A acessibilidade como valor maior na busca pela sustentabilidade e independência. Um experimento.

A acessibilidade como valor maior na busca pela sustentabilidade e independência. Um experimento.

                                                                                                                                Por Rachel Gontijo Araujo

 

Nossa única fonte de financiamento vem das pessoas que compram nossos livros. A verdade, entretanto, é que muitas vezes o próprio público não tem consciência do seu papel de colaborador, não se vê, não se enxerga como investidor. Infelizmente, essa nossa visão restrita das relações humanas e da economia talvez não nos possibilite compreender a relação entre público e editora para além de uma simplista equação mercantil. Somos ensinados na maior parte do tempo a pensar que investidores são somente aquelas corporações, instituições bancárias, privadas e governamentais, “grandes fortunas”, quase que sem rosto. E não que o ato de consumir e o investimento na cultura (e, sejamos sinceras, em tudo na verdade) é um instrumento de ação sociopolítica, individual e coletiva, e por consequência, um instrumento para atingir o tipo de desenvolvimento desejado na cidade, país e mundo que habitamos. Em outras palavras, temos aceitado há muito tempo as estruturas que inventamos e que muitas vezes já nascem ultrapassadas e continuamos as dando como verdade em si.

Por isso, temos pensado muito ultimamente na urgência de se reexaminar o padrão do chamado “modelo de negócio” e começar a pensar na acessibilidade como valor maior nesse processo para alcançar a sustentabilidade e independência financeira enquanto projeto, para ampliar nossas possibilidades de existência, trabalho e atuação.

Muito se falou na mídia este ano no “sucesso” das movimentações independentes. Mas há muito, muito mesmo, que não foi dito sobre as inúmeras dificuldades e evidentes lutas diárias de uma editora independente para se manter viva; sobre o indiferentismo governamental e privado; sobre a falta de consciência e maturidade social, cultural e econômica de diversas “grandes livrarias” e muitas vezes também do próprio público consumidor; sobre a importância de olharmos de forma mais profunda a questão do acesso e de uma possível construção de um relacionamento de colaboração e confiança entre público e editora; sobre a industrialização da cultura editorial tradicional e a recusa de uma grande parte das movimentações editoriais independentes de transformar recursos humanos e produção em meras mercadorias etc.

Ficamos muito felizes em saber que existem pequenas editoras que são sustentáveis, mas acreditamos também que esse não é o caso de uma boa parte dos fazedores de arte impressa. Não é o caso d’A Bolha. Nós vendemos livros, ganhamos dinheiro com a venda destes livros, mas ainda, depois de seis anos, não somos um projeto sustentável e nem temos condições de promover a acessibilidade que acreditamos que um projeto do âmbito da cultura deveria oferecer. Quando falamos de acessibilidade, estamos nos referindo a um acesso que não é restrito só àqueles que podem pagar.

Posto isto, para que A Bolha possa colocar a acessibilidade como fio condutor de um projeto de existência sustentável, faremos a partir de hoje algumas mudanças na maneira como comercializamos nossos livros, tanto no site da Editora como na nossa livraria na Comuna enquanto estivermos abertos (o fechamento permanente do espaço d’A Bolha na querida Comuna está programado para 30 de novembro de 2017). Sendo muito sinceros, não sabemos se as condições para este tipo de mudança existem, mas também não achamos possível e não temos vontade – com país, cidade, mundo do jeito que estão – de permanecer nas condições atuais: sem sustento para continuar produzindo e existindo, sem investimento e com acesso as nossas publicações limitado somente a quem tem recursos financeiros. Então, seria um erro para nós seguir de qualquer maneira diferente da que está sendo proposta aqui. Nossa existência sempre dependeu do Apoio-Investimento do público. A diferença agora é que precisamos e queremos tornar esta realidade ainda mais clara.

Portanto, para ir de encontro a uma experiência do desejo que não é ditada pela falta: falta de recursos, falta de acesso, falta de consciência e dando preferência a arranjos mais humanos, A Bolha lança o PAGUE O QUE PUDER. Sim, é isso mesmo! A partir de agora esta possibilidade de acesso as nossas publicações passa a existir. E com isso também surge a imensa necessidade que nosso público entenda e tenha consciência de que Pagar o que puder é bem diferente de Pagar o que quiser. Pois, para A Bolha, tudo continua o mesmo no sentido que continuaremos honrando (claro!) nossos compromissos de pagamento de porcentagem de direitos autorais sobre vendas baseado no preço de capa já estabelecido para cada um de nossos livros. Assim, para que esse projeto tenha alguma chance de ter um impacto verdadeiramente positivo para todas as partes envolvidas, precisamos ter a consciência de que as decisões aparentemente microscópicas que tomamos todos os dias têm, sim, grande impacto. E o que é ruim só prevalece realmente quando confundimos o aprofundamento das contradições sociopolíticas e econômicas como a norma.

O ideal, claro, seria que todas as pessoas tivessem condições de pagar o preço de capa que colocamos para cada livro. Este preço é sempre estabelecido levando em consideração todos os gastos de produção que foram necessários para trazer cada uma de nossas publicações a público. Mas, infelizmente, esta não é uma realidade. Sendo assim, o Pague o que puder, dá a possibilidade para que aqueles que queiram adquirir um trabalho publicado pela A Bolha, mas não têm recursos financeiros para pagar o preço estabelecido, possam ter acesso a esse conteúdo. E continua sendo uma oportunidade para aqueles que têm a possibilidade de pagar o preço de capa continuar pagando o preço estabelecido para que outras pessoas possam usufruir dessa alternativa. E também a chance para aqueles que têm condições de investir um valor maior que o preço de capa, fazê-lo, sabendo que ao fazer um investimento maior no ato da compra, seja de R$1, R$3, R$5, R$35, sobre o preço de capa estabelecido, estará diretamente apoiando o acesso de outras pessoas aos livros.

Nós queremos ser melhores, sempre, mesmo que isso torne A Bolha algo impossível de sobreviver hoje. O sucesso aqui pra gente é poder fazer o que fazemos, da maneira que desejamos, diariamente. E esperamos sinceramente poder continuar por anos e anos resistindo, mas caso isso não aconteça, pelo menos estaremos felizes sabendo que lutamos até o fim para cumprir nossa finalidade enquanto Editora (leia-se abrir espaços).

É isso que importa. Enquanto conseguirmos manter A Bolha viva, quem quiser livros sempre os encontrarão.

E caso você encontre alguma alegria e valor no que fazemos e acredita que nossa existência é de alguma forma importante e causa algum impacto cultural positivo no país e mundo, considere, por favor, tornar-se um Membro-Investidor e apoiar A Bolha com uma contribuição recorrente de sua escolha. Você pode também nos apoiar com uma contribuição única: escolhe o valor que gostaria de investir na Editora e esse valor é enviado para nós uma única vez (não é recorrente).

Nossas operações são coordenadas por uma pequena equipe (três pessoas!) de apaixonadas e este Apoio-Investimento pode nos dar a chance de continuar existindo e seguir escolhendo projetos de publicações relevantes. A verdade é que se cada um de nossos seguidores das redes sociais nos apoiassem com R$1 por mês, teríamos condições de continuar publicando conteúdo novo e continuar resistindo enquanto Editora.

O mundo é o que nós somos. E qualquer tentativa de mudança precisa necessariamente começar com esse entendimento.

Bom, então aqui vai: do nosso coração pro seu. Vamos então, mais uma vez, sem medo.

 

 

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