Herói(na)s Butch

Herói(na)s Butch*

Ria Brodell, 2018  [traduzido por Daniel Lühmann]
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Ria Brodell é artista, educadorx e autorx trans não binária baseadx em Boston, nos EUA, que recupera histórias perdidas realizando pesquisas e pintando retratos de pessoas de gênero não conformista ao longo da história.

 

 

Katherina Hetzeldorfer, circa 1477, Alemanha.
Guache sobre papel, 28 x 18 cm, 2012.

 

Katherina Hetzeldorfer

 

Katherina Hetzeldorfer foi julgada e depois afogada no Reno por um crime que não possuía nome em 1477.

Hetzeldorfer mudou-se de Nuremberg para a cidade de Speier, na Alemanha, junto com uma mulher que, durante o julgamento, ela alegava ser sua irmã. Elas viveram em Speier por dois anos antes de Hetzeldorfer ser presa. Ambas aparentemente haviam confiado em membros da comunidade, descrevendo a natureza de sua relação como se fossem marido e mulher. Depois de uma intensa análise cruzada de informações, Hetzeldorfer revelou que a mulher não era sua irmã, mas que tinham uma relação sexual de longa duração. (A esposa de Hetzeldorfer talvez tenha conseguido escapar, pois seus depoimentos não foram registrados nas transcrições do julgamento.)

Testemunhas mulheres que alegaram ter sido seduzidas por Hetzeldorfer descrevem-no(a) como “sendo igual a um homem tanto no aspecto físico quanto no comportamento, com personalidade sexualmente agressiva, um amante potente.” Hetzeldorfer e essas testemunhas foram obrigados a descrever detalhadamente como elx agia enquanto homem. As respostas incluíam a descrição do uso de um “instrumento” e de como ele era feito: “com um pedaço de couro vermelho, preenchido com algodão na frente e um bastão de madeira enfiado dentro, no qual havia um buraco para passar uma corda para amarrá-lo”. Foi o uso desse “instrumento”, somado às suas transgressões de gênero, que levaram Hetzeldorfer à sua morte por afogamento, uma sentença particularmente degradante reservada a mulheres.

 

Fontes:

 

Helmut Puff, “Female Sodomy: The Trial of Katherina Hetzeldorfer (1477)”, Journal of Medieval and Early Modern Studies, 30.1 (2000): pp. 41-61.

__________, Sodomy in Reformation Germany and Switzerland, 1400-1600. Chicago: University of Chicago Press, 2003.

Leila J. Rupp, Sapphistries: A Global History of Love Between Women, Nova York: New York University Press, 2009.

 

Catterina Vizzani, conhecida como Giovanni Bordoni, 1718-1743, Itália.
Guache sobre papel, 28 x 18 cm, 2012. Acervo do Davis Museum no Wellesley College.

 

Catterina Vizzani também conhecida como Giovanni Bordoni

 

Catterina Vizzani nasceu em Roma, em uma família de carpinteiros. Aos catorze anos, apaixonou-se por uma garota que estava lhe ensinando a bordar. Catterina se vestia com “roupas de homem” e passava pela janela da garota à noite. A relação entre elas durou mais de dois anos, até que o pai da garota descobriu a história e ameaçou entregar Catterina aos tribunais.

Catterina deixou Roma vestida em “roupas de homem” e assumiu o nome de Giovanni Bordoni. Com ajuda de um padre, ele arrumou um trabalho de assistente de vigário em Perúgia. O vigário era um homem austero e reclamava que Giovanni “seguia as moças incessantemente, sendo muito descarado e insaciável em suas investidas”. Corria à boca pequena que Giovanni era o maior sedutor de mulheres naquela parte do país, uma reputação que o vigário desgostava e que o fez reclamar com o padre que havia recomendado Giovanni. O padre escreveu aos pais de Giovanni, que por sua vez lhe contaram tudo. Depois de saber a verdade, o padre decidiu guardar o segredo de Giovanni.

Depois de passar quatro anos trabalhando com o vigário, Giovanni deixou Perúgia e foi a Montepulciano, onde se apaixonou pela sobrinha do clérigo local. O clérigo era muito protetor com a sobrinha, o que fez o casal planejar uma viagem secreta a Roma para se casar. O plano foi descoberto e eles foram interceptados no meio da jornada. Durante sua tentativa de rendição, Giovanni levou um tiro na coxa esquerda, uns dez centímetros acima do joelho.

No hospital, sofrendo de gangrena, a ferida de Giovanni crescia tão dolorosa que ele foi obrigado a remover o “dispositivo de couro” (que estava atado logo abaixo do abdome) e escondê-lo sob seu travesseiro. Em seu leito de morte, ele revelou a uma freira que era, na verdade, mulher e virgem, e solicitou o cerimonial funeral dedicado às virgens. O corpo foi vestido com os devidos hábitos femininos, com uma guirlanda virginal na cabeça e flores espalhadas sobre as roupas.

Um cirurgião e professor de anatomia em Siena, Giovanni Bianchi, dissecou o corpo na tentativa de encontrar uma explicação “para aquelas que seguiam as práticas de Safo”. Avaliou-o extensivamente, o que incluiu a remoção e dissecção do hímen, clitóris, trompas de Falópio, intestinos, cólon, bexiga e fígado – descobrindo que tudo se encontrava em seu “estado natural”.

A procissão funeral de Catterina/Giovanni foi extremamente popular, com pessoas vindo de todas as partes da cidade para ver o cadáver. Aconteceram até mesmo tentativas de canonização.

 

Fontes:

 

Giovanni Bianchi, A história verdadeira de Catharine Vizzani, jovem dama nativa de Roma, que viveu muitos anos com hábitos de homem; foi morta por causa de seu amor com uma jovem moça; e descobriu-se, em sua dissecção, ser uma verdadeira virgem. Com observações anatômicas curiosas sobre a Natureza e Existência de um Hímen. Por Giovanni Bianchi, Professor de Anatomia em Siena, o Cirurgião que a dissecou. Com um frontispício curioso.Londres, 1755. Eighteenth Century Collections Online, Gale, Boston College, 22 de abril 2012.

Rictor Norton (ed.), “The Case of Catherine Vizzani, 1755”, Homosexuality in Eighteenth-Century England: A Sourcebook, 1° de dezembro de 2005.

 

D. Catalina “Antonio” de Erauso, 1592-1650, Nova Espanha.
Guache sobre papel, 28 x 18 cm, 2011. Acervo do Leslie-Lohman Museum.

 

D. Catalina “Antonio” de Erauso

 

Catalina de Erauso nasceu em San Sebastián, na Espanha, em uma nobre família basca. Foi criada em convento desde a infância, mas, antes de fazer seus votos, fugiu vestida com roupas de homem e assumiu o nome de Francisco de Loyola.

Francisco trabalhou como pajem por alguns anos antes de decidir partir em busca de aventuras no Novo Mundo, velejando até o Panamá como camareiro. Depois de chegar em Nova Espanha, alistou-se no exército espanhol com o nome de Alonso Díaz Ramírez de Guzmán. Tornou-se um soldado bem-sucedido no Chile e no Peru, chegando à patente de capitão. No entanto, como muitos outros soldados, arrumava brigas com frequência, tinha problemas com mulheres e acumulava dívidas de jogo. Depois de desertar o exército e perseguido pelas autoridades por diversas infrações, inclusive de assassinato, acabou sendo eventualmente ferido em um duelo. Acreditando estar à beira da morte, ele revelou ser mulher e foi colocado em um convento.

Depois de se recuperar e de tentar escapar, Erauso confessou tudo a um bispo e foi examinado por parteiras, que descobriram que ela era de fato mulher e virgem. Liberada, ela viajou de volta para a Espanha, mas a história acabou se espalhando e Catalina de Erauso tornou-se uma celebridade, conhecida como a “Tenente Freira”. Ela solicitou uma pensão militar ao Rei Felipe IV, mencionando seus quinze anos de serviços prestados à coroa em Nova Espanha. Também visitou o Papa Urbano VIII com o pedido de poder continuar se vestindo como homem, fazendo referência a seu status de virgem e à defesa da fé católica.

Com permissão do papa e uma pensão do governo espanhol, ele retornou à Nova Espanha como Antonio de Erauso e aposentou-se como cocheiro de mula e comerciante.

 

Fontes:

 

Catalina de Erauso, The Autobiography of doña Catalina de Erauso, An Electronic Edition,Early Americas Digital Archive, consultado em 2011, College Park, Maryland: University of Maryland, 2007.

Dan Harvey Pedrick, The Sword & the Veil: An Annotated Translation of the Autobiography of Doña Catalina de Erauso, tese de mestrado, University of Victoria, 1999.

Leila J. Rupp, Sapphistries: A Global History of Love Between Women, Nova York: New York University Press, 2009.

Sherry Velasco, Lesbians in Early Modern Spain, Nashville: Vanderbilt University Press, 2011.

 

Biawacheeitche ou Cacique Mulher, também conhecida como Barcheeampe ou Folha de Pinheiro, circa 1800-1854, Nação Apsáalooke. Guache sobre papel, 28 x 18 cm, 2011. Parte do acervo do Davis Museum no Wellesley College.

 

Biawacheeitche ou Cacique Mulher

 

Biawacheeitche ou Cacique Mulher nasceu na tribo Gros Ventre. Foi capturada e adotada pela nação Apsáalooke (Corvo) quando tinha dez anos. Desde a infância, mostrava certa inclinação a atividades “masculinas”. De acordo com Edwin Thompson Denig, mercante de peles que a conheceu por vários anos, ela conseguia “rivalizar com qualquer homem jovem em suas diversões e ocupações”. Era “destemida em tudo” e adepta da caça e de conflitos. Liderou grandes grupos de guerra e foi reconhecida como terceira maior líder de um grupo de 160 alojamentos. Embora usasse “trajes de mulher”, mantinha “todo o estilo de homem e chefe, com suas armas, arcos, lanças, cavalos de guerra e até mesmo duas ou três mulheres como esposas… os instrumentos em seu vestido representam alguns de seus atos de bravura”. Em 1854, ela foi morta pelos Gros Ventre perto de Fort Union.

Sua história foi popularizada nas memórias de James Beckwourth, onde é referida como Folha de Pinheiro. Beckwourth era um escravo emancipado, mercante de peles e montanheiro que aparentemente se apaixonou pela Cacique Mulher. Depois de recusar seus pedidos de casamento várias vezes, ela finalmente cedeu dizendo que se casaria com ele somente quando “as folhas de pinheiro ficassem amarelas”. Beckwourth depois deu-se conta de que folhas de pinheiro nunca ficam amarelas.

 

Fontes:

 

James P. Beckwourth, The Life and Adventures of James P. Beckwourth: Mountaineer, Scout, and Pioneer, and Chief of the Crow Nation of Indians, editado por Thomas D. Bonner, Nova York: Harper and Brothers Publishers, 1856.

Edwin Thompson Denig, Five Indian Tribes of the Upper Missouri: Sioux, Arickaras, Assiniboines, Crees, Crows, editado por John C. Ewers, Norman: University of Oklahoma Press, 1961.

Rudolph Friederich Kurz, Journal of Rudolph Friederich Kurz: An Account of His Experiences among Fur Traders and American Indians on the Mississippi and the Upper Mississippi Rivers during the Years 1846 to 1852, editado por J.N.B. Hewitt e traduzido por Myrtis Jarrell, Lincoln: University of Nebraska Press, 1970.

Sabine Lang, Men as Women, Women as Men: Changing Gender in Native American Cultures,Austin: University of Texas Press, 1998.

Will Roscoe, Changing Ones: Third and Fourth Genders in Native North America, Nova York: St. Martin’s Press, 1998.

United States Bureau of American Ethnology, Annual Report of the Bureau of American Ethnology to the Secretary of the Smithsonian Institution, Washington: BAE, 1895.

Walter L. Williams, The Spirit and the Flesh: Sexual Diversity in American Indian Culture, Boston: Beacon Press, 1986.

 

Petra “Pedro” Ruiz, circa 1893-1938, México. Guache sobre papel, 28 x 18 cm, 2013. Parte do acervo do Davis Museum no Wellesley College.

 

Petra “Pedro” Ruiz

 

De acordo com os arquivos da Defesa Nacional na Cidade do México, Petra Ruiz nasceu em Acapulco em dezembro de 1893 e morreu na Cidade do México em fevereiro de 1938.

Petra se alistou no Exército Constitucionalista em 1913 com o nome de Pedro Ruiz. Seu disfarce, com roupas masculinas e cabelo bem curto, era tão perfeito que ninguém desconfiava. Pedro Ruiz rapidamente chegou à patente de tenente, lutando com Venustiano Carranza contra as forças de Victoriano Huerta.

Tenente Ruiz logo estabeleceu para si a reputação de combatente de sucesso, com sede de aventura e temperamento violento. Competia impetuosamente pelo amor de mulheres. Diz-se que seus colegas soldados o temiam, o que lhe valeu o apelido de “El Echa Balas” (“O disparador de balas”), por suas afiadas habilidades de disparo e também com o manuseio de facas.

Em certa ocasião, o batalhão do Tenente Ruiz tomou o controle de uma fazenda enquanto lutavam em Oaxaca, matando seu proprietário. Os soldados discutiam quem seria o primeiro a estuprar a filha de dezessete anos do dono e, ao ouvir seus gritos, Tenente Ruiz irrompeu “disparando suas armas” e disse: “Eu vou ficar com esta, e se algum de vocês não gostar da ideia, pode vir se acertar comigo!”. Os soldados recuaram e o Tenente Ruiz se foi com a garota. Quando estavam longe o suficiente, o Tenente Ruiz abriu sua camisa para garantir à garota que estava à salvo, dizendo: “Eu também sou mulher, igual a você”. Ao chegar à cidade mais próxima, ela deixou a garota com uma família que a manteria em segurança. Posteriormente, ela seria citada com a seguinte frase: “Entrei para o Exército Constitucionalista como modo de sobreviver, mas sobretudo para evitar sempre que possível que mais mulheres fossem estupradas como eu mesma fui.”

Por volta do fim da guerra, o presidente recém-empossado Venustiano Carranza estava vistoriando as tropas e, quando ele passou, Tenente Ruiz deu um passo à frente e disse: “Senhor Presidente, como não há mais conflitos, eu quero pedir minha exoneração do exército, mas antes quero que você saiba que uma mulher lhe serviu como soldado”. Aqueles então reunidos ficaram impressionados, e Carranza convocou imediatamente uma investigação sobre a vida da Tenente Ruiz.

 

Fontes:

Angeles Mendieta Alatorre, La Mujer en la Revolución Mexicana, México: Instituto Nacional de Estudios Históricos de la Revolución Mexicana, 1961.

Lucila Chávez, “Quien Lleva Los Pantalones? Female Subversion and Queerness in the Mexican Revolution”, Loudmouth, n. 9, primavera de 2005: p. 14.

__________, “Quien Lleva Los Pantalones? Writing Female Cross-dressers into the History of the Mexican Revolution”, dissertação defendida na Cal State LA, 2005.

María Herrera-Sobek, The Mexican Corrido: A Feminist Analysis, Bloomington: Indiana University Press, 1990.

Ann Marie Leimer, “Crossing the Border with ‘La Adelita’”: Lucha-Adelucha as “Nepantlera” in Delilah Montoya’s ‘Codex Delilah’”, Chicana/Latina Studies, n. 5.2, primavera de 2006, pp. 22-23.

Elena Poniatowska e David Dorado Romo, Las Soldaderas: Women of the Mexican Revolution, El Paso: Cinco Puntos Press, 2006.

Elizabeth Salas, Soldaderas in the Mexican Military: Myth and History, Austin: University of Texas Press, 1990.

Agradecimentos a Vicente Guzman-Orozco pela assistência em pesquisa e tradução.

 

Sakuma Hideka & Chiyoka, 1934, Japão. Guache sobre papel, 28 x 18 cm, 2012. Acervo do Leslie-Lohman Museum.

 

Sakuma Hideka & Chiyoka

 

Em 1934, Sakuma Hideka e Chiyoka trabalhavam juntas num café em Tóquio junto com outra mulher desconhecida. Artigos de jornal sobre a história delas descrevem as três mulheres levando um relacionamento poliamoroso que sabiam que jamais seria tolerado pela sociedade.

Sabendo que não podiam viver como um casal ou trio, Hideka e Chiyoka embarcaram numa jornada destinada a cometer shinjū (duplo suicídio ou “suicídio amoroso”) pulando do Monte Mihara, um vulcão ativo na ilha de Ōshima, afastada da costa de Tóquio.

Enquanto isso, sem o conhecimento delas, a terceira mulher tentou cometer suicídio por conta própria, deixando bilhetes de despedida à sua família. Alertada por esses bilhetes, a imprensa ficou sabendo das intenções de Hideka e Chiyoka e seguiu-as até Ōshima, alcançando-as antes que elas conseguissem se lançar na cratera.

Depois disso, Hideka escreveu seu próprio relato do incidente, descrevendo a jornada de dois dias até o Monte Mihara, a estadia em uma pousada e como se mantinham próximas “pensando apenas na morte”. Ela criticou a imprensa por espalhar rumores sobre sua família, depreciar sua aparência masculina e banalizar a tentativa de suicídio ao pedir para os leitores que contribuíssem com canções satíricas acerca do episódio. Ela manifestou sua solidão e se questionou por que mulheres autossuficientes e apaixonadas não podiam viver juntas do mesmo jeito que os casais heterossexuais.

 

Fontes:

Sakuma Hideka, “Joshi Ketsui suru made” (Até [nós] resolvermos cometer suicídio amoroso),Fujin Gahô, 1934.

Jennifer Robertson, “Dying to Tell: Sexuality and Suicide in Imperial Japan”, Signs 25, no. 1, Chicago: outono de 1999, pp. 1–35.

“Watashi wa koi no shorisha” (Sou uma sobrevivente do amor), Asahi Shinbun, Tóquio: 14 de junho de 1934, edição matinal.

Agradecimentos a Mamiko Imoto pela assistência na tradução.

 

Elena também conhecida como Eleno de Céspedes, 1545 – circa 1588, Espanha. Guache sobre papel, 28 x 18 cm, 2011. Parte do acervo do Davis Museum no Wellesley College.

 

Elena também conhecida como Eleno de Céspedes

 

Elena, também conhecida como Eleno de Céspedes, foi uma escrava libertada nascida em Alhama, na Espanha, em 1545. Seu pai era um camponês castelhano e sua mãe, uma escrava africana, por isso Elena trazia marcas em ambos os lados do rosto para indicar seu status de filha de escrava. Casou-se aos dezesseis anos com um homem que a deixou pouco depois que ela engravidou. De acordo com seu depoimento diante da Inquisição espanhola em 1587, ao dar à luz seu filho, cresceu-lhe um pênis. Ela deu o bebê a outra família e passou a viver ora como homem, ora como mulher. Céspedes mudava de cidade em cidade trabalhando como costureiro, camiseiro, soldado e, por fim, como cirurgião licenciado, valendo-se do gênero que mais se adequasse a cada ocasião.

Céspedes teve muitos casos com mulheres, mas em 1586 envolveu-se com Maria del Caño. Quando foi pedir ao vigário uma autorização de casamento, este suspeitou do físico sem pelos de Céspedes e fez com que ele fosse examinado por seus associados. Os homens do vigário testemunharam que tudo estava intacto. No entanto, antes que o casamento pudesse acontecer, alguém deu um passo à frente, alegando que Céspedes era tanto homem quanto mulher, o que fez com que o vigário pedisse uma nova avaliação. Céspedes foi examinado diversas vezes por doutores, cirurgiões, advogados, pelo secretário da Inquisição e por outras pessoas de “boa reputação”, e todos confirmaram que ele era de fato homem, até que finalmente o casamento obteve autorização para acontecer. No entanto, passado um ano, após uma denúncia de um vizinho, o casal foi preso e acusado de sodomia, bruxaria e desrespeito ao sacramento do casamento.

Ao testemunhar diante do Tribunal de Toledo, Céspedes se declarou “hermafrodita”, dispondo tanto de características femininas quanto masculinas. Céspedes argumentou que, à época de seu casamento com Maria, ele era de natureza masculina e, portanto, não cometera nada de errado. Todavia, seu membro masculino havia murchado e caído recentemente por causa de um acidente grave. Depois de mais avaliações por médicos e parteiras da corte, Céspedes foi considerada mulher e sentenciada por bigamia, falsidade, falso testemunho e escárnio do sacramento do casamento. Céspedes recebeu duzentas chicotadas e foi condenada a servir por dez anos em um hospital público, vestida de mulher.

 

Fontes:

Israel Burshatin, “Written on the Body: Slave or Hermaphrodite in Sixteenth-Century Spain”, emQueer Iberia: Sexualities, Cultures, and Crossings from the Middle Ages to the Renaissance, editado por Josiah Blackmore e Gregory S. Hutcheson, 427, Durham: Duke University Press, 1999.

Richard L. Kagan e Abigail Dyer, Inquisitorial Iinquiries: Brief Lives of Secret Jews and Other Heretics, Baltimore: The Johns Hopkins University Press, 2004.

Leila J. Rupp, Sapphistries: A Global History of Love Between Women, Nova York: New York University Press, 2009.

Sherry Velasco, Lesbians in Early Modern Spain, Nashville: Vanderbilt University Press, 2011.

 

Rosa Bonheur, 1822-1899, França. Guache sobre papel, 28 x 18 cm, 2010. Parte do acervo do Davis Museum no Wellesley College.

 

Rosa Bonheur

 

Rosa Bonheur foi uma pintora e escultora francesa. Uma das mais renomadas pintoras de animais de sua época e primeira mulher a receber a Grã-Cruz da Legião de Honra da França. Artista extremamente popular em vida, ela expunha regularmente nos salões parisienses.

Muitas vezes confundida com homem por causa dos cabelos curtos e dos traços fortes, ela obteve permissão do chefe de polícia para usar roupas “masculinas” enquanto pintava. Casou-se duas vezes, primeiro com sua namorada da infância, Nathalie Micas, em cerimônia conduzida pelo pai de Nathalie, e, depois do falecimento desta, com a artista americana Anna Klumpke.

Bonheur foi extremamente bem-sucedida financeiramente. Isso a permitiu comprar o Château By, sua casa e sítio perto da Floresta de Fontainebleau, e quitar as dívidas de seu pai. Ela também apoiou seus irmãos ao longo da vida, apesar das objeções que eles apresentavam a seu estilo de vida. Bonheur defendia sua independência e seus relacionamentos com Micas e Klumpke de maneira consistente. Usou sua obstinação para forçar o reconhecimento legal de transferir suas propriedades para outra mulher.

 

Fontes:

 

Theodore Stanton (ed.), Reminiscences of Rosa Bonheur, Nova York: 1910.

Martha Vicinus (ed.), Lesbian Subjects: A Feminist Studies Reader, Bloomington: Indiana University Press, 1996.

__________, Intimate Friends: Women Who Loved Women, 1778-1928, Chicago: University of Chicago, 2004.

 

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*Optamos aqui por manter o termo em inglês butch, escolha que Ria Brodell explica da seguinte forma: “Escolhi o termo ‘butch’ como título por sua natureza dupla: estabeleceu-se enquanto gíria com valor de insulto e é usado também como reconhecimento congratulatório de força. Possui ainda uma história dentro da comunidade LGBTQIA. Além de suas associações tradicionais a ser ‘masculina’ na aparência ou nas ações, optei por usar ‘Herói(na)s Butch’ para indicar pessoas que foram fortes ou corajosas no modo como viveram suas vidas e desafiaram os papéis estritos de gênero de suas sociedades.”

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