Os fins do livro: leituras, economias e públicos

OS FINS DO LIVRO: LEITURAS, ECONOMIAS E PÚBLICOS

Matthew Stadler, 2011 [tradução de Daniel Lühmann]

 

A crise editorial é o colapso do livro enquanto mercadoria, como nexo de compra. É isso. Esse é o ponto principal que destruiu subsistências e que pode arruinar corporações. Ironicamente, essa catástrofe também cega editoras para um movimentado renascimento na cultura da leitura. Ler e comprar nunca foram um par perfeito – eu diria até mesmo que são opostos. Conforme o mercado editorial se esforça para configurar novos locais de compra e resgatar uma economia que costumava apoiar escritoras através da venda de livros, surgem novas e vigorosas comunidades de leitura, tanto on-line quanto em livros de pequenas tiragens. Para aqueles dentre nós que amam ler e que estão cansados de comprar, este é um momento notável e repleto de oportunidades. A questão com que somos confrontados, a despeito do que acreditam muitas editoras,  não é como recuperar as compras, e sim como criar uma economia viável numa cultura de leitura.

Em 2009, fiquei sabendo de máquinas manuais baratas capazes de fazer livros robustos e bem encadernados, um de cada vez, com rapidez e baixo custo. Comprei essas máquinas e, junto com uma amiga, montei uma lojinha numa vitrine em Portland, no Oregon. Igual a muita gente, conhecíamos algumas ótimas escritoras cujo trabalho nós adoramos e que achávamos que deviam ser publicadas. Viramos editores imprimindo, encadernando e vendendo os livros delas um de cada vez diretamente para as leitoras que queriam tê-los. Também oferecemos os livros para venda como e-books, além de permitir que qualquer um leia e faça anotações gratuitamente no arquivo on-line dentro do regime de “free reading commons”. Fizemos um site para vender e circular os livros mundialmente, ao passo que também acolhemos a vida social dos livros em casa, na nossa vitrine. Amigas nos visitavam e gostavam do que viam. Em outras oito cidade, principalmente na América do Norte, amigas compraram máquinas semelhantes e abriram seus próprios locais. Juntos, os nove espaços compõem aquilo que chamamos de Publication Studio. Em cinco anos, publicamos 300 novos títulos, todos eles rentáveis. O Publication Studio estabeleceu uma economia viável, sem subsídio e com fins lucrativos baseada na leitura. Esta é a história de como isso aconteceu.

 

 

 

Leitura e compra

Ler é uma prática específica. É mais conhecida por nós como a leitura de livros, mas trata-se de uma prática que pode ser aplicada de modo geral. Ler é algo aberto, temporário, baseado em conversa. Não é algo solitário, e sim profundamente coletivo. Podemos estar sozinhos com um livro, mas o livro preenche nossas cabeças com outras vozes e coloca nossos pensamentos em diálogo não só com quem escreve, mas com incontáveis outras leitoras, reais e imaginárias. Mergulhado na leitura, o eu se dissolve e se mistura com outros. Encontramos conforto nas margens cintilantes e levemente manchadas, onde nos percebemos tanto dentro quanto fora do texto. É um espaço liminar. As relações de leitura são multivalentes, empáticas – envolvem o reconhecimento através da diferença. Textos têm muitas leitoras, participantes divergentes posicionados nas beiradas de um espaço central compartilhado. Reconhecemos pontos comuns entre nós ao longo desse espaço, sem apagar as diferenças, mas vivendo nelas. Essas relações não estão limitadas aos livros, elas também podem ser representadas no mundo.

Ler pode moldar uma economia. Chamo essa prática de “publicação”. Vou delinear as coisas em contraste nítido para esclarecer essa prática. Publicação é a criação de novos públicos numa cultura de leitura. Isso inclui a produção e circulação de livros, a gestão de digital commons e uma vida social rica em encontros e conversas com livros e leitoras. Reunidas, todas essas atividades constroem um espaço de conversa, um espaço público que acena para convidar um público a existir. Comprar – que é a cultura predominante no nosso tempo, e que orienta a maioria das escolhas que é feita atualmente no mercado editorial – corrói e esvazia esses públicos. Assim, a publicação real começa por aquietar o ruído do comprar.

A cultura do comprar é dominante. O que exatamente ela faz a você? Comprar encena a performance repetida do sujeito em filas rigorosamente organizadas. A aquisição é seu momento crucial. Cada minuto de cada compra cotidiana nos coloca à beira de uma aquisição, de uma escolha de consumidor. Ficamos ali prontos, arrumadinhos esperando por esse momento ao repetir constantemente o ciclo de mensagens acerca de nossos gostos e seus significados. Você conhece essas mensagens – anúncios que te tratam pelo nome, caixas de correio abarrotadas de ofertas pessoais, objetos que acenam para você, evocando sua encenação do gosto dentro de limites bastante estreitos, que na realidade são ditados. O ato de escolher se torna uma afirmação repetida da sua individualidade e liberdade.

O comprar coloca você sozinho sob os holofotes, no meio do palco, performando a demonstração correta e repetida do seu gosto. Acaba por nos pulverizar. Comprar é o oposto de ler.

Leitores naturalmente acalmam o ruído do comprar. Ficamos distraídos, o que acaba por nos ensurdecer e, assim, falhamos ao agir. Continuamos lendo. Não só livros, mas todas essas relações abertas e inconclusivas que envolvem a leitura. Convocados a nos mover para o centro das atenções e exercer nossos gostos de maneira decisiva, a consumir, acabamos, em vez disso, enrolados em ambivalência, na incompletude prolongada do texto. Continuamos circulando, lendo, relendo, adentrando o próximo livro antes mesmo de termos terminado o anterior, para que os dois livros permaneçam abertos, e depois mais outros, dez, quinze livros abertos ou marcados bagunçando o quarto. Ficamos envolvidos. O livreiro nos pergunta o que gostaríamos de comprar e olhamos para cima, meio concentrados no espaço de leitura, para responder com uma pergunta. Convidamos o livreiro para uma conversa que pode nunca se concluir. São esses os prazeres de ler e, se observados com a devida atenção, eles podem moldar uma economia chamada publicação.

 

 

Publicação com amigos

Cerca de quatro anos atrás, uma mulher chamada Jacqueline Suskin me contou que vinha colecionando velhas fotografias de vendas de garagem, lojas de objetos usados e até de pilhas de lixo que as pessoas deixam na rua depois de limparem seus sótãos ou porões. São principalmente retratos de viagem e de famílias. Ela tinha montes dessas fotografias. Elas eram perturbadoras, não só porque Jacqueline se atraía por imagens perturbadoras, mas por causa do modo como chegaram até ela. Muitas estavam dobradas e rasgadas, marcadas profundamente pela negligência e pelo tempo que as separava das vidas de onde elas vinham. Jacqueline vinha escrevendo poemas a partir dessas fotos.

Ela me deu um manuscrito. Os poemas eram adoráveis. Textos hábeis e ligeiros que agraciavam as imagens ao permanecerem quietos e discretos. A linguagem era ousada, às vezes engraçada, e atraía atenção para si, embora a voz narrativa não o fizesse – ela emoldurava e esticava as margens sutis que o mundo deixara ao redor dessas fotos, conduzindo ali o seu trabalho de escrita e deixando os holofotes para os próprios retratos. Os poemas de Jacqueline eram modestos, mas eu me perdi neles. Era um livro estranho. Jacqueline queria imprimir cada fotografia em cores, do lado oposto de cada poema. Eu continuei revisitando uns três ou quatro deles que grudaram em mim e passei a amar o livro.

No mundo editorial tradicional, há um momento em que o prazer de ler deve parar. Geralmente esse momento é marcado pela triste frase: “Adoro seu livro, mas não posso publicá-lo”. A escritora desapontada conclui que a editora é uma mentirosa de coração gelado ou uma besta. Na verdade, a editora não é nenhuma das duas coisas. A editora é alguém que adora livros com sinceridade, mas que vive num tipo especial de inferno onde centenas, se não milhares de escritoras talentosas são motivadas a enviar para ela o melhor de seus trabalhos, que ela é obrigada a ler e dos quais muitas vezes acaba gostando, mas que tem que rejeitar de novo e de novo e de novo. A frase que ela escreve uma dúzia de vezes por dia, com toda honestidade, é: “Adoro seu livro, mas não posso publicá-lo”. Essa é a negativa infernal do mundo editorial ao momento de afirmação do comprar – a performance repetida do sujeito sagaz dizendo “não” àquilo de que gosta. É um anátema para leitoras.

A publicação – uma economia baseada na leitura – estende os prazeres da leitura para outras profundidades. Depois de ler um livro, a resposta da editora pode ser “adoro seu livro, quero publicá-lo” ou “não gosto do seu livro, boa sorte”. Como fazemos nossos livros um de cada vez conforme eles são comprados e organizamos nosso trabalho em torno da relação que uma leitora tem com um livro, qualquer livro de que gostamos pode ser publicado de maneira lucrativa. Fazemos livros para leitoras que querem tê-los, assim, só temos custos quando também temos lucro da venda do livro.

Mandei um e-mail para a Jacqueline e disse: “Adoro seu livro, queremos publicá-lo”. Ela ficou emocionada. Expliquei que isso significava que faríamos os livros para qualquer um que os quisesse, só que um de cada vez, e que apenas mandaríamos o livro para lojas se estas os comprassem, concordassem em ficar com eles e vendê-los, e nunca mais nos devolvessem. Ofereceríamos às lojas um desconto de 40% para que pudessem ter seus lucros habituais. A Jacqueline receberia metade do lucro de cada livro que vendêssemos. Do modo como os preços foram estabelecidos, ela receberia quatro dólares a cada venda. O livro tem 80 páginas, adoráveis e modestas como os poemas, e se chama The Collected [Os coletados].

Acontece que a Jacqueline tinha amigos aqui em Portland. Ela queria vir para cá de Arcata, na Califórnia, capital do cultivo de maconha nos EUA, cidade onde vivia e trabalhava na sua “loja de poemas”. (A Poem Store é um projeto que ela partilha com o poeta Zachary Houston. Eles colocam uma máquina de escrever na rua e escrevem poemas para estranhos, a partir de temas escolhidos pelo cliente, cada poema sai por um dólar.) Então, por que não trazer a Poem Store até aqui em cima e fazer uma festa de lançamento para o The Collected em Portland? A Jacqueline faria uma leitura e a banda dos amigos dela faria um show. Nós convidaríamos todos os nossos amigos. A Jacqueline gosta de viajar, nós concordamos que seria uma ótima ideia e começamos a planejar a festa, chamando todo mundo e fazendo livros para vender no evento.

Acordos no mercado editorial tradicional são um pouco diferentes disso. Digamos que é um bom dia de uma editora e que o raro prazer deu as caras, junto com a carta ou o telefonema dizendo: “Adoro seu livro, queremos publicá-lo”. A editora manda um contrato e um adiantamento – que é uma aposta, especulação financeira sobre as futuras vendas – em troca da promessa da escritora de não deixar mais ninguém publicar o mesmo trabalho. O contrato padrão de publicação gira em torno dessa proibição – a escritora é paga para concordar em não oferecer seu trabalho a outras pessoas. (Adiantamentos podem ser vultosos ou modestos, e estão se tornando cada vez mais raros, mas a promessa de exclusividade continua sendo o cerne do contrato de publicação.) Sem direitos exclusivos de publicação, a velha sabedoria se esvairia, o mercado ficaria inundado e os lucros se perderiam.

Diante da aposta feita pela editora – na forma de pagar qualquer adiantamento que seja, imprimir e distribuir uma tiragem, além de empurrar essa tiragem para lojas e outros meios relacionados a livros com rapidez o suficiente para vender as cópias antes do livro ficar velho ou irrelevante –, a necessidade de direitos exclusivos faz sentido. Mas é uma maneira feia de começar um relacionamento crucial.

Em contraste, a publicação – orientada pelas esperanças de uma leitora em relação a um livro de que gosta – começa com um contrato não exclusivo. Pedimos permissão à escritora para fazer a nossa edição do trabalho dela. Damos as boas-vindas, incentivamos e até ajudamos quem escreve a encontrar outras editoras para fazer outras edições e se juntar no apoio ao seu trabalho. Uma economia moldada pela produção de um item de cada vez, focada no relacionamento de uma leitora com um livro, gera dinheiro com uma venda por vez. Para nós, a “venda perdida” é uma ficção sem sentido.

Além do mais, em publicação, não existem apostas ocultas, nada dessa história de especulação que pesa os destinos de nossos livros de maneira desigual. Nós não temos mil exemplares do livro da Jacqueline num depósito ou espalhados em lojas esperando para serem vendidos. Sequer temos duas cópias. Temos a permissão da Jacqueline para publicar a nossa edição, para fazer e vender exemplares na medida do necessário para leitoras que querem ter o livro, e pretendemos continuar fazendo assim para sempre.

Eu gostaria que a próxima parte dessa história fosse o surgimento de uma segunda editora empolgada que também adorou o trabalho da Jacqueline e ligou dizendo: “Sim, nós também queremos publicar uma edição”. Infelizmente não é o caso. E quando essa segunda editora ligar de fato, é mais provável que diga: “Nós adoramos seu livro, mas você pode, por favor, parar de trabalhar com o Publication Studio para que a gente possa entrar em cena e fazer um trabalho decente e te publicar?”. Mas esse dia também não chegou ainda; então, em vez disso, deixa eu contar sobre a festa.

Foi uma festa incrível. O pai da Jacqueline veio de Cincinnati e trouxe um monte de bebida. Um café local fez uns petiscos que eram verdadeiras refeições e todo mundo se amontoou nessa galeria de arte/de skatistas que fica na nossa rua, onde eles também gostam de livros e acharam que seria legal receber uma leitura de poesia. A Jacqueline é uma leitora excelente. Ela mostrou algumas das fotos em slides conforme ia lendo. A banda dos amigos dela se chamava and and and e eles eram demais. Enquanto eles tocavam, nós tomamos todas as bebidas e tinha gente dançando em cima das mesas. O lugar é minúsculo, por isso ficou lotado. A aposta que a gente fez – de produzir 40 exemplares antes, a tempo da festa – se pagou. Vendemos todos eles.

Esse foi um ótimo começo. Considerando o jeito como trabalhamos, também poderia ter sido o fim. Talvez a Jacqueline preferisse ficar em casa. Você sabe como são as escritoras. Ela está trabalhando num novo livro. A festa foi divertida e, opa, ela ganhou 160 dólares. Mas por que fazer mais que isso? Acontece que a Jacqueline é uma pessoa agitada e social. No ano seguinte, ela fez eventos parecidos em dezenas de cidades e vendeu centenas de livros. Algumas das festas aconteceram em livrarias que agora vendem o trabalho dela. E outras lojas ficaram sabendo e encomendaram o livro com a gente. Vou falar mais sobre oThe Collected em instantes, mas antes disso vamos olhar para esse livro novo que a Jacqueline está fazendo. Digamos que seja um romance, ou uma boa história de fôlego, e que seja brilhante – inteligente, cheio de empatia, pungente, igual aos poemas da Jacqueline. E desta vez as boas-novas chegam: a Knopf quer publicar uma edição deles junto com a edição do Publication Studio na qual a Jacqueline continua insistindo. (Este sou eu imaginando aqui.)

A essa altura, surge uma segunda diferença entre mercado editorial e publicação. Num corajoso salto rumo ao futuro de direitos não exclusivos, a Knopf ainda precisa fazer uma estimativa, uma aposta, que irá obrigá-los a seguir determinadas estratégias em nome do livro sob a pressão do tempo. Quantos exemplares imprimir? Milhares? Dezenas de milhares? E se o Terry Gross entrevistar a Jacqueline? E se o livro vai parar nas mãos da Michelle Obama e ela cai de amores por ele? Em que estação ele deve ser publicado? Quem compõe o mercado desse livro e como atingir essas pessoas na janela de três ou quatro meses que um novo livro tem para despertar interesse e vender exemplares o suficiente para continuar sendo impresso?

No Publication Studio, nosso desafio é um pouco mais maleável. Nenhuma aposta pesa sobre os nossos livros. O dia em que a Jacqueline aprova o design final e que nós todos ficamos felizes com ele, imprimimos uma cópia e ficamos maravilhados com ela. É um dia incrível. Essa cópia vai para a Jacqueline, claro. Então imprimimos uma segunda e mandamos para a Joy Williams. (De novo, só imaginando, “vai que…”) Ela conhece o trabalho da Jacqueline, encontrou-a um dia na rua, na Poem Store na Flórida. A Joy gosta do trabalho dela e elas mantêm contato; daí a Jacqueline escreve um bilhete para mandar junto com o livro quando formos colocá-lo no correio. A gente vai no nosso tempo. A publicação, a criação de um público moldada pela leitura, não é pressionada pelo tempo.

Essa economia está começando a se parecer bastante com o antigo modelo das editoras. Amantes dos livros que escrevem para amigos que eles acham que podem gostar de um novo livro, ou de um livro nem tão novo assim. Em que a tranquilidade, as surpresas e as vias indiretas do leitorado de antigas editoras (tão recentes quanto, digamos, a Random House de Bennet Cerf ou a New Directions de James Laughlin) foram produto de menos pressão movida pelo lucro, vendas mais estáveis de títulos disponíveis em catálogo ou simplesmente pela riqueza, a oportunidade de voltar a esse modelo – de publicar algo que adoramos num ritmo que condiz com o cuidado duradouro que temos por essa atividade – agora se estende àqueles de nós com pouquíssimo dinheiro, zero subsídio e nada de tiragens em espera.

Através da eficiência da produção de um livro de cada vez e do amplo alcance da circulação digital e da internet, o Publication Studio foi capaz de criar estratégias rentáveis para 300 novos títulos, direcionando todos os nossos rendimentos diretamente de volta para a vida social do livro. Fizemos e vendemos mais de 25.000 livros, com zero devolução, diretamente para leitoras e por meio de cerca de 50 livrarias pelo mundo, lojas que trabalham com a gente porque viram os nossos livros e quiseram tê-los. Fazendo eco à nossa empolgação e à lealdade de leitoras, essas lojas também concordaram em nunca devolver os livros que mandamos para elas. Elas compram nossos livros porque acreditam que são livros que valem a pena ser comprados.

The Collected pode ser encontrado em lojas em Paris, Berlim, Londres e várias cidades na América do Norte. Vendemos cerca de 300 exemplares. A maioria deles, em eventos onde a Jacqueline fez suas leituras. Ajuda bastante o fato de que ela adora viajar e é uma ótima leitora. Mas à medida que os livros se vendem e circulam, tanto os pedidos online quanto o interesse das livrarias crescem. Em vez do modelo apocalíptico do mercado editorial tradicional, em que o livro fica visível em todo canto por três ou quatro meses antes de desaparecer completamente, com suas últimas bolhinhas de sobrevivência fazendo uma marola nas bancadas de restos promocionais antes de sumir de vez, o livro da Jacqueline permanece visível nas mãos daqueles que gostam dele, e que irão falar por ele. Sua presença é um rumor baixo e rico que foi crescendo, e não um grito estridente seguido de um silêncio alarmante.

 

 

Publicação com desconhecidos

Se a publicação é a criação de novos públicos, como isso constitui um “público”? Como 300 livros podem fazer a diferença? E como uma escritora pode viver com tão pouco dinheiro?

Primeiro o dinheiro. Jacqueline vive do mesmo jeito que a maioria das poetas publicadas. Ela faz vários trabalhos e espera por prêmios enquanto depende que a vida peripatética do seu livro espalhe o rumor. Às vezes pensamos que poetas famosas ganham dinheiro com seu trabalho, mas a maioria ganha dinheiro pela fama, e não pela venda de livros. Heather McHugh, bolsista MacArthur e figura proeminente nas letras americanas, me diz que nenhum dos seus livros jamais rendeu mais do que cinco mil dólares. E estamos falando da nata da economia da poesia.

Escritoras, não só poetas mas todas as escritoras literárias – até e inclusive as mais famosas – não ganham a vida vendendo livros. Elas podem conseguir viver quando são a parte vencedora de um adiantamento delirante de alguma editora, mas, via de regra, um adiantamento polpudo acaba sendo um jogo perigoso, e que vem se tornando cada vez mais raro. Escritoras ganham dinheiro de outro jeito, com prêmios e aulas e eventos que resultam de suas realizações como escritoras. Assim, livros são cruciais, mas a venda de livros não compõe um salário para se manter, mesmo para escritoras mais renomadas. É importante dissipar esse mito de “chegar lá” para que jovens escritoras possam fugir dessa falsa promessa.

Em publicação, nossas escritoras ganham dinheiro com os livros que fazemos. Elas ganham a parte que lhes é justa, mas não vão viver disso. É assim que acontece para escritoras nos tempos de hoje. Editoras deveriam mirar em não esbanjar e garantir que todo mundo lucre igualmente. E deveriam concentrar suas energias na questão mais importante do mundo da publicação – como criar públicos novos e duradouros?

Como os públicos crescem a partir de números tão pequenos? Os públicos que importam, que são capazes de moldar ou de mudar nossas vidas e o destino dos livros, não dependem de números. A concepção errada de que dependem disso – que públicos só se tornam significativos à medida que se tornam grandes, movimentos de massa que se transformam em catalisadores quando o tamanho absoluto de uma multidão ou de uma votação ou de uma pesquisa sobrepuja o tamanho da oposição  que existe contra si – começa numa antiga confusão que mistura públicos e mercados. A primeira menção do “público” como uma força política identificável surgiu simultaneamente com a emergência dos “mercados de massa” como uma força que moldou as economias europeias no fim do século 18. O que passamos a encarar como forças democráticas, o “povo” – essa abstração que é medida em números, seja de corpos numa multidão, de votos numa eleição, ou de unidades vendidas – é, na verdade, o poder de compra de consumidores efetivamente intercambiáveis na ponta de uma nova forma econômica, o capitalismo global, exigindo que mercados de ampla expansão sustentem suas principais engrenagens de crescimento.

Não espero que ninguém fique balançado com essa minha historinha. Mas olhe para a discussão de “público” que é sintetizada por Jürgen Habermas em sua análise de meados do século 20 acerca desses conceitos, e você verá a confusão entre mercados e públicos de que estou falando. O ponto relevante aqui é a separação das duas coisas. Queremos saber como criar novos públicos, e não novos mercados. E, para fazer isso, temos que focar na qualidade das relações, não na quantidade delas. Confundindo públicos com mercados, acabamos por supor erroneamente que o poder ou a importância deles pode ser medida por uma contagem de cabeças.

Um centro de compras no fim do ano, independente do quão lotado ou movimentado, não molda um público. Falta às compradoras pulverizadas o reconhecimento crucial do outro, a capacidade de vermos umas às outras e agirmos em comum. Quando envolvemos desconhecidos como pessoas, quando descobrimos nós mesmos em parte por descobrir os outros, catalisamos um público. Quando tiramos esse reconhecimento e os excluímos ou apagamos categoricamente, nos recolhemos em algo que não é público. Geralmente isso é um mercado. A catalisação ou apagamento do caráter público é palpável. É algo que se sente ao entrar num shopping ou numa multidão, em que ou você recua da presença de estranhos, em plena repulsa, ou se envolve e atua na direção desses desconhecidos do mesmo modo que faria com aqueles que você conhece. Nesse estopim de reconhecimento, de humanidade em comum ao longo da diferença, você ateia um público e sente essa chama crescer.

Não existe isso de público pré-existente. Públicos começam com ações obstinadas, um convite, um evento. Um público pode surgir em qualquer espaço definido que seja aberto a estranhos – uma rua, um ponto de encontro, uma praça ou parque, ou um livro – e encontra seu melhor apoio em configurações pequenas e formalmente claras onde haja um limiar óbvio a ser cruzado. Um convite para se juntar, seja literal ou implicado, é fundamental. Um bom exemplo é a capa de um livro, que pode ser aberta ou fechada.

Nós catalisamos públicos quando fazemos livros e os colocamos para circular. Um livro nas mãos de um estranho o convida a um espaço compartilhado por outros. Um livro usado pode até carregar suas marcas, anotações rabiscadas nas margens. Às vezes encontro exemplares usados dos meus próprios livros com anotações de leitoras que chegam a conclusões caprichosas com as quais só posso ficar maravilhado. “Imagens de pássaros aqui”, ao longo das margens do meu primeiro romance, Landscape: Memory [Paisagem: Memória], me pareceu ser evidência de algum instrutor universitário meio desorientado que passou meu livro na esperança de “ensiná-lo”. Noutro exemplar, encontrei a exclamação “meu deus!” ao lado da primeira descrição detalhada de sexo oral no livro. Essa nota me deixou todo empolgado. Imaginei uma leitora de olhos arregalados, absorta e fascinada, uma completa desconhecida para quem esse acontecimento significara tanto quanto havia significado para mim.

Décadas atrás, minha avó leu essas mesmas cenas de sexo e me mandou um bilhete de aquecer o coração, me agradecendo por retratar um romance entre dois garotos “sem nenhum conteúdo sexual explícito”. Ela leu o livro todo, atentamente, mas o que ela não quis ver não se impôs a ela. Dessa forma, livros são espaços públicos especialmente acolhedores. Eles oferecem tudo, mas não forçam ninguém a nada. Você pode pular umas páginas, dar uma passada de olhos ou só fechar o livro e dar um suspiro.

O público do meu livro inclui minha avó e os alunos meio mal desorientados da tal aula de faculdade, segurando seus exemplares cheios de marcas, e os grupos de leitura que o adotaram, e os adolescentes nervosos que os encontram nas listas de “romances jovens sobre gays e lésbicas” de seus orientadores psicológicos, e os viajantes que o encontram em um hostel para deixá-lo, depois, em outro. Livros viajam pelo mundo colecionando desconhecidos. Eles são espaços públicos. As leitoras se encontram nas margens, na borda reluzente e com algumas marcas suaves de um texto que partilham em comum. Você já passou por esse momento de reconhecimento – num vagão lotado de metrô ou nos bancos de um parque público, ao ver um desconhecido lendo o mesmo livro obscuro que um dia significou o mundo para você. É um vínculo poderoso e infalível. Livros criam públicos. E essas coisas crescem, especialmente se organizamos nosso trabalho para ajudar que cresçam, em vez de matá-los ainda jovens quando falham em atingir determinadas métricas de mercado, as métricas do comprar.

Alguns livros circulam amplamente e seus públicos ficam grandes. Nossos livros de Walter Benjamin, com novas traduções incríveis de Carl Skoggard, têm um leitorado internacional que cresce a cada mês, sem o tipo de vida social ou de apoio que Jacqueline Suskin traz para seus livros. Nesse caso, os próprios livros falam claramente. Joe Holtzman, parceiro de Carl Skoggard, além de fundador e designer da revista Nest, onde trabalhei no passado, fez o projeto das capas. Dissemos ao Carl: sem capas impressas, só pastas de arquivo recicladas e carimbos. Ele disse isso ao Joe e os resultados ficaram brilhantes. Os livros vendem onde quer que sejam colocados.

Outros livros não são feitos para viajar. Meus vizinhos em North Portland, os pintores Chris Johanson e Johanna Jackson, pintaram um mural na lateral do nosso armazém local. É lindo. Eles fizeram dez estudos em aquarela para o mural. Imprimiram as páginas em tipografia numa gráfica local e pintaram à mão 36 séries. Nós encadernamos essas séries como livros, 36 exemplares. Quase todos estão nas mãos de vizinhos e amigos a esta altura, mas alguns poucos estão em Amsterdã e Berlim, e tem um na coleção de literatura americana na Beinecke Library, dedicada a livros raros e manuscritos.

Outros livros viajam e formam grandes públicos, mas o fazem de maneira imprevisível com o passar do tempo. Eles experienciam a vida social do livro dentro de vidas moldadas pela leitura, não pelo comprar. Não há como dizer onde eles vão chegar, apenas que cada livro terá sua própria vida única e também um público para si, seja ele pequeno ou grande. A publicação, a economia que fomos moldando em torno das relações de leitura, pode tratar cada um dentro de seus próprios termos, dando a eles a devida atenção, produzindo livros para venda quando necessário e deixando-os parados quando é o caso.

 

 

A publicação como economia

Em 2011, publiquei meu quinto romance, Chloe Jarren’s La Cucaracha[La Cucaracha de Chloe Jarren], usando o Publication Studio, esse aparato para o qual venho aliciando meus colegas. Entrei em contato com amigas em uma dúzia de cidades, pessoas que tinham lido meus livros e conheciam meu trabalho. Seis desses eram amigos que tocavam um Publication Studio, fazendo livros, realizando eventos e acolhendo a economia da publicação. Em cada cidade, organizamos um jantar – com uma grande mesa para quarenta ou cinquenta pessoas, um chef local que topasse fazer um evento atípico, ótimos comes e bebes e, às vezes, também um convidado especial, geralmente outro escritor com quem eu estabelecia uma conversa como parte do nosso encontro. Um lugar na mesa custava entre 45 e 75 dólares, dependendo do que o chef tivesse em mente. As refeições eram fartas. O valor incluía tudo, todas as bebidas, os pagamentos dos garçons e do chef, e, vale ressaltar, um exemplar do meu livro. Estabelecíamos o preço da entrada a partir do custo total do evento, incluindo o custo do livro e dividindo o valor pelo número de lugares. Onde o PS tinha um espaço, livros fresquinhos eram feitos em edições únicas para o evento e com a data carimbada, como fazemos com todos os nossos livros.

Ao longo de duas semanas, fizemos esses grandes jantares quase todas as noites em São Francisco, Dallas, Cidade do México, Guanajuato, Los Angeles, Vancouver, Toronto, North Adams, Nova York, Seattle e Portland. Encontrei 500 pessoas e vendi 500 livros (e ganhei cinco dólares a cada livro vendido). Foi exaustivo, empolgante e animado. As conexões que estabeleci durante as longas horas nessas mesas de jantar significavam mais do que a maioria das horas que passei lendo para públicos em livrarias, onde compradoras se sentam e tentam decidir se vale a pena ou não comprar meu livro. E, sendo pragmático, elas significavam muito muito mais. Nós não fazemos só vendas. Nós encontramos leitoras, uma coisa muito mais duradoura.

Ajudou o fato de que eu já tinha publicado quatro livros antes e tive alguma boa repercussão com eles. Duvido que a maioria dos autores de primeira viagem pudesse fazer o que eu fiz. Mas se criarmos uma economia baseada na leitura, desviarmos nossas atenções do comprar e da sedução das apostas das grandes editoras, e voltarmos para as relações que significam tanto para nós, escritoras irão começar a enxergar e engajar os potenciais que eu tive sorte o bastante para encontrar naquele verão. Eles estão aí. O público está tão pronto para mudar quanto a gente; ele está pronto para ser tratado como leitoras que partilham do espaço comum de um livro, desconhecidos prontos para reconhecer uns aos outros através da diferença.

Isso é publicação, a criação de novos públicos. Temos sorte de viver numa época em que isso se tornou possível de maneira palpável, mesmo para aqueles de nós que não têm meios ou investidores, munidos apenas do nosso amor pelos livros. O livro impresso – feito e vendido um de cada vez para leitoras que querem tê-los – acaba se provando o melhor instrumento de publicação, de fato insubstituível (melhor até que seu primo temperamental e em vias de desaparecimento, o e-book).

 

 

Do mercado editorial à publicação

Ainda compramos numa cultura de leitura, assim como ainda lemos numa cultura do comprar. Uma leitora hábil pode ser ruim para fazer compras, lenta e indecisa demais, assim como compradoras hábeis muitas vezes são péssimos leitoras (impacientes demais para terminar, não para ler mas para “ter que ler” e chegar ao próximo livro). Mas as duas convivem. Uma cultura de leitura estabelece uma economia que, assim como a leitura em si, é mais lenta do que o comprar. É algo que passa pela conversa, que é aberta, interessada nos detalhes e na diferença, que continua avançando, que vai e vem, que aceita o que está disponível em vez de pedir satisfações de um jeito unilateral. Lojas como a Henry em Hudson, Nova York, ou a Ooga Booga, em Los Angeles, ou ainda centenas de outras em um monte de outras cidades, nos mostram a economia viável de uma cultura da leitura. É relaxante e sempre interessante. Sim, é lento, mas coisas importantes acontecem, e é estável.

A viabilidade simultânea – até mesmo bem-sucedida – dessa “economia de leitura” em meio à economia predominante do comprar provavelmente fica mais óbvia hoje em dia na indústria da alimentação. A indústria da alimentação é dominada pelo que se chama de agronegócio, encabeçado por grandes empresas como a Monsanto que recompensam a agropecuária em grande escala vinculando esses fornecedores a amplas redes de distribuição e mercados globais onde os consumidores acabam se acostumando à conveniência de alimentos processados com nome de marca, alimentos que o consumidor continua desconhecendo a origem e a economia que mobilizam.

Em meio a essa cultura dominante de produção de alimentos em escala industrial, existe um movimento de liderança e enraizamento coletivos que vem se espalhando rápido feito trepadeira e que se chama slow food, com muitas versões diferentes em países e culturas distintas. A essência do slow food é que a pessoa que come saiba alguma coisa sobre de onde vem seu alimento, quem o produz e como ele chega até a mesa. Esse conhecimento – mais do que quaisquer regras estritas sobre escala ou distância – é o que define o slow food. Não é nada tão devagar assim. Considerando que a versão mais fácil é mesmo cultivar alimentos no seu jardim e consumi-los (ou, igualmente, visitar o agricultor ou horta mais próximos que ofereçam bons produtos, comprar deles e consumi-los), o slow food pode acabar sendo bem mais rápido do que o agronegócio. A diferença está no conhecimento que se tem e nas relações que levam a isso. Essas relações são como as de leitura – abertas, baseadas em conversa, que vão e vêm, duradouras, curiosas, jamais uma demanda unilateral.

Publicação, a economia que descrevi aqui, é o equivalente dos livros para o slow food. É local. É feito à mão por pessoas que se importam. Carrega um trabalho da melhor qualidade que se tem no mundo e (como a literatura viaja bem) também nos dá acesso a todo um universo de livros, não apenas aquilo que está geograficamente ao alcance das mãos. Eu gosto dessa economia porque amo ler.

Ela é tão viável quanto o slow food. Ela existe e pode dar certo, a despeito do destino do mercado tradicional das grandes editoras. Minha esperança é que qualquer um que valorize a cultura de leitura acima da cultura do comprar irá se juntar ativamente à economia da publicação. Primeiro, fazemos isso insistindo em contratos não exclusivos. Segundo, desencorajamos as apostas em grandes tiragens. Terceiro, estendemos os prazeres da leitura de maneira tão profunda quanto possível dentro dessa economia.

Ler não é só aquilo que fazemos com livros, naquelas noites luxuosas em que cancelamos os planos de última hora, acendemos a lareira e nos sentamos para ler sem nenhuma obrigação até a hora de dormir: também é aquilo que fazemos ao longo do dia em todas as nossas relações e interações – com a nossa economia. Podemos também ser leitoras em vez se sermos sempre compradoras.

 

 

 

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