Uma Mulher fala com a Morte

Judy Grahn: Uma Mulher Fala com a Morte

tradução de Angélica Freitas

 

Um
Depoimento que nunca foi ouvido em julgamentos

 

os dentes do meu amor são gansos brancos voando sobre mim
os músculos do meu amor são escadas de corda sob as minhas mãos

dirigíamos para casa devagar
meu amor e eu, pela longa Bay Bridge,
uma meia-noite de fevereiro, quando na metade
da última faixa da esquerda, vi uma cena estranha:

um jovem franzino, diante do gradil,
e na própria pista, parado bem em frente
como se pudesse deter alguma coisa, um jovem
graúdo, montado numa moto enguiçada
tranquilo como se estivesse diante de uma lanchonete;
usava um casaco de marinheiro e calças jeans, e
jogava a cabeça para trás, rugia, quase
dava para ouvir a risada, era
tão real.

“Olha praquele maluco”, eu disse, “no meio da ponte
desse jeito”, uma observação
típica de mulher.

Então a gente entendeu o que significa o barulho
do metal numa ponte de concreto a 80
quilômetros por hora, e a última faixa da esquerda
se encheu com um carro grande que tinha uma
moto encravada no para-choque dianteiro, como
se tudo fosse explodir, as faíscas
do atrito voavam num laranja brilhante muitos metros
pelo ar, e a barulheira ainda me faz
ranger os dentes.

Quando o carro parou nós paramos ao lado

e Wendy foi até a cabine telefônica enquanto eu
corria por aquelas seis faixas feito um rato
numa pista de boliche. “Você está ferido?” eu perguntei,
o motorista de meia idade tinha o rosto negro muito cinza,
“Não consegui parar, não consegui parar, o que aconteceu?”

Foi então que lembrei. “Alguém”, eu disse, “estava
na​ moto.” Corri de volta,
uma quadra? duas quadras? o espaço para andar
na ponte tem uns 50 centímetros, quem
projetou essa arrogância, na ventania escura
parecia que eu seria empurrada por cima do gradil,
que cairia gritando sobre a superfície dura da baía mas não aconteceu.
Encontrei o jovem alto que se achava o dono da ponte, agora
deitado de barriga para baixo, a cabeça aninhada em seu braço quebrado.
Ele estava de óculos, mas em algum lugar perdeu
boa parte dos jeans, onde estavam?
e os sapatos. Dois cortes pequenos nas nádegas,
e essa era a única marca fora as suas duas brancas, finas
vesículas seminais estiradas atrás dele;
nenhuma criança restava ​nele​; e parecia estar dormindo.

Sacudi o seu pulso loucamente, depois
coloquei-o de volta no chão; duas mulheres de cabelos longos
seguravam o trânsito atrás de mim com as próprias mãos,
as máquinas avançavam como touros furiosos, eu tinha medo,
muito mais do que o normal, sentia que me esmagariam
facilmente como aquelas minhocas que rastejam pela calçada
depois da chuva; ​eu queria ir embora​. E encontrei o motorista
no caminho de volta.

“O cara está morto.” Eu agarrei a sua mão,
o vento ia nos soprar da ponte.

“Ah meu Deus”, ele disse, “será que já não tive
problemas o suficiente na minha vida?” Levantou a cabeça,
e por um instante gritou colérico,
para o alto da ponte – “eu só estava
voltando pra casa!” Sua cabeça tombou. “Meu Deus,
e agora eu matei alguém.”

Olhei para meu próprio casaco de marinheiro e jeans,
e depois para o amigo do cara morto, que berrava
e choramingava, o que chamariam
de histeria numa mulher. “Não é possível”
ele gritava, mas era possível, de fato foi,
consumado e indiferente, roncando
em seu casaco de marinheiro, e sem os jeans.

Ele morreu rindo: isso é um fato.

Eu tinha uma mulher esperando por mim,
no carro dela e no meio da ponte,
estou assustada, eu disse.
Estou com medo, ele disse, fique comigo,
por favor não vá, fique comigo, seja
minha testemunha – “Não”, eu disse, “Eu serei sua
testemunha – depois”, e peguei o nome dele
e o telefone, “mas não posso ficar com você,
estou com muito medo da ponte, e além disso
tenho uma mulher me esperando
e não temos carteira –
e nem faróis traseiros –”
Então eu o deixei –
como deixei muitos dos meus amores.

dirigimos para casa
tremendo, o rosto de Wendy mais cinza
do que o de qualquer pessoa branca que eu já tinha visto.
talvez ele batesse na mulher, talvez já tenha
sido taxista, e estuprado alguma namorada
minha – como saber essas coisas?
nós nos matamos destruímos​, isto é um fato.

quem será a minha testemunha?
a morte nos faz perder tempo com a bebedeira
e a depressão
a morte, que nos afasta de nossos
amores.
ele tinha uma mulher à sua espera,
descobri quando liguei para o número
dias depois.

“Onde ele está” ela disse “ele desapareceu.”
“Ele vai ficar bem” eu disse “​a gente​ podia ter
batido no cara também, qualquer pessoa podia,
não é culpa de ninguém, eles vão saber disso”,
mulheres dizem coisas estúpidas assim tantas vezes,
nos ensinam a ser doces e tranquilizadoras,
e a dizer coisas ignorantes, porque nós não inventamos
o crime, o castigo, as pontes

naquela mesma semana eu olhei no espelho
e não havia ninguém lá para testemunhar;
é claro, uma lésbica desempregada
não serve como testemunha alguma,
ninguém estava lá para
essas duas perguntas: o que
ela faz, e com quem ela é casada?

Eu sou a mulher que parou na ponte
e este é o homem que estava lá
os dentes de nossos amores são gansos brancos voando
sobre nós, mas é fácil
nos esmagar.

conserve as mulheres pequenas e fracas
e longe das ruas, e longe das pontes,
é assim que se faz, irmão
um dia eu te deixarei lá
como já deixei lá antes,
trabalhando para a morte.

descobrimos depois
para o que o deixamos lá.
Seis policiais enormes responderam ao chamado,
todos brancos, e nenhuma criança ​neles.
encostaram o motorista no carro
e espancaram-no brutalmente.
Por que você matou aquele pobre garoto?
seu negro de merda.
isso é um fato.

A morte só usa violência
quando há algum tipo de resistência,
no restante do tempo um desgaste
lento serve.

Levaram-no a 4 hospitais diferentes
até que acharam um relatório de embriaguez que coubesse
no seu caso, e deixaram-no cinco dias preso
sem direito a um telefonema.
quantos amores já abandonamos.

há tantas contradições no jogo
quanto pessoas jogando.
uma mulher fala com a morte,
embora falar seja fácil, e a vida leve
muito tempo
para dar
certo. Ele conseguiu um advogado barato
que o fez negociar, 15 a 20 anos
em vez de a vida na prisão.
Eu disse vida?

o jovem arrogante que se achava
o dono da ponte, e nela adormeceu
morreu rindo: isso é um fato.
o motorista passa o seu tempo
longe das ruas em algum lugar
terá o mais vago dos olhares,
morrerá rindo?

 

Dois
Eles não precisam mais linchar as mulheres

a morte senta à minha porta
limpando o seu revólver

a morte mutila os meus pés e me manda para a rua
para esperar o ônibus sozinha.
depois passa por mim dirigindo um táxi.

a mulher da nossa quadra que tem 6 filhos pequenos
tem os olhos mais vagos do mundo
a morte senta-se em seu quarto, carregando
o seu revólver

eles não precisam mais linchar as mulheres
com tanta frequência, embora
estivessem acostumados – o senhor e seus homens
atravessavam as aldeias à noite, espancando &
matando todas as mulheres apanhadas
fora de casa.
os julgamentos das bruxas na Europa eliminaram
um povo independente: duas aldeias diferentes
– quando os julgamentos acabaram naquele ano –
continham, cada uma –
uma mulher viva:
uma

O que aquelas mulheres estavam aprontando? tinham
atropelado alguém? tinham parado na ponte errada?
tinham dentes parecidos com
qualquer espécie de ganso, ou crianças
nelas?​

 

Três
Esta mulher é lésbica tenha cuidado

No hospital militar onde eu trabalhava
como auxiliar de enfermagem, as paredes dos
corredores eram forradas de mulheres uivantes
esperando para dar à luz
ou ter alguma parte delas retirada.
Um dos grandes quartos privados continha
a mulher do general, que precisava
ter uma verruga retirada do nariz.
fomos instruídas para lhe dar atenção especial
não por causa da verruga ou de seu nariz
mas por causa de seu marido, o general.

morrem tantas mulheres quanto homens, e isso é um fato.

No trabalho havia uma paciente simpática,já
reivindicada​,uma jovem toda queimada pelo raio X,
ela tinha longos tubos brancos em vez de orifícios;
reto, bexiga, vagina – eu penteava seu cabelo, era
o meu trabalho, mas ela me cuidava como se
o toque de nenhuma pessoa a pudesse estragar.
ah ah morte, ah morte
você já viu o brilho no olho da mulher morta?

quando você é auxiliar de enfermagem
alguém de repente repara em você
e grita sobre a cama da paciente
e rasga os lençóis para que você
possa arrumá-los novamente, e de novo
enquanto a paciente espera
se dobrando de dor
você arrumar a cama de ​novo
e ninguém nunca olha para você,
só para o que você não faz.

Aqui, general, segure a comadre deste soldado
por um instante, segure-a por um ano –
depois iremos promovê-lo a arrumar a cama dele.
acreditamos que você não faria tanta sujeira

se tivesse que a limpar depois.

isso é uma fantasia.
esta mulher é lésbica, tenha cuidado.

quando eu fui presa e expulsa
do exército, a ordem foi dada: ninguém
fala com essa mulher, e durante aqueles longos
três meses, quase ninguém o fez: a sala de convivência, quando
eu entrava, ficava em silêncio até a minha saída;
eles tinham medo, sabiam que o vento ia soprá-los
por cima do gradil, que os policiais chegariam,
que a água entraria em seus pulmões.
Tudo que eu tocava
estragava. Eram meus amores, aquelas
mulheres, mas ninguém nos ensinou a nadar.
Eu me afoguei e levei 3 ou 4 comigo
quando assinei a confissão do que nós
tínhamos feito           juntas.

Ninguém vai falar comigo nunca mais.

Li isto em algum lugar, eu não estava lá:
na Segunda Guerra Mundial o exército americano inventou uns
tanques anfíbios flutuantes, e levou-os para
a costa da Europa para descarregá-los,
os navios de desembarque todos dispostos numa frota,
e todo mundo assistindo. Cada tanque tinha uma
tripulação de 6 pessoas e havia 25 tanques.
O primeiro desceu as rampas de desembarque
e afundou, o segundo, o terceiro, o
quarto, o quinto, o sexto desceram
e afundaram. Não era para terem
afundado, os engenheiros cometeram
algum erro. Os soldados olhavam loucamente
ao redor à procura de uma ordem para desistir,
mas nenhuma veio, e a visão de
milhares de homens, todos os 6 tripulantes
batiam continência para os superiores, fechavam
sua respectiva escotilha e desciam para
o mar, e afundavam, até que todos os 25 tanques
tivessem desaparecido,
eles tinham olhos
vagos, morreram rindo, ou o quê? sobre o que
eles conversavam, aqueles homens
enquanto a água entrava?

o general era o seu amor?

 

Quatro
Um interrogatório falso

Você já segurou a mão de uma mulher?

Sim, muitas vezes – mulheres prestes a parir, mulheres prestes a terem os
seios retirados, os úteros retirados, prestes a sofrer um aborto,mulheres
com ataques epilépticos, com asma, câncer, mulheres cuja medula do
tórax estava sendo extraída por residentes nervosos ou indiferentes,
mulheres com problemas cardíacos, que estavam vomitando, tendo
overdoses, que estavam deprimidas, bêbadas, solitárias a ponto de
extinção: mulheres que haviam sido atropeladas, espancadas.
abandonadas. que estavam famintas. mulheres que haviam sido mordidas
por ratos; e mulheres que estavam felizes, que estavam comemorando,
que dançavam comigo em grandes círculos ou sozinhas, mulheres que
subiam montanhas ou subindo e descendo paredes, ou caminhões e telhados
e precisavam de uma ajuda, ou eu precisava; mulheres que simplesmente
queriam segurar a minha mão porque gostavam de mim, algumas
mulheres queriam segurar minha mão porque gostavam mais de mim do
que qualquer outra pessoa.

Foram muitas mulheres?

Sim. muitas.

E quanto aos beijos? Você já beijou mulheres?

Já beijei muitas mulheres.

Qual foi a primeira mulher que você beijou com sentimento?

A primeira mulher que beijei foi Josie, que amei de longe por muitos
meses. Josie não era só bonita, era durona e atraente também. Josie tinha
cabelos pretos e dentes brancos e músculos fortes de pele marrom. Daí ela
abandonou a escola sem explicação. Quando voltou foi só por um dia,
para terminar o semestre, e tinha uma criança ​nela.​ Ela era toda vergonha,
dor e rebeldia. Seus olhos estavam escuros como a água debaixo de uma
ponte e ninguém falava com ela, riam e atiravam coisas nela. À tarde
atravessei a frente da sala e olhei bem nos fundos dos olhos de Josie e
peguei o queixo dela com a minha mão, porque eu a amava, porque nada
parecido com o problema dela aconteceria comigo, nunca, porque eu
odiava que ela estivesse grávida e infeliz, e fosse uma pária. Nós tínhamos
treze anos.

Você não a beijou?

Como é ter treze anos e ter um bebê?

Você não a beijou mesmo?

Não de verdade.

Você já beijou outras mulheres?

Sim, muitas, algumas das melhores mulheres que conheço eu já beijei,
mulheres solitárias, mulheres que não conhecia e que não queria conhecer,
mas beijei porque era uma maneira de dizer sim nós ainda estamos vivas e
somos dignas de amor, ainda que separadas, mulheres que reconheciam
uma solidão em mim, mulheres feridas, confesso ter beijado o topo da
cabeça de uma mulher de 55 anos na neve em Boston, que foi ferida mais
fundo do que eu jamais fui, e eu a quis como muito poucas pessoas me
quiseram – eu quis que ela e eu possuíssemos e controlássemos e
governássemos a cidade em que morávamos, que escolhêssemos os
funcionários do hospital que eu sabia que a maltrataria, que
administrássemos o sistema de transporte que a havia traído, que
patrulhássemos as ruas para controlar os homens que nos matariam ou
desfigurariam ou nos perturbariam, não acidentalmente com máquinas,
mas de propósito, porque não nos é permitido estar nas ruas sozinhas –

Você já cometeu algum ato indecente com mulheres?

Sim, muitos. Sou culpada de permitir que mulheres suicidas morressem
diante dos meus olhos ou em meus ouvidos ou sob minhas mãos porque
eu achava que não poderia fazer nada. Sou culpada de abandonar uma
prostituta que encostou uma faca na garganta da minha amiga porque não
queríamos dormir com ela, nós a achávamos velha e gorda e feia; sou
culpada de não amar aquela que precisava de mim; eu me arrependo de
todas as mulheres com quem não dormi ou que não confortei, que se
afastaram de mim por falta de algo pelo qual não tive coragem de lutar,
por nós, nossa vida, nosso planeta, nossa cidade, nossa carne com batatas,
nosso amor. Estes são atos indecentes, aos quais falta coragem, falta um
certo fogo por trás dos olhos, que é o símbolo, o punho levantado, a
partilha de recursos, a resistência que diz à morte que ela vai morrer por
falta da nossa fartura, do nosso extra. Sim eu cometi atos de indecência
com mulheres e a maioria foram atos de omissão. Eu me arrependo deles
amargamente.

 

Cinco
Abençoe este dia oh gato nossa casa

“Eu podia ir
a 3 lugares quando estava crescendo”, ela disse –
“3 lugares, nada mais.
havia uma linha reta da minha casa
para a escola, uma linha reta da minha casa
para a igreja, uma linha reta da minha casa
para o mercado da esquina.”
os pais achavam que algo poderia acontecer a ela.
mas nada nunca aconteceu.

os dentes do meu amor são gansos brancos voando sobre mim
os músculos do meu amor são escadas de corda sob as minhas mãos
nós somos o rio da vida e a fartura da terra
morte, está me dizendo que não posso tocar esta mulher?
se nós nos usarmos
uma à outra
é um pouco menos para você
um pouco menos para você, ah
morte, ah ah morte.

Abençoe este dia oh gato nossa casa
me ajude a não ser tão rato assim
a morte diz para a mulher ficar em casa
e depois arromba a janela.

Li isto em algum lugar, eu não estava lá:
na Europa feudal, se uma mulher cometesse adultério
o marido às vezes a amarrava
deitada, pegava um rato e o punha num copo
sob a sua barriga nua, para que
roesse até a saída, agora
você tem medo de ratos?

 

Seis
Vestida como estou, um cara jovem certa vez me xingou
em espanhol

uma mulher que conversa com a morte
é uma traidora suja

dentro de uma lanchonete e
vestida como estou, um cara jovem certa vez me xingou
em espanhol
depois me chamou de sapatão e me bateu.
primeiro eu achei que o teto tinha despencado
mas lá estava o atendente fazendo um sanduíche
de presunto, e lá estava eu estatelada
em seu balcão.

Pelo amor de Deus eu disse quando
consegui falar, esse cara está me batendo
você não pode chamar a polícia ou algo assim
você não pode pará-lo? ele levantou os olhos
do sanduíche que estava fazendo, que era o meu
sanduíche, eu tinha pedido. Ele gostou
de ver o meu estado. “Tem um orelhão
do outro lado da rua” ele disse.

Eu não podia ouvir a língua espanhola
por semanas depois disso, sem sentir o mais
assassino dos impulsos, a simples
associação de uma coisa a outra,
tão absurdamente simples.

No dia seguinte fui à delegacia
para me tornar uma cidadã ultrajada.
Seis policiais enormes estavam no saguão.
todos brancos e vestidos daquele jeito
ficaram muito satisfeitos com a minha história, satisfeitos
com o que perdi no meu espancamento, então
deixei-os rindo, fui rápido para casa
e tranquei a minha porta.
Durante muitas noites fantasiei a cena
de novo, desta vez agarrava uma cadeira e
quebrava-a na cabeça daquele filho da mãe,
matando-o. Chamei-o de latino de merda, e
matei-o. meu rosto sarou. o dele não.
nenhuma criança ​em​ mim.

agora quando me lembro eu penso:
talvez ​ele​ fosse o bebê da Josie.
tudo o que vai volta,
tudo.

 

Sete
Morte e desfiguração

Numa véspera de natal minhas amigas e eu
saímos do bar, dirigimos devagar para casa
tinha uma mulher caída na neve
na beira da estrada. Ela vestia
um roupão, mas não tinha sapatos, onde estavam
os sapatos dela? havia tingido de rosa
a neve sob seus pés. era uma mulher
asiática, não falava muito inglês, mas
disse que um taxista a espancou
e estuprou, e a jogou
para fora do carro.
que diabos ela estava fazendo ali
numa rua que ajudou a pagar
mas que não era dela?
não sabe ficar em casa?

Sou uma pervertida, por isso aprendi
a controlar minhas mãos em público
mas eu estava tão bêbada aquela noite,
que fiz algo carinhoso de verdade
eu a tomei em meus braços, essa mulher,
até que ela conseguisse respirar direito, e
minhas amigas também são pervertidas
elas também a tocaram
todas nós a tocamos.
“Você vai ficar bem”
a gente mentiu. Ela começou a chorar
“Tenho 55 anos” ela disse
e isso disse tudo.

Seis policiais enormes atenderam ao chamado
nenhuma criança ​neles​.
pareciam ter medo de tocá-la,
depois a agarraram feito um cadáver e a levantaram
na sua maca de metal até a camionete,
batendo em tudo, desajeitados.
Ela estava mais assustada do que antes.
eles eram frios e aborrecidos.
“não me deixe” ela disse.
“ela vai ficar bem” eles disseram.
nós a deixamos, como deixamos todos os nossos amores
como todos os amores deixam todos os amores
muito antes de conseguir amar de verdade.

 

Oito
um interrogatório falso

Porque você entrou no táxi dele, vestida desse jeito?

Queria ir a algum lugar.

Você sabia o que o taxista podia fazer
se você entrasse no táxi dele?

Só queria ir a um lugar.

Quantas vezes você
entrou no táxi dele?

Não me lembro.

Se não se lembra, como é que sabe o que aconteceu com você?

 

Nove
Ei você morte

ah e ah pobre morte
os dentes de nossos amores são gansos brancos voando sobre nós
os músculos de nossos amores são escadas de corda sob nossas mãos
mesmo que nenhuma mulher vá para o mar em navios ainda
exceto em seus sonhos.

só arrogantes inventam um final rápido e significativo
para si, de sua própria escolha.
todo o restante sabe como acontece devagar
como a existência da mulher dessangra seus anos,
como a criança espicha aos dez e é presa e envelhece
como o homem carrega uma carapaça assassina dentro de si
e a passa adiante.

nós somos a fartura da terra, e
todas temos nossa lista de vítimas

aos meus amores deixo
o restante da minha vida

que nada de mim sobre para você, ah morte
exceto algum adubo
para a nossa próxima geração
nós que não seguramos a sua mão
que não te abraçamos
que não tentamos trabalhar para você
nem nos sacrificamos nem confiamos
nem acreditamos em você, ah morte
sua ignorante, como sabe
que te acontecemos?

enquanto nossa carne pender dos nossos ossos
para o nosso uso próprio
sua panela estará tão vazia
morte, ah morte
você será pobre

 

Judy Grahn (1940-) é poeta, ativista, lésbica feminista e teórica cultural. Seus escritos têm ajudado a alimentar o ativismo queer e lésbico desde 1965. Em 1969 ela cofundou o Gay Women’s Liberation Movement e logo depois, The Women’s Press Collective, a primeira editora independente só de mulheres. Para mais informações, visite www.judygrahn.org.

 

2 comentários em “Uma Mulher fala com a Morte

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