Entre fins de mundos, toque

                                            Entre fins de mundos, toque

                                                                             Por Stephanie Sauer

 

Assim como as mulheres, os livros não são vasos vazios a serem preenchidos com ideias de homens. Eles são estruturas que, de maneira ativa, veiculam ideias, opiniões e crenças culturais mantidas há tempos e, potencialmente, também novos modos de ver.

Fazer publicações que muitas vezes são chamadas de livros de artista é um projeto tanto de ativismo quanto de prática artística. Esses livros insistem que a forma veicula o conteúdo, que os olhos precisam traduzir o que é e o que não é contido em palavras, que as mãos têm suas próprias maneiras de ler. A cada novo feitio, eu me contraponho a uma cultura que insiste na minha passividade. O meu best seller é um livro que precisa ser rasgado. It’s fun to be naked [É divertido ficar pelado] contém um divertido poema de seis versos espalhado em cinco tiras de uma polegada de papel dobrado que são seguradas por um ilhós. Os leitores só podem acessar o texto por inteiro ao destacar a página nas linhas pontilhadas que fiz à mão. A maioria dos leitores pede duas cópias, insistindo que não gostam da ideia de “destruir” um livro. Eu garanto a eles que esse livro só se realiza inteiramente quando o leitor interage com ele.

Plana – Festival Internacional de Publicações de São Paulo, Edição Fim do Mundo

O tato se encontra no degrau mais baixo da escada evolutiva ocidental, tomado como uma função do corpo – corpo associado à selvageria, ao feminino, uma matéria-prima a ser aproveitada e tornada mais produtiva pelos civilizados. Em seu ensaio “Tackling Tactility: What Is It that Makes Theorists Shy Away from the Haptic Domain?” [Atacando a tactilidade: o que faz os teóricos manter distância do domínio háptico], Agnes Blaha observa que “Hoje em dia antropólogos presumem que a relutância generalizada da parte de pesquisadores quanto a ir além do audiovisual não deve menos à tradição racista de encarar os ‘sentidos mais baixos’ como predominantes entre não ocidentais ‘primitivos’”. Ela cita a hierarquia dos sentidos estabelecida por Lorenz Oken no início do século XIX, que traz “o ‘homem olho’ europeu no topo e o ‘homem pele’ africano por último”, como um dos exemplos dessa tradição em curso. Outros acadêmicos pós-coloniais desencavaram provas de hierarquias econômicas que reforçam a estratificação social e chegam a uma conclusão semelhante: o ‘primitivo’ vem sendo encarado meramente como corpo e, por esse motivo, é justificadamente possuído, usado, comercializado, vendido, estuprado, abusado.

Do mesmo modo, a terra pertencente aos ditos primitivos foi percebida como tendo sido usada de maneira imprudente e, portanto, recaiu sob o direito divino do poder colonial de X. Apenas ele sabe como fazer melhor uso da terra. Apenas ele tem o direito de possuir, usar, comercializar, vender, estuprar e abusar dela. A terra e a nossa sobrevivência nela continuam sendo vistas nessa mesma tradição, e sua pilhagem, justificada pela criação de uma coisa chamada emprego.

 

 

René Descartes nasceu na França em 1596. Ele asseverava teorias. Propunha ideias. Alguém cozinhava para ele, lavava suas roupas, cuidava da faxina. Ele morreu. E deixou para trás contribuições aos domínios da matemática e da metafísica, mais especificamente a formulação de um dualismo mente-corpo que vem afligindo o Ocidente desde então. Nossa interpretação contemporânea dessa cisão insiste em separar a inteligência humana dos sentidos. Os sentidos, acabamos por concluir, não fazem sentido algum. Mas essa teoria pode ser simplesmente resultado de não termos que cuidar da própria faxina, comida ou roupa suja.

Nos últimos anos, cientistas como Tiffany Field provaram a necessidade humana de toque. Não um benefício oriundo disso, e sim uma necessidade biológica. Humanos precisam de toque para sobreviver. Não para prosperar ou se sobressair, mas simplesmente para sobreviver. Field e outros nomes também concluíram que certas culturas euroamericanas e do norte europeu são “perigosamente privadas de toque”. A histórica difamação ocidental do corpo agora é causa de crises de saúde e de morte prematura.

 

 

Meu ateliê não tem trinco. Às vezes trabalho lado a lado com galos cacarejantes que vivem nos morros de terra atrás de uma antiga fábrica de chocolate no Rio. Às vezes eu me instalo na sala de jantar de edículas nos arborizados subúrbios das velhas cidades mineradoras da Califórnia. Às vezes trabalho com caixas de papelão em quartos alugados. Às vezes me cedem uma casa ou um espaço guarnecido em alguma residência artística que me fornece até refeições. Às vezes meus materiais ficam guardados bem espremidos num armário de armazenamento enquanto eu me viro com laptop, placa de corte, régua, espátula de osso para encadernação, furador. Meu ateliê não tem trinco, mas tem sempre uma constante: qualquer que seja o espaço, penduro uma pomba branca pintada à mão com as asas bem abertas, pousada sobre um aro enrolado com fitas coloridas e mais algumas fitas escorrendo embaixo.

Quando criança na St. Mary’s Academy, a escola católica em funcionamento contínuo há mais tempo na Califórnia, estado que contou com a intervenção de missionários jesuítas espanhóis na tentativa de converter as populações indígenas depois de escravizá-las, me atraí pela imagem do Espírito Santo que o padre irlandês pintava durante sua liturgia. Fiquei profundamente fascinada pela ideia de que aquela coisa amorfa, mais poderosa do que qualquer deus masculino ou seu filho encarnado, podia habitar um humano a qualquer momento, que estivesse presente em todos nós, em tudo, em mim. Meu corpo formigava de reconhecimento.

Mais tarde eu viria a entender que a descrição que o padre fazia do Espírito Santo talvez tivesse sido mais informada pela Reforma Protestante, pela espiritualidade New Age da Costa Oeste, e pelas bases pagãs adaptadas do catolicismo do que por qualquer outra doutrina cristã ortodoxa. Encontrei ainda que, de acordo com o dicionário Merriam-Webster, a palavra “vessel”, equivalente em inglês a “vaso”, traz três definições: 1) um recipiente vazio; 2) uma embarcação maior do que um barco a remos; e 3) um tubo ou canal (por exemplo, uma artéria) em que um fluido corporal é contido e conduzido ou circulado. Essas definições, pareadas com a memória das palmas das minhas mãos formigando, ainda produz alguma poesia. Mesmo assim, permaneço cética, às vezes até ressentida.

A ideia de que mulheres são o “vaso mais fraco” tem origem, pelo menos parcialmente, na tradição judaico-cristã. Uma passagem do Livro de Pedro é citada há muito como prova da inferioridade do feminino. Vejamos algumas traduções:

 

Igualmente vós, maridos, vivei com elas segundo a ciência, como sendo vaso mulheril mais fraco, dando-lhes honra como a herdeiras juntamente convosco da graça da vida, para que as vossas orações não sejam impedidas.
– 1 Pedro 3:7, Versão Almeida revisada Imprensa Bíblica

 

Vocês, maridos, igualmente devem tratar as vossas mulheres com consideração e respeito, tendo em conta a sua condição feminina. Lembrem-se de que partilharão com elas o privilégio da vida eterna. Caso contrário, as vossas orações não serão eficazes.
– 1 Pedro 3:7, Versão O Livro

 

Do mesmo modo vocês, maridos, sejam sábios no convívio com suas mulheres e tratem-nas com honra, como parte mais frágil e co-herdeiras do dom da graça da vida, de forma que não sejam interrompidas as suas orações.
– 1 Pedro 3:7, Nova Versão Internacional

 

 

Não faltam blogs cristãos que discutem o “verdadeiro significado” desse versículo, com alguns deles citando erros de tradução dos textos originais e observando que o termo “fraco” também significava “aquele que não teve ocasião de provar sua força”. Um desses autores lembra aos leitores que, no primeiro século das culturas greco-judaicas, as mulheres detinham pouca autoridade social ou política, e interpreta essa passagem como uma convocatória para que cristãos rompam com essa prática “pagã” respeitando suas esposas igualmente como herdeiras da graça de Deus. No entanto, os últimos dois mil anos de cristianismo fizeram de tudo, menos tomar cuidado com essa interpretação.

Uma longa tradição de batizar embarcações – barco à vela, grandes navios, automóveis, caminhões – com nomes de mulher continua ainda hoje. Alguns historiadores atribuem a prática ao fato de que o gênero da raiz latina da palavra “navio” – “navis” – é feminina. Outros argumentam que antigos navegantes batizavam seus barcos com os nomes das deusas para garantir sua proteção em viagens perigosas. Seja qual for a origem, o vestígio cultural de associar embarcações com o feminino ainda continua em voga.

Vemos isso na linguagem das leis que restringem os direitos reprodutivos das mulheres. Vemos isso na própria noção de que os direitos reprodutivos das mulheres precisam ser restringidos. E vemos que essa noção vem crescendo: nos Estados Unidos, de acordo com o Instituto Guttmacher, “as 334 restrições de aborto decretadas de 2011 até julho de 2016 pelos diferentes estados representam 30% de todas as restrições de aborto desde o caso de Roe contra Wade”. No início de 2017, pelo menos sete estados (de um total de quinze em 2016) mantiveram o direito de estupradores a solicitar custódia legal de crianças nascidas da agressão. Vinte e oito deles atualmente ostentam um “acesso severamente restrito” ao aborto. Em pelo menos um estado, o Arkansas, uma legislação aprovada recentemente permite que estupradores esponsais processem suas vítimas se estas realizarem abortos, priorizando efetivamente o direito de estupradores sobre aqueles das vítimas de estupro. Porque mulheres não são nada além de vasos que existem para serem explorados. Essa é uma história bastante antiga que continua encontrando quem publique essas reedições de bom grado.

 

A produção de livros no Brasil é a história da produção de livros na maioria das antigas colônias. Até 1808, publicar nessa colônia portuguesa era atividade proibida; exigia-se por lei que todos os materiais publicados fossem impressos na Europa e importados através de Lisboa, sede da Coroa Portuguesa. Como todas as colônias, o Brasil não era visto como uma fonte de conteúdo original, e sim como um receptáculo vazio a ser preenchido com a civilização do poder colonizador. Como diz o famoso comentário de Antonio de Nebrija quando da publicação do primeiro livro de gramática castelhana em 1492, ano que também marcou a reconquista cristã da Península Ibérica do domínio dos mouros: “A linguagem sempre foi parceira do império”. Colônias posteriores de Portugal e da vizinha Espanha eram vistas como consumidoras, e não geradoras de ideias ou cultura, isso para nem falar em língua. Assim como as mulheres, as colônias deviam ser cultivadas com as sementes de homens dominantes.

O Brasil, quinta maior nação do mundo, foi a última da América a obter uma prensa móvel e também a última a legalizar a publicação doméstica. No fim do século XIX, prensas tipográficas e xilográficas operando na região nordeste desenvolveram uma tradição própria de literatura de cordel enraizada nas culturas orais locais, além de tradições trovadorescas e de panfletagem importadas da Europa e da África por meio do comércio realizado através da Rota da Seda. Mas até o século passado existia muito pouca atividade comercial de impressão nesse país que tem uma superfície territorial noventa e duas vezes maior do que a de seu colonizador. Tal legado é parte do motivo pelo qual A Bolha Editora, pequena editora que fundei em 2010 junto com Rachel Gontijo Araujo, uma escritora que conheci na faculdade em Chicago, encontrou tanta dificuldade para comprar papel ou imprimir livros dentro de seu próprio país: não existe uma tradição forte de produção de papel nem de impressão comercial e, por extensão, a quantidade de profissionais bem treinados nesses ofícios é bastante limitada. Publicamos trinta e seis livros – novas obras de autores e artistas brasileiros, traduções de livros brasileiros em inglês e traduções em português de livros que não encontrariam espaço de outra forma no mercado brasileiro convencional – e, ainda assim, passamos por dificuldades para produzir alguns de nossos títulos. Agora o Brasil possui uma próspera comunidade de editoras independentes com as quais partilhamos essa luta. Até mesmo em meio ao mais desastroso declínio econômico observado no país em décadas, o jornal Folha de São Paulo declarou recentemente que pequenas editoras criaram um mercado que vem crescendo na contramão da atual onda de recuo. Ao passo que esse mesmo artigo ignora o perigo real de colapso que todos nós encaramos, ele é um indicador de nosso poder que vem crescendo pelas margens, essa insistência compartilhada de que apenas o comércio não basta.

 

Plana – Festival Internacional de Publicações de São Paulo, Edição Fim do Mundo

 

Enquanto isso, o México foi a primeira nação dessa mesma América a adquirir sua própria prensa de tipos móveis, em 1539. Essa tecnologia, levada à Europa através da China ao longo de séculos de atividades comerciais, encontrou em Tenochtitlán um papel diferente e uma tradição de produção de livros desenvolvida pelos mexicanos e seus predecessores. Os conquistadores espanhóis talvez tenham visto os conteúdos dos códices maias e astecas – pintados em tinta vermelha e preta sobre páginas translúcidas dobradas feitas com polpa de amatl – com certo desdém e decidiram queimá-los nas fogueiras da Inquisição, mas as técnicas de acabamento se salvaram. Desde o início do período colonial, mais de quinhentos códices sobreviveram, nos quais cuidadosas inscrições romanas interpretando palavras castelhanas junto com pictogramas indígenas descrevem a vida cotidiana e os costumes das populações recém conquistadas. Ainda hoje, em textos anglófonos eruditos que documentam a história do papel e suas migrações, não há nenhuma menção às Américas. Todas as tecnologias de produção de papel são supostamente originárias da Ásia; viajaram e foram refinadas na Índia, e depois na África; cruzaram as fronteiras e chegaram à Europa; para então serem levadas até o Novo Mundo por ligas de peninsulares. O mito das Américas como um receptáculo vazio de tudo o que é europeu se vê reinscrito em Times New Roman.

Ao final da primeira década do novo milênio, nos Estados Unidos, livros feitos de papel estavam sendo chamados de desnecessários, relíquias de uma era que precisava abrir caminho para a novíssima revolução tecnológica na leitura: o e-book. Aqueles dentre nós que preferiam percorrer com os dedos essas fibras cobertas de tinta, fazer orelhas nas páginas e sentir o cheiro de uma adorada história eram considerados como hostis ao progresso. Fomos chamados de nostálgicos e fetichistas e de espécie que não tardaria a entrar em extinção. Mas a tão propagandeada revolução dos leitores digitais nunca aconteceu, seu apelo era maior antes do que depois que as vendas de e-books começaram. Em vez disso, o mercado que mais cresceu nesse mesmo período foi o de editoras independentes que lançam literaturas análogas em termos de qualidade e risco. Até mesmo os adolescentes, sempre mistificados como nativos digitais, começaram a se voltar das mídias sociais on-line em direção à intimidade privada de meios resgatados, como o zine xerocado. No intervalo de uma década, a leitura não tátil conquistou apenas uma fatia do mercado editorial, e aqueles que preferem manusear seus livros estão bem longe da extinção. Editoras voltadas ao mercado de massa começaram a mudar o foco dos e-books para publicações mascaradas de independentes, com capas simples compostas em tipos e encadernação artesanal fake.

Em sua roupagem contemporânea, as artes do livro, com uma linhagem enraizada na rebelião política e artística, do futurismo russo da década de 1910 até as revoluções culturais internacionais das décadas de 1960 e 1970, oferecem um meio integrado através do qual podemos questionar as próprias fundações desse nosso mundo inventado. Nas décadas passadas, artistas, muitas delas mulheres ou figuras marginalizadas de alguma outra forma, começaram a experimentar com as formas convencionais do livro como modo de contornar o exclusivista circuito de galerias, manter o controle criativo de seus trabalhos e atingir um público mais amplo por meio da distribuição de múltiplas e democráticas cópias. Hoje, os impulsos são semelhantes. Em 2016, num estudo sobre editoras independentes de livros de artistas na América Latina conduzido por Edições Aurora / Publication Studio SP, Tenda de Livros e Zerocentos Publicações / Ocupeacidade, pesquisadores descobriram que mais de metade dos envolvidos são mulheres, com um terço dessas editoras se identificando como queer, outro terço como “pardx/negrx/indígena/oriental/outros” e setenta e quatro por cento de todas as editoras em atividade criando modos inteiramente novos de distribuição fora dos mercados convencionais. Noventa e um por cento dos entrevistados encaravam a atividade de publicação como uma ação política.

 

 

Tupinambá Lambido: campanha de cartazes lambe-lambe
realizada por um grupo anônimo de artistas. Bairro da Glória, Rio de Janeiro.

 

No mundo todo, observa-se uma explosão de feiras de publicação de artistas, de Nova York a Tóquio, de Vancouver a Tel Aviv, de Buenos Aires a Berlim, de Singapura até a Cidade do México, construída em cima das ruínas de Tenochtitlás. Artistas que falam diferentes línguas e têm suas raízes em diferentes culturas de livros, produção de papel e impressão acabam por se reunir nesses festivais que duram vários dias. Eles encontram seus caminhos para além do inglês profissional dentro de outro tipo de língua franca, onde essas narrativas são conduzidas em silêncio ou absolutamente nada disso: fotolivros, folioscópios, graphic novels, híbridos de som e imagem e até mesmo livros são feitos para serem lidos unicamente através do toque. O corpo se torna sua própria linguagem, igual à música e à matemática.

Em 2017, o tema da Plana – Festival Internacional de Publicações de São Paulo, a maior feira de publicações independentes da América do Sul, é Fim do mundo. O catálogo oficial traz um ensaio sem autoria indicada intitulado “Os fins dos mundos”, o que nos lembra que, nestas Américas, o fim já chegou várias vezes: “Para uma série de povos ameríndios, o mundo acabou (ou quase) várias vezes. Esse é o motivo pelo qual a existência atual é, de maneira frequente, concebida precisamente como o intervalo entre o fim mais recente (precipitado pela queda do céu, pelo incêndio universal, por algum dilúvio…) e o fim próximo, sempre iminente…”.

No último ano, Michel Temer, atual presidente do Brasil, conduziu o impeachment de Dilma Rousseff, a primeira presidente mulher do país, uma mulher que, em sua juventude, lutou contra e foi torturada pela ditadura militar. Uma das formas de tortura pelas quais passou consistia em inserir ratos em sua vagina. A forma de seu impeachment foi um “golpe leve”. Também em 2016, os Estados Unidos elegeram seu produto de exportação mais infundado para o cargo mais elevado, usando velhas táticas coloniais de divisão e conquista. Pânico e revolta se espalharam em ambas as nações desde então, indicando a ruptura de ilusões mantidas há muito: o capitalismo e o eurocentrismo.

O catálogo do festival de publicações é feito em impressão risográfica, com capa em serigrafia branca e vermelha, e traz o texto integral de um manifesto indigenista, “Desta terra, para esta terra”, escrito por Sueli e Isael Maxakali, do povo Tikmu’un. Os autores contextualizam a situação brasileira atual de desesperança detalhando as disputas territoriais históricas e contemporâneas de sua tribo, além das mudanças climáticas que vêm testemunhando. Eles convocam para uma retomada integral de suas terras ancestrais e terminam com uma declaração: “Não podemos continuar vivendo assim!”

Rachel e eu arrastamos duas malas cheias de livros pelo caminho de lama do lado de fora da Fundação Bienal de São Paulo, uma árida estrutura monolítica projetada por Oscar Niemeyer e construída em 1962. O pavilhão assinado, com seus vinte e quatro mil metros quadrados do mais elevado modernismo brasileiro, se encontra hoje repleto de artistas e editoras que ali ficarão trocando mercadorias a preço de mercado e colocando em circulação outros trabalhos na economia de doação. Rachel e eu entramos pelas portas deslizantes e pegamos crachás com nossos nomes escritos numa fonte branca em negrito igual à que é usada no texto que aparece nos banners com andares de altura, dependurados no teto. Vamos serpenteando pelos corredores cheios de gente que faz dispondo suas publicações e encontramos a nossa mesa: dois cavaletes que sustentam uma longa prancha de compensado sem acabamento.

 

 

Stephanie Sauer é autora de The Accidental Archives of the Royal Chicano Air Force (University of Texas Press), editora fundadora da Copilot Press e cofundadora d’A Bolha. Seus trabalhos lhe renderam o prêmio So To Speak na categoria livro híbrido, bolsas da Corporation of Yaddo, do The Kimmel Harding Nelson Center for the Arts, do Woodstock Byrdcliffe Guild, e da School of the Art Institute of Chicago, além de serem exibidos no The Center for Book Arts em Nova York, no De Young Museum em São Francisco, na Biblioteca Nacional de Bagdá, no Chicago Cultural Center e na ArtRio. É professora visitante do San Francisco Art Institute (SFAI).

Um comentário em “Entre fins de mundos, toque

  1. ótimo artigo, a autora passeia por temas diretamente relacionados, atuais, situa-os com base histórica e, além disso tudo, de maneira leve e interessante. parabéns.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *