Publicando zines para presos: uma entrevista com Anthony Rayson

PUBLICANDO ZINES PARA PRESOS:

UMA ENTREVISTA COM ANTHONY RAYSON

[A zine publicada em 2015, traduzida para o português por Daniel Lühmann, nos foi cedida gentilmente por Anthony Rayson e o Temporary Services.]

 

 

 

Anthony Rayson é responsável pelo South Chicago ABC Zine1ABC é a sigla para Anarchist Black Cross [Cruz Negra Anarquista]. Ilustrações da capa: Hon. Mark A. Reid Bey, 2008 (capa); McKeehan, 2011 (contracapa).Durante boa parte do tempo nas últimas quatro décadas ele vem se dedicando a suas publicações independentes. Rayson, hoje com sessenta anos, entrou na política bem cedo, por ser filho de Leland Rayson, representante do estado de Illinois por doze anos, de 1965-77. Quando criança, Rayson sempre participou de manifestações, comícios e outros eventos políticos, além de ajudar nas campanhas e eventos de seu pai. Durante a época do Vietnã, a mãe de Rayson fez parte da organização Women for Peace [Mulheres pela paz]. Em seu primeiro ano no colegial, Rayson se juntou a uma campanha da qual a namorada de seu irmão fazia parte para reivindicar que mulheres pudessem usar calças para ir à escola em vez de apenas vestidos e saias. Nos invernos congelantes abaixo de zero de Chicago, isso não é pouca coisa.

Anthony Rayson cresceu em Tinley Park, Illinois, e viajava regularmente para Chicago para participar de manifestações. E costumava tentar levar seus colegas do colegial junto para esses eventos:

Tinha manifestações no centro – com umas cem mil pessoas participando. (…) Todos os grupos estavam lá. Os comunistas, a YSA [Aliança Socialista de Jovens], os Panteras [Negras], todos distribuindo seus papéis. (…) Parecia que todo mundo tinha publicações para vender e eu sempre pegava tudo o que aparecia pela frente, ia atrás dos caras para pegar o megafone deles e tentar dar o meu texto (…) porque eles nunca deixavam um moleque que ninguém conhecia tomar a palavra num comício.2Entrevista de Michelle McCoy, bibliotecária da DePaul University, com Anthony Rayson do ABC Zine Distro, Homewood, Illinois, 2008. Publicação independente em livreto do próprio Rayson.

Por 38 anos, Rayson, que atualmente se encontra aposentado, trabalhou como agente de pedágio. Ele preenchia o tempo ocioso em sua cabine escrevendo cartas para pessoas que estavam na prisão e trabalhando nos zines. Uma série de zines que se destaca dentro do imenso conjunto de seu trabalho são os livretos Each One Teach One [Cada um ensina um], em que Anthony e um preso com quem ele se corresponde entrevistam um ao outro.

 

Além do South Chicago ABC Zine Distro, Anthony Rayson também é cofundador e integrante do Shut This Airport Nightmare Down (STAND, na sigla em inglês, ou “Acabem com esse pesadelo de aeroporto”), um grupo com cerca de cinco mil integrantes, todos eles gente comum que mora em Peotone, Illinois, e que se “opõe à construção e à especulação territorial acerca da proposta do aeroporto de Peotone, a leste do condado de Will e a 70 quilômetros ao sul de Chicago”.

Temos especial interesse pela longa relação de Rayson com presos cujos zines e artes ele publicou, e que são não só leitores como também público primário dos livretos que ele faz. Rayson estima receber por volta de 75 cartas de presos toda semana e geralmente manda um par de zines em cada pacote, distribuindo em torno de 150 zines semanalmente. Mais incrível ainda é que ele faz isso de graça. Às vezes, presos lhe enviam selos, obtidos em escambo com outros prisioneiros, ou então acabam convencendo suas famílias e outras pessoas do lado de fora a fazer doações para Rayson, mas a maioria dos que escrevem para ele é indigente e não pode oferecer nada assim.

Como Rayson manda zines para instituições em todo o país, ele precisa manter um registro das infindáveis diferenças de tipo de conteúdo que cada instituição permite – às vezes, é preciso sondar o terreno mandando materiais mais moderados antes de arriscar publicações mais radicais. Zines podem ser rejeitados pelos departamentos de correspondência das prisões por uma lista imensa de motivos. Como afirma Rayson:

Isso varia, e às vezes até em função do temperamento de quem está trabalhando em tal horário. (…) Pode depender se a pessoa gosta do remetente. Não tem muita regra. Não tem consistência. Não tem uma prestação de contas. (…) Especialmente se é para o próprio autor ou autora e eles estão falando sobre a prisão. Isso é algo que eles não suportam. Não querem que as coisas que acontecem na prisão circulem por aí.3Entrevista de Michelle McCoy, bibliotecária da DePaul University, com Anthony Rayson do ABC Zine Distro, Homewood, Illinois, 2008. Publicação independente em livreto do próprio Rayson.

Rayson também publica regularmente zines da autoria de prisioneiros que enviam seus layouts para ele dar uma mão com edição e design, ou apenas para serem publicados diretamente.

Em agosto de 2014, a Temporary Services se juntou à colaboradora Kione Kochi para uma viagem até Monee, em South Chicago, para visitar Anthony Rayson em sua casa. O escritório dele é o tipo de espaço capaz de deixar qualquer editor empolgado – uma sala ensolarada cheia de estantes abarrotadas de livretos, papéis e zines (a maioria deles publicada pelo próprio Rayson), uma mesa atulhada de correspondências e um computador para respondê-las, gavetas de fitas cassete e pilhas de CDs, e uma caixa com uma quantidade encorajadoramente grande de cola em bastão. Deixamos a casa de Rayson com uma pilha de zines nas mãos – provavelmente material de leitura para um ano inteiro!

Desenho de Bran Scam, 2012.

 

Ficamos particularmente interessados na grande coleção mantida por Rayson de artes enviadas a ele por prisioneiros de todo o país ao longo dos anos. Ele tem caixas de desenhos, pinturas e gravuras, muitos deles feitos pelos mesmos artistas de quem ele virou amigo e aos quais prestou apoio por anos – alguns desses materiais já publicados em zines e outros ainda na espera para encontrar um uso. Algumas peças são assinadas, mas muitas não. Exemplos da coleção dele estão espalhados neste livreto.

Considerando as centenas de publicações feitas por Anthony Rayson, condensar sua prática e um único livreto seria uma proposta absurda. Ainda assim, sentimos que através da nossa própria prática de publicação, que tem um público diferente e costuma se basear mais num contexto de arte do que em círculos de correspondência ou em ativismos, poderíamos amplificar o exemplo de Rayson e destacar o trabalho de alguns dos talentosos artistas encarcerados que contribuíram com os zines dele ao longo dos anos.

Em 22 de setembro de 2014, Marc da Temporary Services voltou para visitar Anthony Rayson junto com nosso colaborador Kristian Johansson. Escaneamos alguns trabalhos para esta publicação e fizemos a entrevista a seguir. Anthony mandou Kristian de volta para a Dinamarca com sua própria pilha de zines. A entrevista aconteceu no quintal de Rayson.

TEMPORARY SERVICES (TS): Você se lembra de quando começou a receber correspondências de pessoas encarceradas? Quando foi que isso começou a se cruzar com as suas publicações independentes?

ANTHONY RAYSON (AR): Foi em meados da década de 1990. Eu tinha acabado de me formar na Prairie State em 1995 e aí comecei a escrever bastante, entrei com tudo nessa coisa toda de zines anarquistas e underground. Basicamente, eu pretendia colaborar com outros escritores, então mandava meu material para todo tipo de gente – de dentro e de fora desse mundo – e juntava toda publicação que aparecia, inclusive cartas de prisioneiros ou de quem quer que fosse, e foi ficando cada vez mais óbvio que as análises mais aprofundadas e perspicazes não só sobre o meu trabalho, mas sobre tudo de um modo geral, vinham dos prisioneiros.

Em 1998, comecei a distribuição, fui um dos cofundadores da STAND e também da ARA (Ação Antirracista) em South Chicago. Então, fui a uma conferência da ARA em Ohio e vi aqueles grupos que vinham do Canadá ou de outros lugares dos EUA e todos eles tinham suas próprias publicações, daí cheguei neles e disse: “Seria legal ter tudo isso disponível de uma única fonte”. E eles disseram: “É, essa é uma boa ideia”. Daí ficou óbvio para mim que se aquilo ia acontecer, teria que ser eu o responsável. Então foi assim que começou [a South Chicago ABC Distro]. A princípio era ARA Distro, mas me dei conta de que estava ficando muito limitado, que aquelas publicações eram datadas e que ninguém dava a mínima se você tinha dado uma surra num bando de nazistas em Edmonton ou sei lá onde dois anos atrás.

Então começou como ARA, mas daí passei a receber contribuições dos presos sobre o trabalho deles, até que esse cara chamado Sean Lambert, um anarquista bissexual e apoiador dos presos que atua na região de Buffalo, Nova York, me guiou nesse novo mundo gigantesco das prisões. Ele fazia uns zines bem sérios de apoio aos presos. Foi assim que mudei meu foco para as prisões e basicamente é o que venho fazendo desde então. Isso foi no outono de 1998.

Fui acumulando todas essas publicações de apoio aos presos e mandava esse material de graça para os prisioneiros que escreviam cartas para elas, foi quando comecei a fazer catálogos das coisas que eu tinha. Aí eu ia a várias conferências onde você mostra o seu material e vê diferentes publicações que você quer reimprimir, até que a coisa toda foi crescendo lentamente a ponto de ocupar esta casa inteira. [Risos]

TS: Os prisioneiros conseguiam o seu endereço numa lista de contatos?

AR: Uma lista de contatos, sim, mas às vezes eu também pagava para ter um anúncio em algum zine, revista ou coisa assim, e só pela simples energia dedicada a fornecer isso, escrever os catálogos e mandar para onde eu conseguisse, pouco a pouco comecei a receber muitas cartas dos presos; ao longo dos anos, perceberam que não sou um desses caras sacanas que desaparecem depois de dois anos. Daí comecei a trabalhar com presos políticos bastante conhecidos, fazendo entrevistas e publicando os materiais deles também, e acabei conquistando mais respeito do pessoal acima e abaixo. Agora recebo uma média de 75 cartas por semana, 99% delas da prisão. A maioria quer zines, mas alguns têm contribuições, ensaios, poesias, artes, topo tipo de coisa que querem que eu ajude a publicar. Por isso preciso estabelecer o que estou disposto e o que sou capaz de fazer. Insisto sempre para eles que não se trata de uma frivolidade, que levamos isso muito a sério, que queremos análise política, não é uma brincadeira. Como vocês podem ver, as artes são muito políticas, e não brincadeiras sobre qualquer coisa. Mas também nos divertimos com isso. Tem zines de cartuns, embora eles também sejam políticos e costumem ser banidos. Os guardas não gostam que tirem sarro deles.

TS: Não é uma oportunidade econômica lucrativa para os presos fazer alguma coisa com você, mas eles também correm riscos pessoalmente por causa do conteúdo.

AR: Eu falo para eles que não tem dinheiro envolvido nisto. Tudo é anti direitos autorais e a única pessoa que gasta uma grana sou eu. Gosto de contribuições, mas não vou negar alguém só porque é uma pessoa indigente que não tem nada. Mas, normalmente, quando [as pessoas da prisão] descobrem o que os colaboradores estão fazendo, eles acabam entrando numas enrascadas feias por causa disso. Vão para a solitária, são mandados para prisões mais restritivas, sofrem agressões, destroem a cela dos caras e pegam todas as fotos deles para que se sintam horríveis por fazer isso. É preciso muita coragem da parte deles para se envolver porque coloco o endereço de correspondência deles na arte para que outras pessoas possam entrar em contato, e é assim que muitas vezes outros presos conseguem se comunicar com eles porque viram algum zine que fizeram. Eles costumam escrever para alguém que conhecem e dizem: “Opa, mande esta carta para eles” ou para mim, e é assim que vamos tentando burlar as restrições que colocam para nós.

TS: Presos geralmente não podem escrever cartas para presos de outras instituições. Então eles usam amigos ou familiares do lado de fora para ajudar a chegar a outros presos.

AR: Sim, de todo jeito que podem. Os próprios zines circulam por todo cando. Eles usam zines de “pipa”4“Kite” ou “pipa” é uma gíria da cadeia para carta contrabandeada ou um modo de mandar mensagens na prisão.nas prisões. Eles desfiam toalhas e fazem varais,5Varais são usados para passar zines e outros objetos entre as celas de um bloco prisional.assim os zines podem ser lidos por inúmeras pessoas antes de serem destruídos pelos guardas.

TS: Isso faz parte de um ímpeto de tentar fazer chegar mais zines para os presos – para que eles tenham um público leitor cada vez maior na prisão?

AR: Para mim não importa muito quem lê alguma coisa minha ou de quem quer que seja, eu quero é levar essa luta adiante. Quero que cada vez mais pessoas entrem na ativa e parem esse governo. É ali que eu encontro colaboradores mais férteis, embora eles sejam algemados e espancados e enfiados numa gaiola. Eles ainda encontram meios de ser eficientes.

Até hoje ainda me surpreende que esses zines tão poderosos sejam permitidos lá dentro com tanta frequência como costuma acontecer. Eu diria que 95% deles conseguem entrar sem serem cuspidos para fora por algum motivo estúpido. Faz pouco tempo recebi uma carta da Flórida; querem banir meu catálogo em todo o estado. E é só uma listagem de títulos. Eu escrevi de volta para eles e disse: “Então vocês estão querendo me dizer que têm medo de títulos?”. [Risos] Me parece que sim!

Na prisão eles têm modos horríveis de se comunicar e transportar coisas. É meio asqueroso o que eles precisam passar para se comunicar com o mundo de fora ou entre eles. Têm que gritar nas privadas ou enfiar coisas no próprio rabo…

 

TS: Para conseguir mandar uma mensagem para alguém…

AR: Para ter um celular você basicamente tem que enfiar no cu, caso contrário acabam encontrando.

TS: Tem alguns presos específicos com quem você manteve um relacionamento por muitos anos?

AR: Fiquei muito próximo de alguns deles, e é como se fosse um irmão perdido há muito tempo quando eles finalmente saem da prisão.

TS: Então você teve a oportunidade de encontrar algumas pessoas com as quais se correspondeu?

AR: Ah sim. Conheci esse cara chamado Eugene Day. Ele era um preso da Califórnia com três reincidências6Leis de três reincidências estabelecem uma sentença mínima de 25 anos e máxima de prisão perpétua para criminosos condenados pela terceira vez.e comecei a publicar as coisas dele, depois ele conseguiu emplacar o trabalho em mais algumas publicações mainstreamna Califórnia. A escrita dele, entre outras coisas, foi capaz de abrandar algumas dessas leis de três reincidências e permitir que alguns desses caras pudessem sair. Eu o conheci em Sacramento quando eu estava organizando uma exposição. Ele faz uma trabalho ótimo atualmente. Tem um negócio de apoio aos presos agora que ele está fora e isso é ótimo, porque ele estava condenado. Ele ia ficar lá pelo resto da vida. Mas saiu porque nós conseguimos mudar as leis o suficiente para isso, estava muito superlotado… basicamente a terceira reincidência dele foi um crime por “nada”.

Em todo canto que eu vou nos EUA as pessoas me colocam para cima. É ótimo. Eu gosto de tentar trabalhar com pessoas que não têm nenhum outro apoio. Trabalhei com alguns desses presos políticos bastante conhecidos, mas eles já têm apoio. Pode não ser grande coisa, mas é melhor do que nada, que é o que a maioria desses caras tem acesso. Só de ler as cartas deles você meio que consegue perceber se são talentosos ou não – se levam jeito com as palavras ou se têm algum talento artístico. Aí é só dar um incentivo e sugerir que a gente talvez possa bolar alguma coisa juntos. É incrível, alguns desses caras são tão ferrados e descrentes de si por conta da situação horrível que vivem e toda a miséria que é despejada em cima deles. Com um pouco de incentivo e conectividade humana… Bam! Eles começam a disparar e fazer trabalhos incríveis, se tornam pesquisadores ou artistas ou organizadores incríveis na prisão, ou advogados da prisão de sei lá o quê. É igual a um pássaro agonizando, você cuida até ele recobrar a saúde e depois ele sai voando.

 

 

Desenho de Larry Pendleton, 2011.
Desenho de Larry Pendleton, 2012.

 

 

TS: Você dá feedbacks editoriais sobre a escrita?

AR: Dou sim. Mando muitas cartas escritas à mão em resposta às cartas, o que é algo muito importante para eles porque dificilmente alguém faz coisa parecida. Não tem um caráter humano real nisso. Receber um zine é legal e você consegue sentir o que o cara está dizendo, mas significa muito mais receber uma carta pessoal de alguém que você tem em alta estima, ou de quem você não espera receber algo, mas recebe do mesmo jeito. Talvez seja só uma página, ou várias. Eu tive sorte de ter um bom trabalho que me permitisse fazer isso. Eu fazia isso o tempo todo durante o trabalho. Eu trabalhava num guichê de pedágio. É simplesmente um trabalho sem cérebro. Descobri que se usa talvez 5% do seu cérebro para fazer esse trabalho. Eu ainda tinha muita inteligência para usar – podia escrever uma carta e continuar ocupado com todos esses idiotas passando [pelo pedágio]. Posso levar até quatro horas para escrever uma carta, mas tudo é muito pensado e eles tiram muito proveito disso. É importante construir esses relacionamentos pessoais, e cartas pessoais são talvez a melhor maneira de fazer isso. Além disso, minha caligrafia é tão horrível que eles têm dificuldade para me entender. [Risos] “Oh Anthony, demorei uma semana para ler sua carta. Por favor, mande uma datilografada da próxima vez.” [Risos] “Estou tentando, cara!”.

TS: Vamos falar sobre as artes que são enviadas para você. São presentes?

AR: Sempre é um presente. Eu sempre digo: “Estou pagando por tudo isso. Seria legal se alguém pudesse me ajudar com selos ou um vale postal, ou então me mandar ensaios, artes, poemas, o que for”. Eles sempre fazem isso. Se tenho um problema na minha família, se alguém fica doente e eu falo isso para eles, não param de chegar cartões e eles pedem para todo mundo daquela ala assinar, e isso importa muito, entende? Porque eu não tenho isso nem da minha própria família – ninguém tem. Você precisa disso quando está para baixo. Eles me ajudam emocionalmente, psicologicamente, um pouco economicamente também quando podem – eventualmente um preso aparece e me dá algumas centenas de dólares aqui e ali. E às vezes eles fazem isso anonimamente; dizem: “Ei Anthony, vi um dos seus zines, tome aqui essa arte. Faça o que quiser com ela”. E eu digo para eles na hora que tudo é anti direitos autorais. Você não vai ganhar dinheiro nenhum com isso e eu não vendo nada. Não estou tentando vender nada. Exceto ideias, e elas não estão à venda. São de graça.

TS: E dinheiro não circula na prisão.

AR: Bom, provavelmente sim em alguma medida, mas hoje em dia a moeda são principalmente selos. Costumavam ser cigarros, mas acabaram praticamente banindo isso. Talvez zines também sejam, em alguma medida. São pacotinhos de sopa, café ou qualquer coisa que eles conseguirem. Algumas pessoas vendem seus serviços, uns costuram roupas. E eles têm cada vez menos selos. Alguns deles só recebem dois selos por mês. É de dar pena. Às vezes eu mando selos para eles também, papéis para escreverem, envelopes. Por um tempo, quando ainda estava trabalhando, eu conseguia mandar uns valores para certos presos – vales postais – para arrumar uns livros e completar a comida de fome que dão para eles, para que eles pudessem comer algo de verdade.

TS: Isso seria uma doação na conta de interno que eles podem usar naquela instituição?

 

Anthony Rayson, agosto de 2014. Foto: Temporary Services.

 

AR: É usado como uma maneira de apoiá-los politicamente. Você não pode mandar dinheiro para eles diretamente, então tem que colocar nos livros. Você fica tentando descobrir como dar dinheiro para eles pela arte fantástica que eles fazem, aí você tenta descobrir um jeito de fazer isso.

Os escritores mais brilhantes geralmente estão presos há mais tempo e, a essa altura, as famílias já os abandonaram. Eles têm problemas próprios horríveis. Eu faço o que posso por eles.

 

Desenho de Chameleon, 2012.

 

TS: Você consegue visitar muitas pessoas nas prisões ou tudo acontece mais por correspondência?

AR: Acontece mais por correspondência. Eu faço visitas ocasionalmente… É tão deprimente quando você vai nesses lugares. É simplesmente nojento. Eles [os guardas] não dão a mínima, apenas desperdiçam duas ou três horas do seu tempo de cara, antes mesmo de te darem uma chance de ver alguém. E hoje em dia é tão ruim que você mal consegue ver ou encostar neles. Tudo acontece por Skype, eles talvez fiquem em algum lugar a uns cinquenta metros dali em outra tela no Skype. Você só os vê pela TV. Até meu irmão, que ficou na prisão do condado de Will por uma semana no mês passado por dirigir alcoolizado ou coisa assim – eu fui visitá-lo, foi por Skype. Tudo fica super fácil para eles. Eles não têm que fazer nada além de levar o cara para essa salinha e te levar para outra salinha onde tem outras pessoas gritando. Mal dá para ouvir o que eles falam. É muito impessoal. Não dá para tocar neles nem nada. Como se a gente fosse passar uma arma ou coisa assim. É tão estúpido. É pura preguiça e corte de gastos.

TS: Quando estávamos trabalhando com nosso colaborador, o Angelo, no projeto Prisoner’s Inventions [Invenções de presos] e eu tentei sem sucesso visitá-lo, acho que a sensação dele era que provavelmente a qualidade da experiência era superior trocando cartas. Ele não precisaria ser revistado pelado para mandar uma carta como acontece para receber uma visita.

AR: Alguns desses caras realmente sofrem para encontrar só por Skype. Fazem eles usar aquelas algemas terríveis e dolorosas, ficam amarrados enquanto encontram a família pela TV. É pura crueldade… a única consolação é que o preso sabe que você se esforçou para fazer isso.

TS: Você já recebeu feedback depois que os presos veem a arte ou o texto deles próprios impressos?

AR: Quase invariavelmente eles ficam muito felizes e agradecidos com isso. Às vezes um cara fica irritado porque é uma dessas pessoas que são simplesmente impossíveis de agradar; você faz o melhor possível. Essencialmente eu edito o mínimo possível. Mantenho o que eles querem dizer e o jeito como querem dizer. Se querem escrever errado porque é esse o jeito deles falarem, eu deixo assim e não mudo para a linguagem correta, a menos que seja um erro óbvio que eles não pegaram. Não coloco restrições de quantidade de palavras. Não digo a eles o que dizer. Deixe os caras dizerem o que quiserem, entende? Dê essa liberdade para eles. Por isso algumas publicações não são longas. Outras são loucamente compridas. [Risos] Você vai lidando com o que acontece até os dois lados ficarem satisfeitos e acharem que o projeto está completo.

 

Desenho de J. Avzaham Garzanal, 2009.

 

Desenho de Todd (Hyung-Rac) Tarselli, 2002.

 

 

SOUTH CHICAGO ABC ZINE DISTRO​​​​​​​

Para saber sobre os zines publicados por Anthony Rayson, escreva para: South Chicago ABC Zine Distro, P.O. Box 721, Homewood, Illinois 60430, USA.

 

Desenho de José H. Villarreal, 2010.

 

 

A ARTE DE KEVIN “RASHID” JOHNSON

Anthony Rayson teve uma longa relação com Kevin “Rashid” Johnson, um preso que se encontra atualmente encarcerado em Amarillo, Texas, depois de diversas transferências. Seus desenhos fortes muitas vezes trazem combinações de imagens intrincadas de diversas fontes, que são refeitas como elaboradas colagens desenhadas. Os trabalhos funcionam particularmente bem com a impressão com tinta preta sobre papel branco, abordagem preferencial de Rayson para publicar, e o trabalho de Rashid aparece em vários títulos publicados por Rayson ao longo dos anos. Kevin “Rashid” Johnson é o Ministro da Defesa do Novo Partido Africano dos Panteras Negras – Setor Prisão. Você pode encontrar mais do trabalho dele no site: www.rashidmod.com

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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