Um tempo morto

No cruzamento da filosofia, da poética e do ensaio, Nathanaël nos entrega aqui uma correspondência que se oferece ao leitor como uma ética do encontro. Uma foto de Claude Cahun se impõe como alvo das atenções deste texto que, escrito num entregênero, se pretende tanto como narrativa (impossível) do desaparecimento, do afastamento e da (ir)responsabilidade histórica, quanto infatigável inferno de um olhar. O que volta a ser questionado nestas páginas e está irrevogavelmente em jogo é nossa situação diante daquilo que – da língua, mas também de e em nós mesmos – (nos) escapa.

É a primeira vez que o texto, parte do livro L’Absence au lieu (Claude Cahun et le livre inouvert), publicado em francês em 2007, é traduzido para o português.

Aproveitamos para lembrar que um dos trabalhos de Claude Cahun, Heroínas, faz parte do nosso projeto de financiamento coletivo. Para tornar possível a publicação de seu primeiro livro no Brasil, escrito originalmente entre 1920 e 1924, clique aqui.
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(9) UM TEMPO MORTO


A todo momento, nós estamos sentadas – na verdade, ela está de pé –, Claude Cahun e eu, por assim dizer, uma diante da outra. A semelhança é perturbadora, você há de convir. E isso por vários motivos. Essa semelhança, real ou imaginada, pressupõe uma memória que não existe, que não pode existir. Eu não me lembro dela. Não tenho do que me lembrar. Pois acontece que nós somos bastante indistintamente distintas uma da outra. Essa semelhança não é unicamente fisiológica; ela ultrapassa – e de longe – as linhas do rosto, a natureza do olhar, a sensibilidade projetada a partir da foto. Existem os detalhes biográficos de seu engajamento ideológico, de sua contribuição artística e de seu judaísmo, quiçá da fragilidade de sua saúde. Existe também o fato do francês. Alguns veriam nessa proximidade um certo reconforto, uma razão de ser, uma narrativa a partir da qual ampliar a sua. Para mim, não é nada disso. Ao contrário. Me faz experimentar uma obsessão que esbarra na demência.

Que dizer? Nela, eu me pareço. Não: eu me reconheço. Mas me pareço. Não há distinção, e sim indistinção. Não tem mais diferenciação, tampouco diferença, e sim absorção. Mas mais – ou menos – do que isso, existe subtração e não acumulação, como seria possível acreditar: subtração uma da outra, subtração cujo resultado é a obnubilação, a anulação de nós duas.
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                  A foto se oferece como precipício.

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(Diga-se de passagem: com certeza essa foto foi tirada em contexto bastante distinto dos vários retratos que não eram destinados ao público, e sim à sua amante e colaboradora artística, Marcel Moore (que Cahun designava como “o outro eu”), bem como a um círculo restrito de amigas, de amigos. A foto que embala os Écrits de Claude Cahun mostra-a sozinha – pois a foto está re-enquadrada; Cahun na verdade está acompanhada –, mas em relação com um espaço público. Ela está de pé na frente de uma livraria, na rua. Há apenas ela e a objetiva – e também uma outra mulher, de identidade desconhecida, que foi extraída da foto e a quem nenhuma menção é feita – em um espaço fechado e performativo; há a outra à qual nós, voyeures, nos substituímos, pela qual sou substituída, que me substitui.)

A fotografia representa um tempo morto. No que diz respeito a essa foto em particular, ela oferece também uma falsa pista. Pois o reconhecimento, visceral, catapultado em semelhança, decepciona inevitavelmente por esse motivo que ela convida o vazio, ela seduz o nada. Ela abre uma porta para logo tornar a fechá-la, me abandonando boquiaberta diante da coisa oferecida, livremente e na ilusão de sua totalidade, que me é retirada para que eu chegue a me perguntar se esse encontro realmente aconteceu, se a possibilidade desse encontro pode ser encarada com verossimilhança, se não é formulada, à exceção do único desejo que pôde provocá-la. E a pergunta, persistente, se desdobra: de onde vem esse desejo… e por quê?

O problema da foto, dessa foto, é aporético. Ela convida e repugna. Ela evoca e rasura. Não existe apenas encontro, e sim desmoronamento. Existe fundição e refundição. De uma (eu) na outra (ela), tão logo sobreposta ao eu, repercutida, propagada e rebaixada, arrastando a queda rumo ao desaparecimento. A foto faz eco. Ela me devolve àquilo de mim que já projeto; e no perpétuo desdobramento do olhar e dos rostos, há a anulação, há a realização, total e totalitária, da ausência à qual devo me confrontar, à qual devo a mim confrontar. Ausência do lugar e do ser, da voz e do rastro. Há o apagamento da memória – a sua e a minha –, o que suscita o apagamento do passado (íntimo), quiçá da história (messiânica, benjaminiana). Há não só apagamento, mas refutação. Há aniquilamento. Com nossas duas presenças, repetidas ad vitam aeternam, que voltam nunca mais, fazemos a confissão de nossa semelhança. Uma e outra, nós nos interrompemos. Através dessa troca, dessa relação, dessa ligação, dessa correspondência, afirmamos ao mesmo tempo a irredutibilidade da linhagem – pois ela é, no momento que os olhares se cruzam, inelutável –, bem como sua incapacidade. O movimento gerador, se assim quisermos, encetado pela semelhança, o eu me pareço, incita diretamente seu abatimento. Quando, diante dela, de sua foto, eu digo EU, me interrompo.

Nathanaël é autora de mais de 20 livros escritos em inglês ou francês, entre os quais estão Feder (2016), The Middle Notebookes (2015), Sotto l’immagine (2014) e Carnet de somme (2011). Entre suas traduções extrínsecas figuram obras de Édouard Glissant, Catherine Myrikakis, Hervé Guibert e Hilda Hilst (esta última em colaboração com Rachel Gontijo Araújo). Nathanaël vive em Chicago.

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