O mestre da monstruosidade requintada

O MESTRE DA MONSTRUOSIDADE REQUINTADA

O trabalho do artista gráfico francês Stéphane Blanquet exerce uma atração gravitacional sobre o espectador, seja qual for o material da vez

                                                                                              por Alla Chernetska

                                                                                         [Artigo publicado na edição #90 da revista Raw Vision*]

 
Le Train [O trem] (detalhe), 2009, instalação com diversos materiais, parte da exposição “Quintet” no MAC Lyon, França, 76m²/24m², foto de Céline Goergen

O mundo criado por Stéphane Blanquet é um circo monstruoso da realidade. As pessoas, insetos e demais personagens que convivem em seus livros ou ocupam a parede inteira de uma exposição são monstros que pululam em espaços pictoriais apertados em excesso. Como o próprio Blanquet reconhece, o papel e a tela são muito limitadores, por isso, ao ir além das molduras, seus mundos e personagens conquistam paredes inteiras, e também exposições inteiras. Nas palavras dele: “Os espaços são sempre pequenos demais para necessidade que sinto de espirrar minhas imagens em tudo que há em volta. Se me dessem um prédio inteiro, eu iria cobri-lo todo de sêmen gráfico. Preciso de uma cidade para poder cobri-la de imagens; uma cidade é o espaço mínimo para uma exposição”. Os monstros de Blanquet interagem bem de perto, criando uma miríade de padrões vivos e orgânicos que pulsam e absorvem nosso olhar. Seja na narração de contos ou na abstração de murais horror vacui, o universo de Blanquet se torna uma provação na qual somos forçados a confrontar nosso próprio lado sombrio, e isso tudo é uma alucinação carnal de puro prazer.

Blanquet publicou seu primeiro desenho aos doze anos de idade, quando o reproduziu em dez fotocópias coloridas; assim, deu ao mundo sua primeira publicação. Seus ídolos eram personagens da cultura pop encontrados nos quadrinhos (como os franceses Placid et Muzo), romances de aeroporto e quadrinhos eróticos publicados pela Elvifrance. Em 1989, então com 15 anos, criou o fanzine Chacal Puant [Chacal fedido] e começou a publicar trabalhos de artistas majoritariamente desconhecidos. Tiragens de 500 cópias logo chegaram a 1000 unidades, à medida que ia crescendo também a demanda por desenhos explícitos, brutos, espontâneos e deliberadamente estranhos. Entre os artistas publicados por Blanquet à época estavam os “punkoides” Y5/P5, Keiichi Tanaami, Jérôme Zonder, Chris Hipkiss, Gary Panter, Rory Hayes e Charles Burns.

Na década de 1990, o trabalho de Blanquet ganhou as páginas de várias renomadas publicações de artes gráficas, como Flag, Sortez la chienne, Dernier cri e Last Gasp Comics, para citar apenas algumas. Em 1993, fez sua primeira exposição individual, “Posthumous Exhibition” [Exposição póstuma] na galeria Un Regard Moderne, um espaço parisiense cult que também faz as vezes de livraria, para depois emendar em exposições coletivas em 1994 nessa mesma galeria e no Cartoon Art Museum, em São Francisco, Califórnia.

Em 1995, Blanquet, com sua parceira criativa Olive, fundou a revista de quadrinhos La Monstrueuse, que lhes rendeu um prestigioso prêmio no Festival Internacional de Quadrinhos de Angoulême. Enquanto isso, suas obras e quadrinhos estavam sendo publicados internacionalmente.

Logo, Blanquet e Olive começar a usar recortes de papel para animar seus filmes. O curta Mon Placard [Meu armário], de 1999, obteve grande sucesso na França, abrindo as sessões do filme Spider – Desafie sua mente, de David Cronenberg, nas salas da rede MK2 em Paris. Depois, em 2000, foi a vez de 26 episódios da série animada Histoire Muette [História Muda], mostrando um amplo espectro da perversão humana, desde a crueldade infantil até a frustração sexual. Se os personagens de Mon Placard são lentamente levados a um final trágico, em Histoire Muette Blanquet coloca-os em situações extremas, onde as coisas acontecem tão rápido que os personagens estão sempre correndo entre os momentos de tristeza esmagadora e imenso prazer que se alternam. Em 2003, o estilo provocativo de Blanquet mudaria com os curtas La Peau de Chagrin [A pele de onagro] e Mauvaise Graine [Semente ruim].

 

Décollations Luminescentes [Decapitações luminescentes], 2012, lápis sobre papel, capa da publicação coletiva Le Muscle Carabine – troisième gorgée da United Dead Artists, 40 x 60cm, coleção do artista
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La Beauté Bafouée [A beleza zombada], 2015, tapeçaria (uma de oito cópias numeradas e duas provas também numeradas do artista), 1,75 x 2,44m, coleção do artista

Em 2007, Blanquet ressuscitou a editora United Dead Artists, criada por ele mesmo em 2000, com a publicação coletiva Le Muscle Carabine [O músculo carabina]. Atualmente a editora publica livros de artistas como Gary Panter, Charles Burns e Tanaami Keichi. “Não faço livros para colecionadores, e sim para os verdadeiros amantes da imagem – que são muito mais numerosos do que a gente pensa”, diz Blanquet.

Naquele mesmo ano, Blanquet foi nomeado directeur oculaire (diretor de identidade corporativa) da Comédie de Caen, teatro do Centro Dramático Nacional da Normandia, na França, pelo diretor do estabelecimento, Jean Lambert-wild, com a atribuição de criar uma nova imagem para a companhia, incluindo logo, cenários e figurinos.

Em 2014, Blanquet seguiu Jean Lambert-wild rumo a Limoges, cidade onde este fora nomeado diretor do Théâtre de l’Union, do Centro Dramático Nacional de Limousin. Sobre essa colaboração frutífera, Blanquet conta: “Nós trabalhamos rápido: ele me fala de uma peça e eu já vou fazendo o desenho ao mesmo tempo nos meus cadernos, como se fosse uma escrita automática. Depois, seguindo essa ideia, eu parto para o desenvolvimento gráfico. Mas tenho uma grande liberdade criativa para fazer imagens gráficas e, no fim das contas, isso é muito enriquecedor”. Recentemente, eles trabalharam juntos numa nova montagem de Ricardo III, de Shakespeare, para a qual Blanquet fez os cenários e se associou às tradicionais fábricas locais de porcelana da cidade para fazer os figurinos dos heróis.​​​​​​​

Para a exposição “Quintet”, realizada em 2009 no Museu de Arte Contemporânea de Lyon, França, a instalação de Blanquet cobriu as paredes com afrescos e desenhos de padrões repetidos. Os visitantes eram transportados num vagão pelo mundo fantasmagórico do artista, sendo totalmente engolidos pelo universo de Blanquet e se juntando a seus alegres monstros numa dança da morte. Era fácil se sentir massacrado pela infinidade de detalhes que fervilham no cérebro feito milhares de insetos.
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Fazendo um malabarismo de várias técnicas, Blanquet cria ilusões ópticas diversas e envolve todos os sentidos do espectador. Seu trabalho mais recente no momento em que escrevo este texto, uma instalação imensa chamada Goudron pressage – Sillon tympan [Compressão alcatrão – Fenda no tímpano], foi exposto no Centre Pompidou em Paris, e trazia exemplos de seu trabalho virtualmente em quase todos os materiais que ele já usou, além de composições feitas por músicos convidados por ele para participar do projeto: The Residents, John Zorn, Mike Patton, Ikue Mori, Lydia Lunch e outros. Os espectadores se tornam participantes ativos, mixando sons e imagens que criam uma peculiar colagem interativa. O público logo vira um participante imediato nessa configuração em movimento de seu trabalho.

 

 

Musique Brute par Jean Dubuffet [Música Bruta por Jean Dubuffet], 2016, caneta de ponta de feltro, 18 x 15cm, coleção do artista ​​​​​

Os personagens de Blanquet muitas vezes vivenciam a solidão e o distanciamento do mundo, como acontece ao personagem de La Peau de Chagrin, que vive na floresta até que encontra o amor. Ou ainda outra personagem, a Chéchette, que é abandonada pelas pessoas, que a consideram louca. O mesmo pode ser dito do personagem de Mon Placard: trancafiado num armário por seus pais, ele assiste à vida por uma fenda na porta. Em muitas de suas histórias, os personagens estão sujeitos a maus-tratos físicos e mentais, o que faz com que seus corpos sofram, morram ou passem por mutações. O artista os esculpe como se fossem de argila, dando-lhes forma para depois esmagá-los repentinamente, transformando-os em outra coisa.

Apesar das dificuldades enfrentadas pelos personagens de Blanquet, eles ainda preservam certa pureza da alma. Assim como Kai, do conto-de-fadas A rainha da neve, de Hans Christian Andersen, referência adorada e também já ilustrada por ele, seus personagens têm que encarar a brutalidade da natureza humana. Eles podem acabar conseguindo derrotá-la, passando por transformações físicas e mentais, ou então sucumbindo à pressão. Geralmente, esses personagens sofreram abusos na infância, o que tem grande impacto em suas personalidades. O próprio Blanquet também costuma aparecer em seus desenhos representando diferentes personagens, de tirano a mártir, ou ainda uma figura que luta com um monstro interior, como em Mon Méchant Moi [Meu eu malvado].

Assim como o mundo das pessoas, o mundo criado por Blanquet é repleto de insetos que infestam tudo o que lhes cerca e tentam tudo consumir. Os desenhos com bichinhos e hexápodes nos levam a pensar na constante briga do ser humano com essas criaturas. Podemos esmagá-los num instante, mas eles são capazes de nos comer vivos ou nos envenenar com suas substâncias letais. Observando a impressionante camuflagem e coloração deles, além da capacidade que têm de sobreviver às mais difíceis circunstâncias e, ainda assim, estarem sempre prontos a se sacrificar, o artista confessa: “Eu gosto desse perigo latente que existe entre eles e nós!”.

 

A pior notícia, A Bolha Editora

 

Os monstros do “teatro de sombras” de Blanquet que cobrem as paredes de suas exposições são, ao mesmo tempo, aterrorizantes e primorosos. Em muitas culturas, as divindades monstruosas eram veneradas como protetoras e representadas de maneira bastante estética, decoradas com joias e outros ornamentos. Ao deixar ver a beleza que há no horror, as criaturas monstruosas de Blanquet protegem ao invés de ameaçar. Sombras refletem objetos, mas é um reflexo distorcido. Ao olhar para eles, podemos atribuir a um objeto ou criatura os aspectos que existem apenas na nossa imaginação. Portanto, ao nos encontrarmos no “teatro de sombras” de Blanquet, criamos uma história própria em nossas mentes.

Às vezes, seu trabalho nos leva por um labirinto de membros e órgãos do corpo que vibram, palpitam e pulsam independentes uns dos outros. Incontroláveis e munidos de vontade própria, eles se tornam monstros que destroem e oprimem o corpo do personagem, dominando-o por inteiro. Ao olhar para os detalhes das obras de Blanquet, é possível ver que cada um deles representa o quebra-cabeças de um corpo vivo: um galho se parece com um órgão, e a grama, com pelos corporais. Tudo faz parte de um todo e também de um mundo, como se ele fosse um organismo. Suas paisagens vibram com uma energia vital que dá luz à uma nova vida, mas, no fim das contas, também leva à morte.
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O mundo caótico criado por Blanquet é um irreversível fim de partida: uma explosão depois de acontecimentos furtivos, encontros paradoxais e choques entre personagens. Mas o caos do universo faz surgir a vida, e esses trabalhos nos permitem ver como cada elemento, dos insetos aos humanos, são apenas peças de um mecanismo muito maior.

 

*O artigo traduzido por Daniel Lühmann, nos foi cedido gentilmente pela Raw Vision.

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