Livreiros #4: Praça Saens Peña

Há 29 anos, entre a Praça Saens Peña e a Rua Major Ávila, existia uma pequena passagem entre os cinemas Carioca (atualmente uma Igreja Universal do Reino de Deus) e América (atualmente uma drogaria), onde Janine Santos e Júlio Domingues começaram a vender livros.

Era uma outra Praça, em uma outra época da Tijuca. O povo da Zona Sul se deslocava até a Saens Peña para assistir algum filme em um dos oito cinemas que ocupavam o seu entorno. Havia os dois andares do Café Palheta (hoje um balcão dentro de outra drogaria), a Confeitaria Tijuca e uma agitação cultural que, entre os lambe-lambes e uma placa que dava boas-vindas ao pedestre em cinco idiomas, se contrapunha à identidade cosmopolita e praiana propagada pela elite que ocupava a Zona Sul da cidade.

Tudo ao redor mudou, mas a Livreiro da Saens Peña continua por lá. O que começou como um caixote de livros em uma calçada escolhida ao acaso, hoje é um sebo que funciona 24/7 (24 horas por dia, sete dias por semana), tombado como patrimônio histórico da cidade.

Leia mais sobre a nossa conversa.

Janine Santos na Livreiro da Praça Saens Peña.
Janine Santos na Livreiro da Praça Saens Peña.

1. Nome, idade, nome da banca


Janine Santos Nunes, 42 anos, Livreiro da Praça Saens Peña.

2. Há quanto tempo você trabalha com livros e há quanto tempo a banca existe?


Ambos há 29 anos. Comecei a trabalhar aqui na banca com o meu esposo, que agora já é falecido (Janine fala o nome dele: Julio Domingues). Ele que deu a ideia.

3. Mas por que trabalhar com livros?


Quando eu conheci o meu esposo, ele já trabalhava com livros. Era a paixão dele. Ele começou trabalhando na editora Codecri, e foi mandado embora porque lia muito. Aí decidiu trabalhar por conta própria. Eu comecei com ele e fui ficando.

Porque o livro… mesmo que eu ganhasse na loteria hoje, eu não ia deixar de trabalhar com livro. Ia continuar vendendo livro, nem que fosse a R$1, porque é um público muito gostoso de lidar. Não é igual você vender cigarro, por exemplo, ou vender pipoca na esquina. Trabalhar com livro é conhecer um público muito bom, muito diversificado, e você aprende muito.

4. E quando a banca começou, a ideia era ser 24h?


Não. A princípio começamos com um caixote, eram trinta livros. Nesse mesmo ponto. Aí ele começou a botar pé firme, brigar com a guarda municipal, a Prefeitura… era uma tristeza! A gente saía correndo com caixote na cabeça.

A banca virou 24h quando nós ganhamos a licença para ficar aqui na Rua das Flores. A proposta da Rua das Flores era ser 24h. Antigamente aqui era uma passagem muito perigosa, cheia de gente pedindo dinheiro, morando, roubando… Ninguém queria passar por aqui. Aí construíram uma rua, deram o nome de Rua das Flores e uma licença para floristas ocuparem o espaço. Nós, que vendíamos livros, também recebemos a licença e começamos a abrir 24h.

5. Mas sendo só vocês dois, como se desdobravam para vender livro 24h?

No princípio era triste. Eu vinha durante o dia e ele vinha durante a noite. Quando apertava, a gente tentava arrumar outras pessoas, mas normalmente elas não vinham. Então nesse início eu e ele trabalhamos direto, direto. Às vezes trabalhávamos dezesseis horas por dia. Hoje em dia eu tenho mais gente me ajudando. São quatro pessoas ao todo, eu inclusa.

6. E como você encontra o material que vende?


Na casa das pessoas. Os próprios moradores da região, quando estão se mudando, ou renovando a biblioteca. Eu vou até a casa das pessoas, procuro. As pessoas acham que livro aqui cai do céu… Que nada!

Às vezes vou em lugares terríveis. Já fui em apartamento, por exemplo, em que o pai morreu, e aquilo foi uma dor tão grande que a pessoa só abriu o apartamento cinco anos depois. Aí eu chego lá, poeira, sujeira, uma coisa horrível – aí eu levo os livros para minha casa, limpo tudo… É um trabalho bem árduo mesmo. E você ainda carrega peso… É difícil.

7. Isso tudo fica na sua casa ou você tem um depósito?


Hoje em dia eu tenho um depósito. Mas durante muito tempo ficava na minha casa mesmo.

8. E você vende livros na internet?

Não. Até já vendi, mas no momento não vendo. Em julho, meu marido se foi depois de três anos lutando contra o câncer, e até hoje eu não consegui ter tempo de voltar para a internet. No futuro pretendo voltar a trabalhar, acredito que em pouco tempo não vou ter mais opção, vou ter que trabalhar com a internet.

9. Você tem um catálogo de todos esses livros?


Tenho um catálogo, na minha cabeça.

10. Por que aqui na Praça Saens Peña?

Começou com uma brincadeira nossa: a ideia era pegar o metrô, soltar no ponto final e tentar vender os livros lá. Se não desse certo, a gente ia voltar estação por estação. Só que aqui foi o primeiro lugar: a gente chegou, ficou, e tá até hoje.

11. E como era aqui na época? O que mudou?

Era muito bom. Antigamente a gente trabalhava três horas e ganhava muito mais do que hoje em 24h. Por causa dos cinemas. Depois que eles acabaram, foi muito ruim para gente. Acabou com o público cultural. Eu posso te dizer que 70% das pessoas que iam para o cinema paravam na minha banca. E muito deles, uns 50%, compravam. Era um faturamento muito bom mesmo.

Os cinemas foram transformados em igreja, e esse público não compra comigo. E o Palheta, que era um café imenso, de dois andares, acabou sendo reduzido a uma farmácia. E os clientes da farmácia só vem correndo, para comprar um remédio, pensando na saúde, e eles também não compram comigo. Ficava entre o Carioca e o América. A fila de lá chegava na minha banca.

Praça Saens Peña, entre os cinemas Carioca e América, em 1989.
Praça Saens Peña, entre os cinemas Carioca e América, em 1989.

12. E como você acha que é o público hoje em dia?

Eu tive que me adequar. Porque o público de hoje é mais dinâmico, mais corrido. Antes o pessoal tinha mais tempo para filosofar, para ler. Hoje o pessoal só tem tempo de ler no ônibus. E isso influencia na escolha do que está exposto.

Antigamente eu vendia livros de Arte, livros grandes, que as pessoas tinham estantes em seus apartamentos para colocar os livros. Hoje as pessoas moram em “apertamentos”, elas querem se desfazer de coisas e ter o mínimo possível. Não tem mais lugar para estantes e livros. É mais prático ter o livro armazenado em um pen drive. E-books, 5 mil livros na mão…

13. Onde você mora? Quando tempo leva para chegar até aqui?

Perto, no Engenho Novo. Chego em vinte minutos de carro.

14. E você acha que o povo brasileiro gosta de ler?


Olha, eu acho que principalmente o tijucano gosta de ler. Porque senão eu já… (risos). Mas gosta de ler sim. Tem muita gente que corre atrás. Conheço alguns jovens aqui que em um domingo poderiam estar no shopping, mas não – até no carnaval vendi livros para jovens que estavam estudando. Tem um pessoal que corre atrás.

15. E que tipo de livro você vende mais?


Aqui tem uma variedade imensa de venda. Filosofia, livros de História, romances, quadrinhos, livros de Artes Marciais… Eu tenho um pouquinho para cada gosto. E acho que caiu muito a venda dos livros de Arte. Hoje em dia eu vendo bem menos.

16. E qual foi o último livro que você leu?


Recentemente eu li uma biografia da Nise da Silveira. Eu gosto muito de ler biografias, adoro a da Frida Kahlo. E romances, principalmente ligados à Filosofia, gosto do Jostein Gaarder…

17. E se você tivesse que escolher um livro favorito?

O Pequeno Príncipe… (risos)

18. E dá para ganhar a vida vendendo livros?

Olha, eu sou uma pessoa que não para, que tá trabalhando o tempo inteiro, e se não fosse isso eu vou te falar que não dava para ganhar a vida com livro. Olha, isso tudo aqui foram livros que eu consegui hoje (aponta para três pilhas de livros que vão até a sua cintura).

Quando eu não tô aqui, as pessoas acham que eu não tô trabalhando, mas eu tô indo na casa dos clientes, procurando livros, vou buscar doações. E às vezes essas doações são só enciclopédias e livros de Direito, que normalmente já estão defasados, mas a gente tem que ir, tem que procurar, ver se vale a pena. Esses dias eu encontrei um livro do Aleister Crowley que consegui vender por R$300! Então, é um achado, do nada, e só procurando que a gente consegue encontrar.

19. E o que você faz no seu tempo livre?


Leio! Hahaha! É muito frustrante, porque trabalhando aqui é muito corrido, não consigo ler. Mas quando tenho tempo, eu gosto de ler, de ir ao cinema, ao teatro, eu faço encadernação de livros, eu gosto de ter esse contato, de estar sempre em contato com livros.

20. Recentemente a banca foi tombada, certo? Quais as implicações disso para a livraria?

No início do ano foi aprovado um projeto de tombamento da Rua das Flores. E eu descobri que a rua era um projeto ecológico, por causa das flores, mas também cultural. Então eu fui em busca dessa tentativa de inclusão da banca, e de janeiro para cá começamos a mobilizar o espaço, fazer eventos, saraus, shows, e no final desse mês veio essa vitória. A banca foi incluída, nós somos a parte cultural do projeto.

O que isso gera é mais segurança. A licença que nós tínhamos era um título precário: a Prefeitura disponibiliza o local, mas ele não é seu. Agora, realmente nosso espaço é nosso. É como se fosse a casa própria.

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