Making Gay History

1a Temporada – Episódio 9: Gittings & Lahusen

Tradução de Daniel Lühmann

 

Eu sou Eric Marcus e este é o Making Gay History.

Barbara Gittings e Kay Lahusen foram duas alegres guerreiras que batalharam abrindo caminho ao longo de décadas do movimento pelos direitos civis LGBT. Em duas visitas feitas na primavera e no verão de 1989, passei cinco horas com Barbara e Kay na aconchegante sala da casa delas na Filadélfia.

Barbara encontrou seu lugar no movimento em meados da década de 1950, e Kay encontrou Barbara em 1961. Juntas, elas dedicaram a maior parte de suas vidas a essa causa.

Eu não consigo fazer justiça a elas com a simples descrição dessas duas pessoas extraordinárias, então dê uma olhada nas fotografias do começo da vida delas em makinggayhistory.com. Isso vai dar nova alegria à sua tela.

 

Barbara Gittings e Kay Lahusen em uma festa em meados da década de 1970. Crédito: Harry R. Eberlin, Divisão de Manuscritos e Arquivos, Biblioteca Pública de Nova York.

 

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Transcrição da Entrevista

 

Eric: Entrevista com Barbara Gittings e Kay Tobin Lahusen, quarta-feira, 17 de maio de 1989, na casa de Barbara e Kay na Filadélfia, Pensilvânia. O entrevistador é Eric Marcus. Fita um, lado um.

Barbara: Kay. Kay.

Kay: Sim, o que foi?

Barbara: Preciso de café.

Kay: Estou fazendo agora mesmo.

Barbara: E temos que pegar as frutas que estão na varanda da entrada.

Eric: O motivo pelo qual quero perguntar para vocês sobre… Vou deixar o Americans for Gay Rights [Americanxs pelos Direitos Gays] para a próxima vez.

Barbara: Traga algumas das tigelas azuis. Traga a tigela de frutas da… e tem umas facas que deixei pra fora. Cuide aí do seu assovio… Isso nunca falha. Eu sou uma pessoa musical. Queria uma chaleira que assovia, acabei com uma que grita.

Eric: Nós temos uma chaleira harmônica.

Barbara: Olha só! O que ela faz? Quartos de Westminster?

 

Eric Marcus com Barbara Gittings em casa na região oeste da Filadélfia, Pensilvânia, 17 de maio de 1989. Crédito: Kay Tobin Lahusen.

 

Eric: É pavoroso. Ela é fora do tom.

Quando foi que vocês duas se conheceram?

Barbara: 1961. Em um piquenique em Rhode Island cujo objetivo era de reunir algumas mulheres para tentar começar um comitê da Daughter of Billitis [primeira organização a lutar pelos direitos das lésbicas nos EUA] na região da Nova Inglaterra.

Eric: Você se lembra do que pensou na primeira vez que viu a Barbara?

Kay: A primeira vez que a vi, pensei que ela era uma pessoa muito interessante. Fiquei bem atraída por ela.

Eric: E você?

Barbara: E eu fiquei atraída por ela. Calhou de eu atender a porta quando ela tocou a campainha pra esse piquenique. E eu fiquei muito atraída porque aquilo não era nem de longe o que eu esperava.

Kay: Acho que ela esperava encontrar uma velhinha tímida, quando eu apareci.

Barbara: Porque eu sabia que ela trabalhava na Christian Science Monitor e os estereótipos na minha cabeça me faziam esperar uma pessoa mais pra tímida e austera e ela era… tudo menos isso quando ela apareceu naquela porta. Sabe, cores vivas e alegres, cabelos vermelhos. Apenas terrivelmente atraente. E começamos a conversar e tagarelar sem parar e…

Eric: E isso foi… Você estava vindo de onde na época? Vindo de visita de qual cidade?

Kay: Bom, eu morava em Boston.

Barbara: Eu escrevi para todas as mulheres do mailing das DOB que estavam a um raio de 150 quilômetros de Rhode Island convidando-as para começar um comitê por lá.

Eric: Isso sim é um convite fortuito.

Barbara: Sim, bem isso, acabou por trazê-la para a minha vida.

Kay: Bom, naquela época, Eric, você precisa entender que tinha, sabe, cinco pessoas possíveis para o comitê de Rhode Island. Quer dizer, era quase nada, só um…

Barbara: Acho que tínhamos ao todo umas doze ou quinze pessoas nesse piquenique, e isso era um grande comparecimento. Um comparecimento imenso naquela época.

Kay: Tinha tudo isso mesmo?

Barbara: Acho que era algo assim.

Eric: Que tipos de pessoas apareceram no piquenique?

Kay: Com certeza éramos uma turma bem embaralhada naquela época.

Eric: Mulheres casadas apareceram?

Barbara: Mulheres casadas? É possível. Não me lembro de ninguém assim de cabeça daquela ocasião específica…

Kay: A Marge e o amor sem esperanças que ela tinha pela Jan. A Jan não correspondia. Uma mulher mais velha que não estava com ninguém, mas falou para a Barbara ir atrás de mim, que eu era bem gatinha. Aquilo me deu nos nervos.

Barbara: Ah sim. Virou uma piada constante entre a gente desde então.

Kay: Francamente, Eric, naqueles dias de início do movimento, as pessoas que apareciam eram no geral bem esquisitonas.

Eric: Por que isso?

Kay: Porque no início do movimento era uma coisa muito impopular. Era algo não conforme numa época em que a maioria das pessoas gays estava tentando se misturar e passar desapercebida.

Eric: Você estava dizendo que vocês tinham que ser meio…

Barbara: Sim, tinha que ser meio fora do convencional para se dispor a sair do armário em reuniões de um grupo desses.

Kay: E você tinha que ter algum motivo para protestar, apesar do preço que isso poderia te custar.

Eric: E vocês começaram como?

Barbara: O que me iniciou no movimento foi que, em 1953 ou coisa assim, encontrei um livro chamado The Homosexual in America: A Subjective Approach [O homossexual na América: uma abordagem subjetiva], de Donald Webster Cory. O livro dele era meio um grito de guerra. Ele dizia que tínhamos que trabalhar para conseguir nossa igualdade e nossos direitos civis. Daí o conheci e descobri com ele que havia organizações de pessoas homossexuais e…

Eric: Isso foi uma revelação deslumbrante, imagino?

Barbara: Sim, sim, eu não sabia que havia grupos assim.

Kay: Estamos usando o termo da época, homossexual.

Barbara: E não gay. Gay só viria a aparecer no fim dos anos 1960.

Eric: O termo lésbica era usado na época?

Barbara: Sim, mas não tanto assim.

Kay: Bom, estava na carta de intenção das DOB, querida.

Barbara: As “variantes”.

Kay: Ah, as variantes, era isso.

Barbara: As variantes. Elas não se chamavam de lésbicas. Elas se chamavam de variantes. Nunca, nunca.

Kay: Tinha me esquecido disso.

Eric: As variantes.

Barbara: Mas enfim, descobri com o Cory sobre a existência de uma organização chamada ONE, Incorporated, em Los Angeles. E, veja só, nas férias seguintes me organizei para pegar um avião até Los Angeles. E eles me contaram sobre a Mattachine Society em São Francisco, daí pulei em outro avião e fui até São Francisco, falei com elas e elas me contaram das Daughters of Billitis (DOB), que tinham se juntado um ano antes e estavam para começar uma revista.

Eric: Que foi fundada por…

Barbara: Oito mulheres, incluindo a Del Martin e a Phyllis Lyon. Eu aceitei de fato um convite para vir a uma reunião e, de repente, me vi numa sala com uma configuração social normal junto de outras doze lésbicas e foi uma experiência maravilhosa. Eu só fiquei lá sentada, me deleitando com elas. Não era uma configuração de bar. Eram mulheres legais. E isso fez muita diferença. Mas só me juntei às Daughter of Bilitis dois anos depois, em 1958.

Eric: Então, em 1958 você decidiu, e o que te levou a isso?

Barbara: Fui convidada pela Del e a Phyllis em São Francisco para ajudar a começar um comitê em Nova York. Acho que elas me identificaram como alguém que estaria disposta a encarar e tocar essa empreitada um pouco.

Eric: Quantas pessoas tinha no comitê de Nova York quando você começou?

Barbara: Integrantes oficiais? Acho que tinha umas dez. Estou chutando.

Eric: Em toda a cidade de Nova York.

Barbara: Integrantes oficiais, sim, mas tinha muito mais gente nos eventos sociais, nas falas públicas.

Kay: Uma trinta, trinta e cinco se tivéssemos sorte.

Barbara: Isso era muito.

Kay: Isso era muito.

Barbara: Isso era muito para um pessoal invisível em uma época em que você mal podia colocar o nariz pra fora.

Kay: As Daughters of Bilitis não tinham grandes falas públicas. A Mattachine tinha, e nós, integrantes das Daughters of Bilitis, íamos a esses eventos.

Barbara: E às vezes nós fazíamos juntas, daí juntávamos forças com a Mattachine para colocar nossos nomes em algo.

Kay: E geralmente era alguma fala sobre leis e mudanças de leis.

Barbara: Ou sobre mudar a homossexualidade.

Kay: Ou então algum psicoterapeuta ou analista.

Barbara: Algum analista procurando clientes ou gente para curar, normalmente.

Kay: Ou algum terapeuta gay que ainda não tinha saído do armário e que tinha acabado de escrever um artigo acadêmico a respeito…

Barbara: Ou então tinha…

Kay: O Fritz, do que ele costumava falar? De macacos e coisas assim. Homossexualidade e animais.

Barbara: Essas falas eram mesmo pretextos…

Kay: …para se juntar…

Barbara: Para se juntar e deixar as pessoas saírem do armário um pouco. O conteúdo da fala não importava tanto assim. O que precisávamos mesmo era do reconhecimento que tivemos dessas pessoas que eram nomes importantes na lei e no ministério e em profissões ligadas à saúde mental. Eles tinham uma credencial e estavam dispostos a vir e se dirigir a uma reunião nossa em vez de nos ignorar completamente. Isso era importante.

Eric: O simples fato de comparecer.

Barbara: O simples fato de comparecer e reconhecer nossa existência enquanto público legítimo. Isso nos deu um gás.

Kay: A maioria das pessoas gays em Nova York que tinham alguma renda viam um terapeuta. E era realmente algo isso de tentar tirar as pessoas de toda essa coisa de terapia.

Eric: O que os terapeutas diziam na época?

Kay: Geralmente tentavam curar as pessoas.

Eric: Consertá-las.

Kay: Veja, eu decidi aos dezoito anos que eu estava certa e o mundo estava errado. Mas as pessoas que estavam em Nova York estavam naquela panelinha intelectual de lá e a teoria que circulava na época era que você estava doente e devia procurar um médico e ser mudada. Análise profunda. Descobrir o que deu errado na sua infância e assim por diante. Não tinha muita gente que simplesmente pensava por si só e considerava tudo isso um monte de asneira.

Barbara: Mas, de todo modo, nós fazíamos esses eventos e aí as Daughters of Bilitis tinham seus próprios eventos sociais e o que eram as chamadas “Gab ‘n Java” sessions, literalmente, pra bater papo e tomar café.

E tinha um tópico de discussão para cada noite. Tópicos como contar para seus pais. Ir ao terapeuta. Questões legais. Problemas legais. O que fosse do momento…

Kay: Se lésbicas deviam usar saias.

Barbara: Ah sim. Aceitação por parte do mundo em geral.

Eric: Se lésbicas deviam usar saias?

Barbara: Pois é, isso era um grande assunto.

Kay: A Gus falava sem parar sobre o terapeuta dela e o que ele tinha dito. A terapia era…

Barbara: Muito importante.

Kay: …uma coisa primordial naquela época. Reformas de leis e políticas eram coisas secundárias…

Barbara: E, ainda assim, obviamente eu estava começando a ficar mais confiante quanto a protestar. Não dava pra evitar. No entanto, eu ainda não tinha uma noção muito clara do que estávamos fazendo e por que estávamos fazendo. Nós meio que íamos gaguejando, mas seguíamos em frente. Se você me perguntasse, eu provavelmente não seria capaz de dizer com muita clareza.

Eric: Quando vocês desenvolveram uma consciência…

Barbara: Bom, a Kay era de grande ajuda, porque a Kay tinha uma ideia muito, muito clara, e ideias bastante definidas sobre o mundo, muito mais…

Kay: O pessoal da Mattachine pressionava mais. No fim das contas, se instalaram num bar e exigiram ser servidos.

Eric: Isso eram os sip in. Entrevistei algumas pessoas sobre esse evento, incluindo o Dick Leitsch.

Kay: E isso foi muito importante.

Barbara: Bom, e nós fomos em frente. Isso coincidiu…

Kay: O Randy Wicker foi o primeiro a fazer piquete.

Barbara: Ele fez no White Hall Induction Center em 1962 ou 1963. Isso.

Kay: Tudo era muito empolgante.

Barbara: E foi assim que a coisa começou a chegar até mim…

Kay: Mas acho que mesmo antes do ativismo de fato, Barbara e eu estávamos infelizes com a postura das Daughters of Bilitis.

Barbara: Era uma atitude meio de professora dando bronca.

Kay: Era, tipo, agora é melhor vocês lésbicas colocarem uma saia, entrar nos eixos, arrumar um emprego e ir trabalhar de nove às cinco.

Barbara: …e tornar-se aceitáveis para o mundo…

Kay: E tornar-se aceitáveis…

Barbara: …daí vocês podem esperar algo do mundo de volta. Era uma coisa de dar bronca em lésbica lerda.

Kay: Isso.

Barbara: E a gente não, de algum jeito isso não colava direito com a gente.

Kay: Era direcionado para as boas de vida que davam pinta no bar gay o dia inteiro e…

Barbara: …a gente não conhecia nenhuma dessas.

Kay: Como se isso fosse…

Barbara: …a maioria de nós…

Kay: …a maioria de nós. Enquanto a maioria de nós estava de fato usando saias e se encaixando até que demais.

Barbara: Isso. É muito doloroso usar essa máscara.

Kay: Eu sei que eu fazia isso no The Monitor. Usava saia todo dia e me encaixava um pouco além da conta. A gente não gostava daquilo, achava muito degradante e também muito inapropriado.

Barbara: E eu tinha a impressão de que a cada convenção nacional das Daughters of Bilitis a Kay e eu chegávamos com propostas radicais que sempre eram derrubadas.

Kay: Nós queríamos mudar o nome da revista.

Barbara: Nós queríamos afiliação para homens, afiliação de associados para homens. Queríamos mudar o nome da revista. Queríamos mudar a composição do conselho nacional.

Kay: A revista se chamava The Ladder [A escada] porque esperavam que você subisse na escada…

 

Primeira edição da revista The Ladder, 1956. Cortesia: Lesbian Herstory Archives.

 

Barbara: Você chegou a ver a capa das primeiras edições?

Kay: …e adentrasse a raça humana de um jeito ok.

Barbara: Muito mal desenhado. As primeiras seis edições ou coisa assim tinham essa imagem, uma escada, literalmente, saindo de um pântano todo lamacento com umas figuras vagamente humanoides lá embaixo e essa escada que subia para as nuvens e ia entrando no céu.

Kay: A lesbiquinha está começando a subir a escada, fazendo um upgrade para que um dia se torne uma pessoa ok em vez de uma variante que tem uma autoimagem precária, que não trabalha de nove às cinco, que não tem emprego fixo, que não é integrante ativa da sociedade, como se já não tivesse milhares de lésbicas que…

Barbara: …se encaixavam bem até demais.

Kay: …grandes contribuidoras para a sociedade. Nenhum reconhecimento delas.

Barbara: O que elas precisavam era de apoio. Ajudar a tirar os preconceituosos das suas costas e ter meios de encontrar outras lésbicas. Elas não precisavam dessa…

Kay: Bronca.

Barbara: …desse ensinamento. Elas não precisavam ser ensinadas. Elas realmente não precisavam aprender tanto assim sobre si mesmas. Mas a educação das variantes era um dos grandes assuntos entre as Daughters of Bilitis. Bom, a gente estava meio que se coçando debaixo disso tudo, mas mesmo assim ficamos com as Daughters of Bilitis por vários anos, especialmente porque as DOB estavam se juntando a vários outros grupos gays do leste dos EUA para formar a chamada ECHO – East Coast Homophile Organizations [Organizações Homófilas da Costa Leste]. O tema homófilo era toda uma coisa no fim dos anos 1950 e começo dos 1960.

Kay: Homossexual era considerado clínico demais. Então tentaram fazer esse termo pegar, o que continua soando clínico.

Barbara: Esse foi o termo que propuseram. Também era pensado para indicar que você podia ser heterossexual e apoiar a organização e fazer parte dela.

Kay: A teoria era que você podia escolher seu próprio termo, mas isso nunca pegou de fato.

Barbara: Enfim, nós conhecemos o Frank Kameny em uma das conferências da ECHO…

Eric: Isso no começo dos anos 1960.

Barbara: Começo dos anos 1960. Ele era fantástico. Tinha passagem pela prisão. Era astrônomo e físico.

Kay: Você leu o capítulo que escrevi sobre ele [em The Gay Crusaders]? Ele é tão excêntrico que você tem que acabar perdoando muita coisa.

Eric: Eu o conheci.

Kay: Ele vale a pena.

Barbara: Mas era uma grande influência para mim, porque ele tinha uma visão tão clara e convincente do que o movimento devia fazer e eu apenas…

Eric: E isso era…

Barbara: Era que a gente devia estar se manifestando e pedindo plena igualdade e plenos direitos e que fosse pro inferno essa história de doença. Eles que colocavam essa etiqueta em nós. Eles que precisavam justificar isso. Eles que justifiquem o que quiser. Nós não vamos ajudá-los.

Kay: Daí o fardo das provas fica com eles. Na falta de evidências válidas provando o contrário, a homossexualidade não é uma doença, deficiência, blablablá.

Barbara: …mau funcionamento, distúrbio de qualquer tipo. Está totalmente no mesmo nível que a heterossexualidade e é totalmente igual a ela. E quando aventamos isso como uma…

Kay: …crença…

Barbara: Sim, como uma crença do movimento em 1964, foi a coisa mais radical que tinha surgido.

Eric: E as DOB disseram: “Não, nós não podemos nos posicionar nisso.”

Barbara: As DOB eram um dos grupos que não se bicavam com isso.

Eric: Elas diziam: “Ninguém vai nos ouvir. Temos que conseguir que os profissionais digam que somos ok.”

Barbara: Não podemos dizer por conta própria.

Kay: “Então é melhor a gente ajudá-los com as pesquisas deles e essas coisas todas. E quando os profissionais disserem que a gente está ok, daí o mundo irá aceitar.” E o Frank dizia: “Isso é bobagem.” Ele dizia: “Se nós nos erguermos e dissermos: ‘Nós estamos certos’ e ninguém ouvir, não vamos perder nada. Mas se alguém ouvir, teremos ganhado alguma coisa.”

Barbara: Nem que seja só uma pessoa gay que precisa de um pouco de encorajamento.

Kay: Nem que sejam só pessoas gays que ouçam, nós ainda teremos ganhado alguma coisa. De repente, fomos catapultadas para dentro desse vaivém intelectual vigoroso, enquanto as DOB estavam atoladas na lama de querer dar um upgrade nas variantes, e nós estávamos mandando tudo isso pro inferno, não tem nada de errado com as variantes, o problema é com a sociedade.

Barbara: Isso aí. Essa foi a mudança que o Frank ajudou a colocar em foco pra gente.

Kay: Bom, foi ele que embalou a coisa toda.

Barbara: Foi mesmo. Ele que vendeu isso. Quer dizer, ele realmente pressionou por essa aceitação por parte das organizações afiliadas à ECHO nas reuniões deles.

Kay: Claro que isso era uma aliança muito agitada, porque as DOB não estavam prontas para se juntar a essa coisa toda. Porque uma coisa eram os intelectuais da Costa Leste versus São Francisco, onde tinha esses cafés e encontros legais e essa coisa toda, entende? E a Florence disse…

Eric: Florence Konrad…

Kay: Sim, “Isso não é o tipo de assunto que pode ser anunciado igual pasta de dente.” E o Frank disse: “Infelizmente, isso pode sim ser anunciado igual pasta de dente.” Bom, pobres das DOB. Elas nunca tinham sido agarradas pelos seus cabelos curtos e sacudidas daquele jeito na vida delas, essas moças de São Francisco.

Barbara: Mas o que aconteceu foi que a gente estava editando a The Ladder por volta daquela época.

Kay: Bom, a Barbara era a editora.

Barbara: Eu era a editora indicada. Na verdade, nós duas trabalhávamos nisso.

Eric: Da The Ladder

Kay: E, Eric, a gente mesma saía distribuindo. Íamos em bancas. A gente tinha…

Barbara: E íamos a livrarias. Só dois lugares em Nova York aceitavam. Tentamos alguns distribuidores. Eles nem tocavam nas revistas.

Kay: Esse era um trabalho de amor. Você tem que se dar conta de que está falando com duas fanáticas aqui.

Barbara: Quer dizer, a gente gastava nosso dinheiro de gasolina e tudo mais para fazer isso.

Kay: A gente vivia com uma ninharia. A gente é, tipo, a senhorinha de tênis – usando um termo sexista, “senhorinha”. Tem uma senhorinha de tênis aqui, nas redondezas, que fica do lado de fora do supermercado distribuindo seus panfletos socialistas o tempo todo. Isso somos nós no movimento gay. Entende o que quero dizer? Velhinhas de tênis vivendo com nada. Totalmente fanáticas. Pegas por uma causa.

Barbara: Você fica pega nisso e tem uma recompensa tremenda. Claro que tem contratempos, mas tem uma satisfação em ver a realização, em ver o progresso avançando. Para cada contratempo, demos três grandes passos à frente.

Kay: Eu não faria nada diferente.

Barbara: Eu não consigo imaginar não ser gay. Como teria sido a vida? Besta? Deprimente? Decrépita?

Kay: A Barbara gosta de dizer que ela adora organizações e que teria se juntado à causa da preservação ambiental…

Barbara: Ah, isso é verdade…

Kay: …salve a floresta, salve as baleias, alguma coisa assim.

Barbara: Ah, claro, mas o movimento gay é muito mais divertido.

Eric: Obrigado a vocês duas mais uma vez.

Barbara: Eu me diverti tanto.

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Se parece que o trabalho de Barbara e Kay na The Ladder foi só uma etapa de aquecimento do ativismo delas, bem, é porque foi isso mesmo. Em 1965 elas estavam na linha de frente na Casa Branca e no Pentágono junto com Frank Kameny para alguns dos primeiros protestos públicos feitos por pessoas gays.

E mesmo aqueles protestos históricos foram apenas um prelúdio ao que Barbara e Kay fizeram depois do levante de Stonewall. Mas essas histórias ainda vão esperar a segunda temporada de Making Gay History, quando teremos outro episódio com Barbara e Kay.

Barbara morreu em 18 de fevereiro de 2007. Ela tinha 74 anos. Kay vive em uma unidade de acompanhamento nos subúrbios da Filadélfia. Ela tem 90 anos.

Como sempre, agradecemos nossa produtora executiva Sara Burningham, nosso engenheiro de som Casey Holford, nossa guru das mídias sociais Hannah Moch, nosso webmaster Jonathan Dozier-Ezell e nosso pesquisador Zachary Seltzer. Tivemos apoio de produção de Jenna Weiss-Berman e a música tema é uma composição de Fritz Myers.

Making Gay History é uma coprodução da Pineapple Street Media, com apoio do departamento de arquivos e manuscritos da Biblioteca Pública de Nova York e da ONE Archives Foundation.

O financiamento é da Arcus Foundation. Saiba mais sobre a Arcus e seus parceiros em ArcusFoundation.org.

O Making Gay History também é realizado com apoio da Ford Foundation, que está na dianteira das mudanças sociais no mundo todo.

Se você gostou do que ouviu, e esperamos que sim, assine o Making Gay History no iTunes, Stitcher ou onde quer que você ouça seus podcasts. Nossos episódios também estão disponíveis em www.makinggayhistory.com.

Até mais. Nos vemos numa próxima.

1a Temporada – Episódio 9 – Gittings & Lahusen é uma cortesia do Making Gay History. Encontre o podcast Making Gay History em todas as principais plataformas de podcast e em www.makinggayhistory.com.

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