Livreiros #2: Edifício Maletta

Entre a Avenida Augusto de Lima e a Rua da Bahia, no centro de Belo Horizonte, está o Conjunto Arcangelo Maletta, ou simplesmente Edifício Maletta, construído em 1957 no local onde antes se encontrava o Grande Hotel de Belo Horizonte. Misto de edifício comercial e residencial, o Maletta é um prédio multifuncional que em seus 59 anos de história já abrigou estudantes, movimentos culturais, já foi o refúgio de intelectuais durante a ditadura militar, já se tornou célebre e frequentado, e nos últimos seis anos tem passado por uma transformação, atraindo um público mais jovem para a sua sobreloja e suas varandas cheias de bares e restaurantes.

O Maletta é um velho conhecido de quem mora em Belo Horizonte, e também de quem respira arte impressa na cidade – já foi palco de feiras de publicação, como por exemplo a Feira Elástica, organizada pelos amigos da Polvilho Edições e do coletivo A Zica, além de abrigar o ateliê 4y25, espaço de trabalho autogerido voltado para a arte independente, na sua sobreloja. O prédio possui também a maior concentração de sebos e livrarias de Belo Horizonte – são 22 estabelecimentos onde são vendidos livros, enciclopédias, revistas, jornais, quadrinhos, discos, CD’s, toca-discos e o que mais o cliente quiser –, se tiver disposição para procurar, o Maletta é o lugar para encontrar. A maior parte dos sebos se encontra na sobreloja, enquanto alguns poucos (três sebos) estão localizados em outros andares do prédio, espalhados entre escritórios de advocacia, consultórios e salas de técnicos de informática e eletrônica.

 

Na última semana fomos conversar com alguns donos dos sebos e livrarias que ocupam o prédio mais famoso de BH. Foi uma tarde agradável, de muita conversa, pão de queijo mineiro e cafezinho baratinho (R$ 2,80 para quem vem do Rio é uma pechincha!), e claro, muitas descobertas, garimpadas e livros, muitos, muitos livros.

LIVRARIA SHAZAM
Sebos Shazam / Ponto do Livro

José Ronaldo é o responsável pelos dois sebos. Um dos precursores do Maletta, ele ocupa desde 1971 o mesmo espaço na sobreloja do prédio com um sebo – o Shazam. Inicialmente voltado para quadrinhos, tem um acervo extenso, que vai de revistas e jornais antigos até enciclopédias do início do século passado. É, inclusive, o único sebo de BH tombado pelo Patrimônio Histórico Cultural.

1. Nome, idade
José Ronaldo Lima, 76.

2. Há quanto tempo você trabalha com livros?
Desde 1951, isso tem 65 anos.

3. Há quanto tempo o sebo/livraria existe?

Eu comecei a trabalhar com a Shazam em 69, mas ela foi inaugurada mesmo em 1971. Sempre no mesmo lugar, até hoje. E a Ponto do Livro tem uns trinta anos só…

4. Por que trabalhar com livros?

Quando eu era menino, lá na minha terra (Rio Casca, interior de MG) eu colecionava quadrinhos. E uma maneira de você conseguir revista em quadrinhos era abrindo uma loja de revistas em quadrinhos. Então meu pai tinha um cômodo sobrando na casa, aí pronto. Eu comecei a comprar e vender revistinha em quadrinhos.

5. Como você encontra o material que vende aqui?
Como antigamente, nos primórdios do Maletta, o meu sebo era o único, criou-se um costume de trazer o material para mim. E todos os livros e revistas que eu vendo têm o carimbo da loja, então são mais de cinquenta anos carimbando… O pessoal pega, vê o meu número de telefone e liga.

6. Como funciona o movimento do público por aqui? Como é ter um sebo em BH?

Já foi muito bom! Até 2001… De 2001 para cá começou a cair um pouco, e depois que surgiu a Estante Virtual praticamente acabou o movimento de venda em porta de livraria.

7. Se o senhor tivesse que explicar o que é o Maletta para alguém, o que diria?

Ah, é um prédio que tem muitas histórias. Muitas histórias.

8. Você se interessa por novos autores? Procura autores locais?
Não, eu procuro mais o que vende. Hoje cada vez menos você encontra pessoas que constroem bibliotecas por diletantismo ou que buscam enriquecimento cultural. Hoje a pessoa só compra o livro que tá na moda, ou que é obrigada a comprar por causa do professor, para alguma aula específica.

9. Você acha que o povo brasileiro gosta de ler?
Atualmente não.

10. Qual o último livro ou revista que você leu?
Um tratado de orquídeas, chamado “Iconografia de Orchidaceas do Brasil” (escrito em 1949 pelo naturalista Frederico Carlos Hoehne). Li na semana passada.

11. Que tipo de livro o senhor mais vende por aqui?
Filosofia, Arte e Literatura Clássica.

12. Você acredita que dá para viver a vida vendendo livros?

Hoje não. Eu já ganhei muito dinheiro com livro. Antes da Estante Virtual, existiam duas dúzias de sebos em Belo Horizonte. Dois anos depois da Estante Virtual, passaram para 284, segundo cadastramento da Prefeitura. O problema é que quando você é estabelecido legalmente, você tem despesas – e com a Estante Virtual, qualquer um que se cadastra para vender, é aceito, sem ter firma registrada. Por exemplo, os catadores de papel que antigamente me vendiam livros, agora têm uma página na Estante Virtual e vendem diretamente por lá os livros que catam na rua, o que atrapalha muito o negócio, porque qualquer livro que eles vendem por lá sai por R$ 5. Não tem uma seleção, uma apuração da qualidade, não tem pesquisa. E atrapalha o movimento dos sebos.

13. Quanto tempo você geralmente leva para chegar até aqui diariamente?

De carro, cinco minutos.

14. O que você faz quando não está aqui trabalhando? O que te dá mais prazer nessa vida?
Ler. E cuidar das orquídeas do meu orquidário.

LIVRARIA CRISALIDA
Livraria Crisálida

Misto de editora e livraria, a Crisálida é um caso particular na sobreloja do Maletta. Muitos livros novos, ainda na embalagem, dividem espaço com um acervo de todas as épocas, minuciosamente organizado. A Bolha encontrou por lá alguns volumes razoavelmente raros de autores japoneses, e uma grande variedade de ficção científica sobre realidades distópicas. Batemos um bom papo com o Oséias, dono da livraria/editora especializada em tradução de autores clássicos.

1. Nome, idade
Oséias Ferraz, 43.

2. Há quanto tempo você trabalha com livros?
Dezesseis anos.

3. Há quanto tempo o sebo/livraria existe?
Estamos há dezesseis anos no Maletta, estamos na nossa terceira loja, mas sempre aqui na sobreloja do Maletta. A Crisálida começou com uma livraria e editora, publicando clássicos que estavam há muito tempo sem uma tradução atualizada. Blake, Lawrence, Ovidio, Virgílio. Atualmente estamos montando uma coleção em parceria com a Autêntica de tradução de clássicos.

4. Por que trabalhar com livros?
Queria mudar de lado do balcão. Sempre fui comprador fanático de livros, então tinha uma boa desculpa. Eu andava pensando na época em começar um negócio próprio, e uma das opções era ter uma livraria. Era isso ou trabalhar com reciclagem, e no segundo caso o investimento é muito alto.

5. Como você encontra o material que vende aqui?
As pessoas trazem. Particulares com livros unitários ou até bibliotecas inteiras, vendedores que se tornam compradores por algum motivo. Mudança, mudou de curso, cansou do livro, precisa de dinheiro pra pagar aluguel, os mais variados motivos. No topo da lista tem três tipos básicos de vendedores: pessoas que estão se mudando, de curso ou de casa; pessoas que não acumulam livros, então compram e depois trocam para ler outros; e gente que precisa de dinheiro, e conhece bem livros, tem muitos livros, e estes se tornam a vítima da vez para poder comprar o almoço de amanhã.

6. Como funciona o movimento do público por aqui? Como é ter um sebo em BH?
O Maletta é uma referência de venda de livros, é o endereço com a maior concentração de livrarias do Brasil (22 livrarias). Então acaba sendo uma referência para quem procura livros usados em Belo Horizonte, que inevitavelmente acaba passando por aqui. Metade dos sebos de BH estão no Maletta, e os outros estão espalhados pela cidade. O movimento é bom, e aqui é um prédio comercial, antigo, um ponto de referência próprio. Por bem ou por mal, todo mundo sabe onde é o Maletta. E vem muita gente por outros motivos. Tem escritórios, mais de 1.200 unidades entre salas, apartamentos e lojas… 1.250, para ser mais exato. Então tem uma população flutuante muito grande, muita gente que mora no Maletta e muita gente que frequenta o Maletta por determinados motivos, necessidade profissional, principalmente.

7. Se o senhor tivesse que explicar o que é o Maletta para alguém, o que diria?
Um prédio múltiplo. São três blocos, dois residenciais e um bloco comercial. E o térreo e a sobreloja. Um dos primeiros prédios multifuncionais que surgiram no país, misturando o residencial e o comercial. Um ponto de convivência. Tem muitos restaurantes, lojas, livrarias, então muita gente acaba se encontrando por aqui, vira um ponto de encontro. Aqui na sobreloja tem um movimento mais recente, de novos bares, não aquele botecão copo-sujo, que foi o clássico do Maletta durante muito tempo. Agora tem muito boteco refinado, com sanduíche vegano, artesanal, drinks, blá blá blá… e isso acaba atraindo um público jovem, que frequentava a Savassi, ou outros lugares famosos pelos bares. E esse novo público está se misturando ao público mais velho, que já conhecia o Maletta. E também atrai muita gente de fora. Você deve ter vindo aqui por esses dias, não?

8. Você se interessa por novos autores? Procura autores locais?

Não para a editora. Normalmente com a Crisálida a gente trabalha só com autores que já estão mortos há muito tempo. Mas na livraria a gente vende, temos essa característica de trabalhar com livros novos e usados, desde o início. Da mesma forma que tem muito livro que não aparece novo, que tá com a edição esgotada, muito comum no Brasil, tem muito livro que não aparece usado, livros mais recentes, ou mesmo se não for recente, como as obras do Foucault… é muito difícil aparecer um exemplar usado. Não circula muito. Barthes, Jodorowsky, muita coisa de Crítica de Arte, Crítica Literária, não aparece usado.

9. Você acha que o povo brasileiro gosta de ler?
Quem lê, lê muito. Na média, se for parar para pensar, levando em conta o índice de escolaridade, o brasileiro é um leitor voraz. Quem lê gosta muito de ler. Mas claro, tem gente que não gosta de ler. Que gosta de outras coisas. Mas a população é grande. Com a expansão da escolaridade dos últimos anos, acho que melhorou bastante. Não sou pessimista com isso não, tenho visto muito jovem que gosta de ler. Toda época tem gente que gosta de ler e que não gosta de ler. Mas existe uma população analfabeta funcional no Brasil muito grande, muita gente não lê porque nunca pôde formar esse hábito. É igual andar de bicicleta, ou você adquire cedo, ou não adquire. É raro alguém começar a gostar de leitura depois dos vinte. Ler faz parte da vida. Em uma casa sem livros, como que a criança descobre que existe um livro? Acho muito estranho, mas é muito comum entrar em uma casa e não ver nenhum livro à vista.

10. Qual o último livro ou revista que você leu?
Terminei de ler ontem “A Intuicionista”, do Whitehead, um livro maluco de um filósofo sobre uma sociedade de elevadores… mas eu tô sempre lendo mais de uma coisa, tô terminando de reler também “Corpo de Baile”, do Guimarães Rosa, lendo algumas coisas de teoria literária, também…

11. Que tipo de livro o senhor mais vende por aqui?
Aqui na loja a gente trabalha só com Ciências Humanas e Cultura, com forte em Filosofia, História, Crítica Literária, Sociologia, Antropologia e Literatura Clássica. Sem best-sellers, livros religiosos, autoajuda…

12. Você acredita que dá para viver a vida vendendo livros?

Tô vivo há dezesseis anos, né? Pode-se viver mal, mas vive-se de livro no Brasil.

13. Quanto tempo você geralmente leva para chegar até aqui diariamente?

Eu moro no Maletta! Eu gosto tanto da região que mudei para cá. Posso vir para a loja de rapel se eu quiser.

14. O que você faz quando não está aqui trabalhando? O que te dá mais prazer nessa vida?

Boa pergunta. Tô lendo, vejo filme, estudo, jogo tênis em um Parque Municipal aqui do lado, jogo todo dia de manhã com um grupo de amigos. Estudo também, tô fazendo mestrado…

SEBO BENEDICTUS
Sebo Benedictus

O Benedictus é um dos mais antigos e tradicionais sebos do Maletta, sendo que hoje em dia a loja física funciona mais como um depósito para as vendas online do que como uma livraria propriamente dita. Com um acervo organizado de forma digital, vale muito a pena dar uma passada por lá para conversar com o dono, o Ricardo, e tentar encontrar alguma raridade que a catalogação deixou passar.

1. Nome, idade
Ricardo Xavier Sans, 56.

2. Há quanto tempo você trabalha com livros?
Aqui no Maletta, há vinte anos. Antes do Maletta eu trabalhava em uma livraria lá na UFMG, trabalhava desde pequeno, é uma tradição familiar.

3. Há quanto tempo o sebo/livraria existe?
Começou com o nome de Sagarana, há vinte anos atrás, e agora é Benedictus.

4. Por que trabalhar com livros?
Na verdade eu não escolhi, foi o destino mesmo. Meu irmão já era livreiro, sempre mexeu com livros, e me chamou. É tradição familiar.

5. Como você encontra o material que vende aqui?
O Maletta é um ponto tradicional de captação, o maior acervo de usados de Belo Horizonte está aqui, então já chega gente naturalmente oferecendo, né? Por divulgação também, temos folhetos, visitamos casas…

6. Como funciona o movimento do público por aqui? Como é ter um sebo em BH?
Olha, já foi muito melhor. Depois do advento da internet, a loja física sofreu muito. Os livreiros só porta aberta não sobrevivem mais não.

7. Se o senhor tivesse que explicar o que é o Maletta para alguém, o que diria?

O Maletta é um prédio tradicional aqui na cidade de Belo Horizonte, do início da década de 60, e foi um ponto cultural muito importante nessa época antes da ditadura. Passou por aqui, por exemplo, o Clube da Esquina, Milton Nascimento, Fernando Brant… Esse povo era todo “Maletteiro”. O Maletta tem essa tradição cultural, essa importância histórica – essa é a minha definição.

8. Você se interessa por novos autores? Procura autores locais?

Sim, claro. Estamos abertos, atentos e alertas a tudo que acontece no ramo editorial. Sempre aparecem coisas novas e boas.

9. Você acha que o povo brasileiro gosta de ler?
Não, não… tá longe, viu? É uma questão de formação.

10. Qual o último livro ou revista que você leu?

Por incrível que pareça, eu costumo ler mais orelhas de livro do que livros propriamente ditos, mas o último livro que li foi “Retorno ao Centro”, de Bede Griffiths.

11. Que tipo de livro o senhor mais vende por aqui?
Não, não. Hoje em dia, se você tem mercadoria boa, não importa a área que é. Você solta na internet e em questão de minutos já tem um interessado. Hoje a loja física funciona mais como um depósito para a internet.

12. Você acredita que dá para viver a vida vendendo livros?
Como você disse, viver a vida. Sem poder sonhar muito alto, não. Simplesmente sobreviver.

13. Quanto tempo você geralmente leva para chegar até aqui diariamente?

Eu moro perto, venho a pé, levo vinte minutos.

14. O que você faz quando não está aqui trabalhando? O que te dá mais prazer nessa vida?
Boa pergunta! Eu tenho um garoto de oito anos, auxilio ele nos trabalhos escolares, me divirto com ele, leio um pouquinho… é isso.

SEBO UNIÃO
Sebo União

Iraneide não é a dona do Sebo União, mas tem autoridade o bastante para falar sobre ele – afinal, há mais de dez anos cuida do espaço na sobreloja do Maletta, localizada logo na saída do elevador, no mesmo corredor que dez dos 22 sebos do prédio se encontram.

1. Nome, idade
Iraneide Ferreira Santos, 47.

2. Há quanto tempo você trabalha com livros?
Há dez anos. Sempre aqui no Maletta, sempre na mesma livraria, Sebo União.

3. Há quanto tempo o sebo/livraria existe?

Antes de eu entrar pra trabalhar aqui, tinha uma outra pessoa que cuidava do Sebo, acredito que ela cuidou por uns dois anos. Então é isso, o sebo existe há doze anos.

4. Por que trabalhar com livros?

Porque eu gosto. Cê tem que gostar, né? Porque se não gostar, não pode trabalhar com livros. Gosto de mexer com os livros antigos.

5. Como você encontra o material que vende aqui?
Através de terceiros – compra, às vezes doação – mas mais compras, mais compras mesmo. E a base de trocas, um cliente que já comprou volta com alguns livros que já leu e quer trocar por algum livro que não tem, então damos a ele um crédito de trocas. Compramos de outros sebos também.

6. Como funciona o movimento do público por aqui? Como é ter um sebo em BH?
Ter um sebo em Belo Horizonte é muito gratificante na minha opinião. Você vê todo o tipo de pessoas – mais velhas, crianças. Aqui no Maletta tem um bom movimento, eu acho muito gratificante se relacionar com todo tipo de gente.

7. Se a senhora tivesse que explicar o que é o Maletta para alguém, o que diria?

Olha, vou ser honesta, não conheço tanto do Maletta, que tem uma história muito longa, né? Aqui é um ponto muito conhecido para o público, pela concentração de restaurantes, livrarias… é um lugar rico em história e cultura. Procura depois no Google, você vai ver um monte de história que eu nem conheço!

8. Você se interessa por novos autores? Procura autores locais?

Como trabalhamos com livros usados, é difícil encontrar autores novos. A gente sempre indica editoras, como a Crisálida, para quem procura livros novos. O nosso forte mesmo é material antigo, usado. Às vezes chega um ou outro livro novo, e a gente vende com o preço de usado.

9. Você acha que o povo brasileiro gosta de ler?

Ah, eu acho! O povo gosta de ler, e não é porque a internet tá aí e as pessoas podem baixar livros naquele aparelho… o Kindle. Mas a verdade é que o povo gosta de livro, gosta de ver o livro, de sentir o cheiro do livro, de tocar o livro… Então vou te falar que essa coisa de internet não fez essa diferença toda, tá? Pelo menos eu achei. Com ou sem aparelhinho, o pessoal continua comprando bastante livro.

10. Qual o último livro ou revista que você leu?
Revista, as que eu mais gosto são as revistas em quadrinho. Luluzinha, Zé Carioca, gosto de todos! E o último livro que eu li foi “Depois daquela viagem”, de Valéria Polizzi, um livro que conta a história de uma menina que contraiu HIV do namorado… Mas eu gosto de ler! Só não leio mais por falta de tempo. Aqui na loja estou o tempo todo atendendo alguém ou cadastrando livro, mas em casa eu tiro todo dia um tempo para ler.

11. Que tipo de livro a senhora mais vende por aqui?

Aqui o que o pessoal mais procura são os livros infantojuvenis que as escolas adotam. “Ladeira da Saudade”, os livros da coleção Vagalumes, esses são os mais adotados. Machado de Assis, isso a gente vende o ano todo. E também romances, livros espíritas, romances espíritas, a área de Espiritismo sai todo dia. E os livros de História, que também tem um público menor, mas que é fiel.

12. Você acredita que dá para viver a vida vendendo livros?
Olha, para mim tá dando. Pago as minhas contas, não tô devendo ninguém, então tá dando.

13. Quanto tempo você geralmente leva para chegar até aqui diariamente?

Uma hora só de viagem de ônibus, e de carro quarenta minutos. Moro lá para os lados da Pampulha, na Toca da Raposa, já ouviu falar? Onde os jogadores vão fazer treino, perto da Lagoa da Pampulha.

14. O que você faz quando não está aqui trabalhando?
O que te dá mais prazer nessa vida?
Ah… gosto de sair com as amigas, conversar, ou então tiro um tempo para ler, se fico o final de semana em casa, se não for sair com os amigos, pego um livro para ler. Só, e é isso.

SEBO RIACHO
Sebo Riacho

O Sebo Riacho foi o único que visitamos localizado fora da sobreloja do Maletta. Para dar uma olhada no acervo pessoalmente, você precisa pegar o elevador até o décimo andar, onde vai encontrar duas salas de escritório ocupadas por livros, discos e objetos antigos, e um homem sentado atrás da mesa: Devanil Nicomedes, sempre de bom humor e ocupado com um telefone que nunca para de tocar. Três pessoas vieram procurar livros pessoalmente durante os dez minutos de entrevista, e duas vendas foram feitas pelo telefone. No Sebo Riacho o movimento é agitado.

1. Nome, idade
Devanil Nicomedes, 54.

2. Há quanto tempo você trabalha com livros?
Há dez anos.

3. Há quanto tempo o sebo/livraria existe?
Dez anos.

4. Por que trabalhar com livros?
Sempre foi um gosto pessoal, e eu já tinha feito uma tentativa fracassada em um tempo passado. Tive a oportunidade e desenvolvi, apliquei. Eu já tinha dentro de mim o gosto pela leitura e a vontade de criar um sebo, tentei fazer um no bairro em que morava mas não deu muito certo. Aí tive uma oportunidade aqui no Maletta, e associei uma coisa com a outra.

5. Como você encontra o material que vende aqui?
Isso nós buscamos. É uma garimpagem, em residências, escritórios, doações, informações que a gente recebe no Facebook, tem todo um processo on-line e presencial.

6. Como funciona o movimento do público por aqui? Como é ter um sebo em BH?
Olha, funciona assim: 70% da nossa venda é on-line, 30% é presencial. Aqui no Maletta a gente desenvolveu a arte de divulgar – um divulga um, outro divulga o outro, como tem bastante movimento, quem não encontra o que procura em um sebo vai procurar em outro, e por aí vai…

7. Se o senhor tivesse que explicar o que é o Maletta para alguém, o que diria?
O Maletta é, como se diz, uma torre Eiffel de Belo Horizonte. Só que com uma aptidão cultural.

8. Você se interessa por novos autores? Procura autores locais?
Olha, estamos sempre buscando. Mas no Brasil é complicado, o autor precisa ter um canal na mídia para que o seu trabalho seja vendável. Então a maior parte é material antigo, usado, mas sempre que aparece um novo autor ou editora a gente fica de olho.

9. Você acha que o povo brasileiro gosta de ler?

Gosta, o povo brasileiro gosta de ler. E livro é barato, sô… Acho que a falta de leitura não se dá por causa dos preços, e sim por condições sociais. Mas não é todo mundo. Vamos pegar, por exemplo, Belo Horizonte. Aqui tem um ditado: Minas não tem mar, mas tem bar. Então as pessoas vão para o bar. E aí na hora de ler um livro, faz o que? Não lê. Mas tem também muito clube de leitura, e os preços de sebo são muito mais convidativos. Depois que as editoras tiram o sumo do livro, eles chegam para o mercado de segunda mão com um preço muito bom.

10. Qual o último livro ou revista que você leu?

“O Velho e o Mar”. Gostei muito não, o Hemingway tinha muito material, condição de fazer uma coisa muito boa e… na minha percepção, achei que ele tava divagando demais, uma viagem psicodélica, tem o menino, pega o peixe… É como se ele fosse encarnar em um pescador, tipo um Guimarães Rosa. Mas vou ler de novo, para ver se era eu que estava amargurado naquele dia…

11. Que tipo de livro o senhor mais vende por aqui?
Engenharia, didáticos, Psicologia… infantojuvenis, os tais paradidáticos, e Religião.

12. Você acredita que dá para viver a vida vendendo livros?
Olha, em geral receber dinheiro honesto no Brasil é algo desumano. Para qualquer área, para qualquer um. Então como estamos na base da lei da sobrevivência, a gente vai sobrevivendo.

13. Quanto tempo você geralmente leva para chegar até aqui diariamente?
Quinze minutos a pé.

14. O que você faz quando não está aqui trabalhando? O que te dá mais prazer nessa vida?
Ah, a vida social, né? A vida corre-corre. Dormir, tomar cervejinha, essas peculiaridades cotidianas mesmo.

3 comentários em “Livreiros #2: Edifício Maletta

  1. Moro em bh há 1 ano e fiquei muito feliz de descobrir esse “shopping de sebos” enquanto buscava por um livro na estante virtual. Adorei o post! Muito legal. Só quem gosta de livros compreende o prazer de tê-los e a felicidade de encontrá-los quando esgotados. Sebos são baús de preciosidades!

  2. Incrível. Realmente o Maletta é sem comentários. Um dos muitos lugares de Minas que você pode “sentir o cheiro” de história. É um sentimento sobrenatural. As histórias, o piso desgastado, a infiltração em algumas paredes e as iguais, porém tão diferentes lojas do edifício. Sobre a matéria… nunca li nada online como tanto prazer como hoje e sobre o Maletta… apenas amor!

  3. O Maleta é maravilhoso. Visito o edifício há trinta anos, ora nos restaurantes, ora no sebos, os quais mais aprecio. Formei boa parte da minha biblioteca comprando livros nesse ambiente lúdico. Sou professor na área de letras e até hoje continuo garimpando livros nos conteúdos inerentes ao curso. PARABÉNS pela matéria.

    obrigado,

    Carlos.

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