A psicanálise de Edward a Sapatão

Judy Grahn: A psicanálise de Edward a Sapatão

tradução de Angélica Freitas

 

Atrás da porta marrom que ostentava as letras douradas do nome do Dr.
Merlin Knox, Edward a Sapatão estava deitada no sofá do médico, que era
tão luxuoso e comprido que seus pés nem chegavam a ficar pendurados da
beirada.

“Dr. Knox”, Edward começou, “meu problema esta semana tem a ver
principalmente com banheiros públicos”.

“Aahh”, suspirou o bom médico. Seriamente, fez um esboço rápido de um
banheiro em seu caderno.

“Naturalmente, não posso entrar em banheiros masculinos sem me sentir
uma intrusa, mas, por outro lado, toda vez que tento usar o banheiro das
mulheres eu me meto em problemas.”

“Hmmm”, disse o Dr. Knox, fazendo um esboço rápido de uma porta com a
inscrição “Mulheres”.

“Quatro dias atrás eu entrei no banheiro de um shopping e três donas de
casa de meia idade entraram e pensaram que eu era um homem. Assim que
expliquei a elas que eu era apenas uma sapatão inofensiva, o problema
começou…”

“Você as atacou compulsivamente.”

“Ah, pelo amor de Deus, não, nada disso. Uma delas abriu a torneira e
tentou me afogar com toalhas de papel molhadas, mas as outras duas
começaram a gritar alguma coisa sobre o quanto eu conhecia Gertrude
Stein e que tipo de roupa de baixo eu estava usando, e levaram as minhas
abotoaduras e minhas meias como suvenir. Elas enfiaram a minha cabeça
na lixeira e estavam cortando pedaços da parte de trás da minha camisa
quando por sorte um policial ouviu os meus gritos de socorro e entrou
correndo. Ele conseguiu desviar a atenção delas ao atirar em mim, me
dando assim uma chance de escapar pela janela.”

Cuidadosamente, Dr. Knox anotou em seu caderno: “Aparente tentativa de
suicídio após abordar garotas num banheiro público”. “Minha filha”, ele
murmurou em tom suave, “não tenha medo. Você precisa confiar em nós.
Vamos lhe curar dessa aflição mortal e antes mesmo que você se dê conta
estará toda fofa e maravilhosa com bebês lindos e um clube de bridge todo
seu”. Ele fez um rápido esboço de um clube de bridge. “Agora deixe-me
ver. Estimamos, acredito, que depois de apenas quatro anos de terapia
intensiva e dois anos de terapia antiintensiva, mais algumas pequenas
mudanças físicas, e você será exatamente a garotinha que sempre quisemos
que fosse.” Rapidamente, o Dr. Knox folheou um índice que estava em sua
mesa. “Sim, sim. Este ano o tamanho normal do sutiã é de 142 centímetros.
E da cintura, 31 centímetros. Nada que alguns hormônios bem aplicados
não possam fazer nesta época avançada. Qual era a sua altura mesmo?”

“Um metro e noventa e três”, respondeu Edward.

“Ah, tsc tsc.” Dr. Knox fez algumas contas. “Sim, infelizmente acho que
isso vai exigir a retirada de aproximadamente 20 centímetros de cada perna,
incluindo os joelhos… Ficar muito tempo de pé não lhe incomoda, certo,
querida?”

“Ãh”, disse Edward, sem conseguir se decidir.

“Eu lhe garanto que o cirurgião que tenho em mente para você é
extremamente bem-sucedido”. Ele se reclinou na cadeira. “Agora me diga,
rapidamente, o que a palavra ‘homossexualidade’ significa para você, em
suas próprias palavras.”

“Amor flores pérola, de braços deleitados. Quente e água. Derretimento de
um wafer de baunilha nas calças. Rosas de pétalas róseas a vibrar o orvalho
sobre os lábios, fruta macia e suculenta. Sem dentes. Sem cuspe
repugnante. Lábios mastigando ostras sem areia suja ou vibrissas.
Folhados. Biscoitos de gengibre. Pão quente, doce. Poesia de torrada de
canela. Justiça igualdade salários mais altos. Canção angelical
independente. Significa que posso fazer o que quiser.”

“Agora, minha querida”, Dr. Knox disse, “Sua doença está completamente
fora de controle. Nós, cientistas, obviamente sabemos que é uma
experiência altamente prazerosa colocar o pênis ou a vagina de alguém na
sua boca – é prazerosa e agradável. Todo mundo sabe disso. Mas depois de
você ter colocado mil pênis ou vaginas prazerosas na sua boca e mil
pessoas terem colocado o seu pênis ou vagina prazerosa em sua boca, o que
você terá conseguido com isso? O que tem para mostrar? Você tem uma
esposa e filhos ou um marido e um lar ou uma viagem para a Europa? Você
tem um clube de bridge para mostrar? Não! Você só tem mil experiências
prazerosas para mostrar. Você entende que não está conseguindo ver o
significado da vida? O quão sórdidas e depravadas são essas escapadas
clandestinas em parques e banheiros públicos? Eu lhe pergunto.”

“Mas senhor mas senhor”, disse Edward, “Eu sou uma não tenho
escapadas sexuais em parques ou banheiros públicos. Não tenho mil
amantes – tenho uma amante.”

“Sim sim.” Dr. Knox jogou as cinzas de seu charuto no chão. “Atenha-se
ao assunto, minha querida.”

“Estávamos na faculdade naquela época”, disse Edward. “Ela veio a mim
da névoa sedosa da meia-noite, suas sandálias se arrastavam como ladrões
de gado, seu cabelo esvoaçando ao vento como Gabriel. Deitada em meus
braços harpas tocavam docemente na luz seca do fogo. Oh Bach. Oh
Brahms. Oh Buxtehude. Como nos entendemos como impregnamos os
bosques de canários e periquitos, descalças na grama a despeito das
pombas, mas isso durou somente dez anos e ela desapareceu, puff! feito o
vento de um pastel.”

“Você vê que loucura são esses abraços breves, físicos. Mas me conte os
resultados da experiência que organizamos para você na última sessão.”

“Ah, sim. Meu encontro romântico verdadeiro. Bem, comprei um vestido e
uma peruca e um espartilho e um corpete de apertar. Fiz coisas
indescritíveis às minhas axilas com uma lâmina de barbear. Fiz o meu
cabelo e meu rosto e minhas unhas. Fiz o meu assado. Fiz o meu umbigo.”

“E então você se sentiu verdadeiramente feminina.”

“Eu me senti verdadeiramente imobilizada. Não podia mais correr,
caminhar, me curvar, abaixar, mexer meus braços ou afastar meus pés.”

“Bom, bom.”

“Bem, tudo correu muito bem durante o jantar, só que o meu par tinha
apenas 1,60 metro e ah sim. Um dos meus cílios caiu na sopa – não foi tão
ruim. Nem notei quando caiu. Mas daí o meu outro cílio caiu na manga do
meu par e ele passou cinco minutos tentando matá-lo.”

Edward suspirou. “Mas a pior parte foi quando nos levantamos para ir
embora. Eu me equilibrei nos meus saltos enquanto empurrava a cadeira
debaixo da mesa – eles tinham 7 centímetros, sabe, o que me deixava com
2 metros de altura, e com todo o meu peso naqueles saltinhos de nada…”

“Sim sim.”

“Cravei os saltos até o fundo daquele carpete grosso e não conseguia mais
me mexer. Ah, todo mundo foi legal comigo. Meu acompanhante se
ofereceu para pagar a conta e me ligar de manhã para saber como eu estava
e o gerente achou um serrotinho e tudo. Mas Dr. Knox, você precisa
entender que a minha roupa de baixo me imobilizava terrivelmente e fazia
calor no salão…”

“Sim sim.”

“Daí eu desmaiei. Não queria, mas desmaiei. Foi assim que quebrei os
meus tornozelos.”

Dr. Knox pigarreou. “Fica óbvio para mim, mocinha, que você não
conseguiu controlar a sua educação física.”

“Meu Deus”, disse Edward, olhando de relance para o seu fundilho “Eu
tomei banho antes de vir pra cá.”

“Esse seu erotismo oral sem dúvida está enraizado na Inveja do Pênis, que
se manifestou quando você deliberadamente castrou o seu par ao
envergonhá-lo em público.”

Edward gemeu. “Mas morangos. Mas torta de creme de limão.”

“Narcisismo”, disse Dr. Knox com voz monótona, “masoquismo, sadismo.
Admita que você quer matar a sua mãe.”

“Pássaro azul de marshmallow”, gemeu Edward, seus olhos revirando
lentamente. “Olhe para as estrelas. Abril em maio.”

“Admita que você quer possuir seu pai. Substituta da mãe. Mamada no
peito.”

“Metrô de biscoitos amanteigados”, Edward se retorceu, babando. “Verão
de salgueiro xoxota.”

“Admita que você tem uma personalidade esmegmática”, entoou Dr. Knox.

Edward rolou para o chão. “Eu sou vil! Eu sou vil!”

Dr. Knox acionou um interruptor à altura de seu cotovelo e imediatamente
a imagem de uma linda mulher apareceu numa tela sobre a cabeça de
Edward. O médico apertou outro interruptor e choques elétricos sacudiram
sua coluna vertebral. Edward gritou. Ele apertou outro interruptor,
interrompendo o fluxo de eletricidade. Outro interruptor, a foto de um
gigantesco órgão masculino ereto apareceu de repente, coberto de açúcar de
confeiteiro. Dr. Knox entregou um pirulito a Edward.

Ela se sentou. “Estou salva”, disse, lambendo o pirulito.

“Seu tempo acabou”, disse Dr. Knox. “Seu cheque, por favor. Volte na
semana que vem.”

“Sim senhor sim senhor”, Edward disse enquanto saía pela porta marrom.
Em seu caderno, Dr. Knox fez um rápido esboço do seu banco.

 

Judy Grahn (1940-) é poeta, ativista, lésbica feminista e teórica cultural. Seus escritos têm ajudado a alimentar o ativismo queer e lésbico desde 1965. Em 1969 ela cofundou o Gay Women’s Liberation Movement e logo depois, The Women’s Press Collective, a primeira editora independente só de mulheres.Para mais informações, visite www.judygrahn.org.

 

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