da Carioca no Facebook tá offline, porque eu não conseguia atender tanta demanda.

4. Onde você mora? Quanto tempo você leva para chegar até aqui?
Três horas pra vir, três horas pra voltar. Moro em Maricá.

5. Você acha que o povo brasileiro gosta de livros, gosta de ler?
Gosta, muito. Tem essa curiosidade: as pessoas falam que o povo brasileiro não gosta de ler. Mas o povo gosta, e gosta bastante. Tenho um público muito grande, até algumas pessoas que me cobram fazer um clube do livro. Onde elas pagariam um taxa, e poderiam ler um número determinado de livros por mês, e depois trariam de volta. Tem gente que traz cinco livros pra trocar por um, porque ama, é apaixonado por leitura, mas infelizmente a grana é muito curta, não tem como.

6. Qual o último livro ou revista que você leu?
Eu leio muito, mas o último é meio complicado, porque é um romance… eu gosto de todos os gêneros, eu leio, até livro de Direito eu pego pra ler porque eu tenho que entender um pouco, para me manter informada. Mas é um romance, “Depois de você”. É um lançamento da Jojo, ela tá super em alta, vai até lançar um filme agora… mas como é um romance, é meio complicado de falar que eu li, “Ah, li um romance”… mas eu leio tudo, Filosofia e Economia a gente precisa estar sempre por dentro.

7. Que tipo de livro a senhora mais vende por aqui?
Eu vendo muito livro específico para cliente, funciona assim dessa forma – eu leio muito, esse livro da Jojo eu li ontem no caminho para cá. Então como estou sempre lendo, eu indico leituras que meus clientes possam gostar. Quando você passa aqui, eu gosto de dar uma atenção, de conversar, aqui você tem uma história, uma história pessoal, enquanto que na livraria você é só um número, é um comércio, você entra, paga e acabou. E eu gosto de estar antenada com tudo, eu misturo tudo, tenho gestão de pessoas, área de comércio, trabalho com uma linha de Direito, romance, História, 2ª GM, Civilização, Filosofia, Antropologia, Gastronomia, dieta, números, exatas, formação da sociedade brasileira até livros de Maçonaria.

8. Você acredita que dá pra viver a vida vendendo livros?
Dá. Eu sustento minha casa e meus dois filhos – trabalho muito, durmo em média três horas por noite, quando durmo. Mas eu tenho um bom padrão de vida, vivo bem razoavelmente na medida do possível, não é muita coisa, mas ganho muito mais do que se trabalhasse numa livraria. Já recebi proposta pra gerenciar livrarias, com carta branca, e eu prefiro estar aqui. Aqui eu faço o meu trabalho – não me considero uma vendedora de livros, as pessoas passam por aqui e falam “Aí Rafinha, e aí Rafa?”. Tem cliente que vem aqui todo dia, nem que seja pra ver o que tem. São clientes cativos.

9. O que você faz quando não está aqui trabalhando? O que te dá mais prazer nessa vida?
Na verdade, eu não tenho tempo livre, quando eu tô em casa, tô sempre pesquisando, vendo preço, ponta de estoque, procurando livros mais baratos. Quando tenho um pouco de lazer, eu tento me dedicar aos meus gêmeos. Tenho uma filha de sete anos que já é apaixonada por livros, tento incentivar – a gente visita bibliotecas, faz programas em conjunto. É um pouco complicado, mas a gente tenta manobrar tudo, vida, família e trabalho.

 

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Wallace / Banca sem nome
Wallace é o mais jovem dos livreiros, e o que possui a maior quantidade de livros novos, a maioria ainda fechada no plástico. Os preços vão de R$ 20 a R$ 100, e além dos livros, Wallace vende também discos com coletâneas de soul, r’n’b e Jazz a R$ 1.

1. Nome, idade, nome da banca
Wallace Barral, 22, banca sem nome.

2. Há quanto tempo você trabalha com livros?
Faz uns três anos.

3. Por que um livro em vez de qualquer outra coisa?

Foi influência do meu sogro, no caso, que trabalha com livro há muito tempo, e me puxou para esse lado dos livreiros. Ele trabalha organizando feiras de livros.

4. Como vocês encontram o material que vendem aqui?
Esse material vem diretamente dele, ele trabalha com livros usados, e uns novos também. Como faz feira, ele compra em muita quantidade das editoras e consegue um preço mais em conta.

5. Onde você mora? Quanto tempo você leva para chegar até aqui?
Em Santa Teresa. Moro logo aqui embaixo, uns dez minutos chego rapidinho.

6. Você acha que o povo brasileiro gosta de livros, gosta de ler?
Sim, creio que sim. Senão a gente não estaria por aqui vendendo livro.

7. Qual o último livro ou revista que você leu?
A “Arte da Guerra”, do Sun Tzu.

8. Que tipo de livro o senhor mais vende por aqui?
Sai bastante livro de Filosofia, História, muitos clássicos.

9. Você acredita que dá pra viver a vida vendendo livros?
Creio que sim, dá para dizer que sim.

10. O que você faz quando não está aqui trabalhando? O que te dá mais prazer nessa vida?
Faço uma porrada de coisas, malho, vou à academia, faço esporte, final de semana na praia, surfo, essas coisas.

 

marcos

Marcos / Banca sem Nome
Marcos vende uma mistura de livros novos, usados e literatura de cordel. Muitos livros de história e política estão expostos na sua barraca – com preços de R$ 10 a R$ 80.

1. Nome, idade, nome da banca
Marcos de Oliveira, 56, não tem nome específico.

2. Há quanto tempo você trabalha com livros?
Há oito anos.

3. Por que um livro em vez de qualquer outra coisa?
Sempre gostei de leitura, então uni o útil ao agradável. Com a idade chegando, procurei algo mais leve pra fazer. Tinha amigos que já eram livreiros, e através deles entrei no ramo.

4. Como vocês encontram o material que vendem aqui?
Garimpo bastante, haja perna, haja dinheiro de passagem. Sebos e sebos, no Centro e fora dele.

5. Onde você mora? Quanto tempo você leva para chegar até aqui?
Na Ilha do Governador. Dependendo do trânsito, de manhã quarenta, cinquenta minutos… à noite, dependendo do engarrafamento, duas horas e pra lá.

6. Você acha que o povo brasileiro gosta de livros, gosta de ler?
Olha cara, segundo as estatísticas e as pesquisas, minoria. Em comparação a outros países, de 100% não chega a 40%.

7. Qual o último livro ou revista que você leu?
Cara, o que eu li por último foi “Os 50 maiores erros da humanidade”. Começa com a guerra de Tróia e termina com o desastre daquele submarino russo.

8. Que tipo de livro o senhor mais vende por aqui?
No meu caso, eu trabalho muito com História, Filosofia e Sociologia. Mas é variado, é um trabalho que exige um pouco de tudo, ficção, não-ficção…

9. Você acredita que dá pra viver a vida vendendo livros?
Dá, não dá. Dá pra sobreviver. As despesas são altas, e o retorno… tem dia que vende, dia que não vende, então a gente vive um dia pelo outro.

10. O que você faz quando não está aqui trabalhando? O que te dá mais prazer nessa vida?
Minhas horas vagas são pra assistir TV, um bom noticiário. Ler um jornal, ler um livro também, cervejinha também, uma cerveja pra relaxar…

claudio

Claudio / Claudio Livros
Cláudio ocupa a barraca mais próxima da Av. Rio Branco, perto da entrada do Edifício Avenida Central. Bem-humorado, sempre sorrindo, divide espaço com Jô, que vende discos. Os livros em média custam de R$ 5 a R$ 20, e R$ 3 no saldão.

1. Nome, idade, nome da banca

Claudio Santos, 55, Claudio Livros.

2. Há quanto tempo você trabalha com livros?
Comecei em 82, tem 34 anos.

3. Por que um livro em vez de qualquer outra coisa?
Foi meio por acaso, não escolhi – eu estava desempregado, apareceu essa oportunidade em 82 de trabalhar com livros. Fui procurar emprego no Centro, na Catedral, onde na época tinha um banco de emprego, fiz a minha ficha e fiquei aguardando. Uma hora depois, fui chamado e me ofereceram a oportunidade de trabalhar em uma livraria na Tijuca. Gostei e desde então fiquei com os livros.

4. Como vocês encontram o material que vendem aqui?
Algumas coisas vêm de doações, e outras são livros usados e seminovos que eu compro de clientes, por n motivos. Pessoas que vão se mudar, que estão se desfazendo de algumas coisas, que recebem de herança…

5. Onde você mora? Quanto tempo você leva para chegar até aqui?
Na Baixada, em Nova Iguaçu. Em média uma hora e meia pra ir e voltar, mas depende do trânsito.

6. Você acha que o povo brasileiro gosta de livros, gosta de ler?
Infelizmente não, em geral não. Uma boa parcela até que gosta, mas livro infelizmente aqui no país é muito caro, por isso essa alternativa do livro usado que barateia e facilita o acesso, aí serve para essa parcela que gosta mas não pode comprar.

7. Qual o último livro ou revista que você leu?
Eu li “Feliz Ano Velho”, do Marcelo Rubens Paiva, e antes disso “O Povo Brasileiro”, do Darcy Ribeiro. Infelizmente, por causa do tempo, gostaria de ler mais, mas não tem dado.

8. Que tipo de livro o senhor mais vende por aqui?
Rapaz, não tem um específico não. Cada pessoa que chega, um gosto diferente. Mas eu procuro dar um destaque maior à linha de humanas: História, Sociologia, Educação… essa linha que são manuais de consulta. Livros paradidáticos – esses besteiróis, romance, não – tenho nada contra, a gente procura agradar todo mundo. Mas o meu negócio é Filosofia, História, livros jurídicos também… quanto aos autores, aqueles que eu estava te falando agora. Foucault, Umberto Eco, Camões, Euclides da Cunha, Guimarães Rosa, essa linha toda é clássica, você coloca e o pessoal leva tudo. Sinal de que é coisa boa, e quantas gerações tem isso?

9. Você acredita que dá pra viver a vida vendendo livros?
Dá. Não dá pra ficar milionário, não vou ficar milionário nunca. Mas deu pra comprar carro, casa, dá pra sustentar a família… mas é duro, a gente chega aqui todo dia às 07h, e eu ainda reservo sábado e domingo pra visitar clientes.

10. O que você faz quando não está aqui trabalhando? O que te dá mais prazer nessa vida?
Aos domingos normalmente eu tô em casa. Quando dá e se dá, porque oportunidade a gente não perde. E o que me dá prazer são os livros – cada biblioteca que eu compro, cada coleção que eu encontro, tá no DNA já. Se você for lá em casa, são dois quartos arrumadinhos, tudo organizadinho, e uso computador não, não preciso disso pra encontrar.

 

// Para terminar, um mapa com a posição de cada livreiro.

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Um comentário em “Livreiros #1: Estação Carioca

  1. Nada mais carioca do que esta feira de livros próximo ao metrô estação Carioca! Outro dia passando por aí não resisti e comprei 4 livros ! Estava indo para o CAU- Conselho de Arquitetura e Urbanismo, que fica num prédio próximo. Amei esta matéria! Fala das pessoas que trabalham na nossa cidade, fala da urbanidade e tudo isso é cultura! Muito bom poder ter acesso aos livros por preços que a gente consiga pagar.

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