Making Gay History

1a & 3a Temporada – Episódio 1: Sylvia Rivera

Tradução de Daniel Lühmann

 

Oi, aqui é Eric Marcus com o podcast Making Gay History. A cada semana, mergulhamos nas minhas pilhas de fitas cassete para compartilhar com você as vozes da história LGBTQ.

Em nosso primeiro episódio, você conhecerá Sylvia Rivera. Ela foi uma icônica ativista trans que calhou de estar no Stonewall em 28 de junho de 1969, na noite em que ocorreu a grande revolta.

Nunca vou me esquecer de quando vi Sylvia pela primeira vez. Eu estava parado em frente à entrada de seu prédio degradado em uma cidade ribeirinha no estado de Nova York. E ela estava no alto daquelas escadarias bambas sob o brilho de uma simples lâmpada. Ela tinha traços muito fortes: maçãs do rosto altas, olhos bem separados, um sorriso de dentes espaçados. Ela estava usando roupas que minha irmã teria usado na década de 1970 se tivesse coragem para tanto. Era uma miniblusa preta, trançada na cintura, sobre uma segunda pele bastante justa também preta, colocada para dentro de uma calça de lycra bem rosa cujas pernas entravam por dentro de suas botas até a altura dos joelhos com saltos largos. Não sei se foi a combinação do rosto dela com a maquiagem e os cabelos, ou se foi o look, ou ainda a luz, mas eu fiquei assustado pra burro.

Eu estava de parca laranja bem comprida e calça de veludo cotelê verde, com cara de quem tinha acabado de sair da linha F do trem vindo do Queens, que é de onde eu venho mesmo.

Foi então que recobrei meu fôlego, subi as escadas e Sylvia me recebeu em sua cozinha toda vaporosa. Todas as janelas estavam embaçadas. Ela me apresentou seu namorado, que era o cara mais desinteressante que você pode imaginar, especialmente ao lado da Sylvia. E sentado numa cadeira ao lado estava seu amigo Rennie, que era o oposto da Sylvia. Cabelo bem curtinho, camisa de lenhador, macacão e botas de trabalho.

Uma panela cozinhava um chile no fogão. Tinha uma garrafa de vodca quase vazia em cima da mesa. Não me lembro agora se ela me ofereceu um trago ou não, mas eu sofro do que chamo de Síndrome do Fígado Judeu e uma simples colher de sopa de vodca me colocaria no chão. A Sylvia não.

Daí eu me situei, coloquei o microfone na miniblusa da Sylvia e botei o gravador pra funcionar.

Nesta fita vocês vão me ouvir chamar a Sylvia de “Ray”, que era o nome que ela usava na época.

 

Sylvia Rivera, 1994. Foto de Harvey Wang (para o livro “Holding On: Dreamers, Visionaries, Eccentrics and other American Heroes”, publicado em 1995 pela W.W. Norton & Co.).

 

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Transcrição da Entrevista

 

Eric: Entrevista com Ray Rivera, sábado, 9 de dezembro de 1989, às quatro da tarde. O local é a casa de Ray Rivera em Tarrytown, Nova York. O entrevistador é Eric Marcus. Fita 1, lado 1.

Sylvia: O Stonewall não era um bar de drag queens. Todo mundo fica falando que era. E é aí que eu começo a brigar com as pessoas. Elas dizem: “Ah, não, era um bar das drag queens e dos negros.” Não, o bar da Washington Square era o bar das drag queens. Tudo bem, você podia entrar no Stonewall se eles te conhecessem, tinha apenas algumas drag queens que eram aceitas no Stonewall naquela época.

A gente tinha acabado de voltar de… de Washington, meu primeiro namorado e eu. Estávamos passando cheques falsos e tudo o mais. Mas estávamos ganhando um dinheiro bom. E daí, bem, vamos ao Stonewall. Vamos fazer o nosso rolê. Vamos lá, sabe. Na verdade, foi a primeira vez que eu coloquei meus pés na porra do Stonewall.

Eu não estava todo montada. Eu estava vestida, sabe, de um jeito muito agradável. Estava com um terno de mulher. Calças boca-de-sino era o que se usava. Eu tinha feito esse terno maravilhoso em casa e estava usando isso e com o cabelo solto. Muita maquiagem, muito cabelo.

Eric: Você estava bebendo no bar ou só dando uma pinta?

Sylvia: Não, eu estava bebendo. Aí veio a polícia. Eles vieram pegar o suborno deles, como de costume. Eles entravam e fechavam a porra da porta com cadeado. Logo que eles saíram, veio a máfia atravessando a porta, eles tinham um novo registro, tinham mais dinheiro e tinham mais goró. Era com isso que a gente tinha que aprender a viver na época. A gente tinha que viver com isso. A gente vivia com isso até aquele dia.

Não sei se foram os clientes ou se foi a polícia. Foi assim [estala os dedos], tudo começou.

Todo mundo ficou, tipo, por que caralhos a gente faz tudo isso? As pessoas nos bares, especialmente no Stonewall, estavam envolvidas em outros movimentos e todo mundo ficava meio, tipo, beleza, vamos fazer o nosso rolê. Vamos fazer isso. E quando botaram a gente pra fora, é legal, sabe, quando eles simplesmente te colocam pra fora muito gentilmente. E aí você fica lá parado do outro lado da rua no Sheridan Square Park e… Mas por quê? Por quê? De repente você sente essa coisa… todo mundo se olhando. Mas por que a gente tem ficar sempre aguentando essas coisas? Aí as moedas de um, de cinco, de dez e de vinte e cinco centavos começaram a voar.

Eric: Por quê? Por que isso aconteceu? Por que as pessoas fizeram isso?

Sylvia: O suborno. Era o suborno.

Eric: Oh… Oh, oh, oh.

Sylvia: Era o suborno.

Eric: Era para simbolizar o suborno

Sylvia: Isso. Você já…

Eric: Então toma mais um pouco?

Sylvia: Então toma mais um pouco. Estar lá, sabe… Foi uma coisa tão, nossa, foi tão bonito…

Eric: Foi empolgante?

Sylvia: Ah, foi muito empolgante. Foi tipo, nossa, a gente está fazendo isso. A gente está fazendo isso. Estamos botando pra foder com os nervos deles. Os policiais ficaram, tipo, eles ficaram em pânico. O inspetor Pine realmente ficou em pânico. Ficou mesmo. Além do mais, ele não tinha nenhum reforço. Ele sabia… Ele não esperava nada dessa retaliação feita pela comunidade gay naquele momento.

Eric: Você acha que tudo isso aconteceu em partes porque as pessoas estavam irritadas há muito tempo?

Sylvia: As pessoas estavam muito irritadas há muito tempo. Quer dizer, quanto tempo você aguenta viver no armário?

Eu já estava fora do armário.

Quando você era óbvio naquela época não tinha nada para te conter.

Era sempre o homem efeminado ou a mulher sapatão, sempre foi pra essas figuras que a sociedade olhou. Nós somos aqueles que fomos lá e não aceitamos merda nenhuma deles. Não tínhamos nada a perder. Na verdade, sabe, naquela época, eu entendo as pessoas que ficaram de cabeça baixa, porque eles provavelmente tinham ótimos empregos e uma família esperando em casa.

Eu nasci uma criança efeminada. Minha avó costumava voltar pra casa e me encontrar todo montado. Só que… Eu apanhava na bunda, claro, sabe como é. “A gente não faz isso. Você é um dos meninos. Eu quero que você seja mecânico.” E eu dizia não, mas eu quero ser cabeleireiro. Eu quero fazer isso. E quero usar essas roupas.

Eu nasci em 2 de julho de 1951, às 2h30 da manhã em um táxi no estacionamento do velho Lincoln Hospital. A bicha velha não podia esperar. Ela dizia: “Tô pronta pra cair na rua.” Minha avó sempre brincava com isso. Eu dizia: “É, você entende por que eu estou sempre na esquina. Foi porque… eu saí pelos pés primeiro.”

Eric: Foi mesmo?

Sylvia: Sim.

Eric: Então você caiu com os pés…

Sylvia: Eu estava pronta.

Eu sempre falo da minha avó porque minha mãe morreu quando eu tinha três anos. E foi ela que me criou. Foi minha avó que me criou até eu sair de casa.

Eric: E você saiu de casa aos dez anos.

Sylvia: Sim. Eu saí de casa com uns dez, dez anos e meio. Tinha quase onze.

O único motivo pelo qual eu saí de casa tão nova foi porque minha avó voltou pra casa chorando um dia, com os olhos molhados e dizendo: “Estão te chamando de pato.” O que significa veado em espanhol. Ela ficou muito machucada porque estavam fazendo isso comigo. E ela sabia de onde eu vinha. Ela sabia.

Eu tinha muito respeito pela minha avó. Não queria que ela sofresse. Não era o meu sofrimento. Eu estava preocupada com o sofrimento dela.

Eric: Como você sobreviveu nas ruas?

Sylvia: Virei prostituta. Você fica na rua e ganha dinheiro.

Eric: Com aquela idade.

Sylvia: Naquela idade era fácil ganhar dinheiro.

Não sei quantas vezes minha avó foi me tirar da cadeia. Ela estava lá. Ela sempre vinha, pra me soltar. Ela dizia: “Ah, esse é o meu neto. Preciso tirar ele daí.”

Eric: Por que você foi parar na cadeia?

Sylvia: Prostituição. Vagabundagem, essas porcarias. Nada demais, sabe.

Se você descesse a 42nd Street e se parecesse com um veado, ia pra cadeia.

Eric: Então você foi pra cadeia algumas vezes.

Sylvia: Ah, eu fui pra cadeia várias vezes.

A comunidade sempre fica envergonhada das suas drag queens.

Eric: Por que você acha isso?

Sylvia: Por que eu acho? Não, não é “por que eu acho”. Eu sei.

Eric: Tudo bem, por que você sabe disso?

Sylvia: Porque a sociedade hétero sempre te olha dizendo: “Ah, bem, uma bicha sempre se veste de drag” ou “ele é muito efeminado”. Você tem que ser quem você é. Fingir é tipo uma mulher de pele não tão escura ou um homem negro passando por branco. E eu me recuso a fingir.

Eric: Você não podia fingir.

Sylvia: Não, eu não podia fingir.

Eric: Não nesta vida.

Sylvia: Não, não nesta vida. Eu só gosto de ser eu mesma. É divertido ser… É divertido ser a Sylvia. É divertido jogar esse jogo.

 

Esta entrevista foi a única vez na vida que falei com a Sylvia. E sinto muito por não tê-lo feito de novo. Gostaria de ter podido.

Nos anos seguintes, a Sylvia lutou contra vícios e com a vida nas ruas. Ela morreu em 19 de fevereiro de 2002. Tinha 51 anos. Quando entrevistei Sylvia, ela falou sobre o quanto ela era velha e o quanto eu era jovem. Ela disse ter 39 na época. Acho que ela tinha 38, na verdade. E eu, 31. Agora estou com quase 60. E olhando para trás, para a idade que ela tinha quando morreu, 51 anos, ela parecia tão jovem.

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Sylvia Rivera – Parte 2

Aqui é Eric Marcus, seja bem-vindx à terceira temporada de Making Gay History!

Igual às duas temporadas anteriores, estou mergulhando no meu arquivo de décadas de gravações para trazer a você as vozes da história LGBTQ.

Para começar esta nova temporada, temos aqui a segunda parte da conversa que tive com Sylvia Rivera em 1989. Sylvia falou sobre suas memórias da revolta de Stonewall e de como ela saiu de casa em 1962, quando tinha apenas onze anos de idade. Se você ainda não ouviu esse episódio, recomendo que ouça.

Então, vamos para a segunda parte da conversa na cozinha do apartamento de Sylvia, em um prédio deteriorado em North Tarrytown, Nova York. É sábado à noite, 9 de dezembro de 1989. Rennie, a amiga de Sylvia, acabara de sair para trabalhar. De saída, Rennie pediu a Sylvia que lhe deixasse um pouco de bebida para quando ela voltasse. Sylvia promete que é óbvio que ela deixaria, mas assim que Rennie sai pela porta, Sylvia se serve outro copo generoso de vodca de uma garrafa já bem a caminho do fim. Frank, o namorado de Sylvia, está na sala ao lado vendo TV.

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Sylvia [para Frank]: Frank! O que você tá fazendo? Acabei de perceber, você vai ter que ir comprar molho de tomate pra mim. Esqueci de comprar o molho de tomate para o chile. Você pode ir comprar? E… o quê? Ah, pegue umas duas latas. Sim, latas grandes, não das pequenas. Não, Aunt Millie’s não. Eu preciso de molho de tomate, a gente não vai fazer macarrão.

Mas, não… Hum… Você pode vender qualquer coisa nas ruas. Pode vender homens, garotos, meninas. Sempre tem algum cliente por aí e eles é que são doentes.

Eu me lembro de voltar pra casa e ficar me esfregando em uma banheira de água quente. “Ah, essas pessoas me tocaram.” Quero dizer, esses devassos. Mesmo que não fossem velhos. Às vezes eles eram jovens. Eu me lembro de ir pra cama com caras que tinham vinte, vinte e um porque eles estavam me pagando. E eles queriam fazer o rolê deles.

Eric: Você sabia o que você era.

Sylvia: Eu sabia que eu era puta naquela época. Eu sabia que estava na rua pra ganhar dinheiro.

Eric: E esses caras fingiam que eram outra coisa, que te procuravam para…

Sylvia: Eles vinham pra realizar uma fantasia. Era isso. Era uma grande fantasia.

Eric: Como a polícia te tratava quando você era uma criança assim nas ruas?

Sylvia: A primeira vez que fui presa foi meio: “Tô indo pra onde?”

Eric: O que você tinha feito?

Sylvia: Você era uma bichinha.

Eric: Você estava vestida de mulher?

Sylvia: Bom, na época, quando eu comecei, eu usava roupa de mulher. Era o que chamam agora, mesmo isso que estou usando agora, de scare drag.

Eric: Scare drag? O que é isso?

Sylvia: O que estou usando agora. Você não coloca peito nem nada. Só passa um pouco de maquiagem. De cabelos soltos. Usando roupa de mulher. É isso que chamam de scare drag. Toda vez que eu ia parar na frente do juiz era “disfarce de mulher na região do rosto”.

Eric: Essa era a acusação.

Sylvia: Isso.

Eric: Disfarce de mulher na região do rosto. Ou seja, do pescoço para cima.

Sylvia: Uhum.

Eric: Isso é impressionante.

Sylvia: As leis eram muito estranhas naquela época.

Eric: Então, digamos, até 1969 você não estava envolvida com a luta pelos direitos dos gays nem nada disso, ou estava?

Sylvia: Antes do Stonewall eu estava envolvida no movimento de libertação dos negros, no movimento pela paz. Eu só sentia que eu tinha tempo pra isso e sabia que precisava fazer alguma coisa. E aí quando aconteceu o Stonewall…

Eric: Você tinha, vejamos, dezenove, dezoito anos na época…

Sylvia: Uhum.

Eric: Você ainda era uma criança pra maioria das pessoas.

Sylvia: Sim. Era como um negócio que deus tinha me mandado. Quer dizer, eu calhei de estar lá quando tudo estourou. Eu disse: “Bom, que ótimo, agora é minha vez.” Eu disse, “Olha só, eu tô aqui sendo revolucionária pra todo mundo, agora chegou a hora de fazer o meu negócio pelo meu povo.” E entrei para a GAA [Aliança de Ativistas Gays] e, naquele primeiro ano, quando estávamos fazendo uma petição pelos direitos dos gays, em 15 de abril daquele ano…

 

Sylvia Rivera (usando a letra “E”) com Marsha P. Johnson (usando a letra “Y”) e outros ativistas do Front de Libertação Gay em frente ao Tribunal Criminal em Nova York, início dos anos 1970. Crédito: © Diana Davies, cortesia do departamento de manuscritos e arquivos da Biblioteca Pública de Nova York.

 

Eric: Então foi em 1970?

Sylvia: Foi em 1970.

Eric: Entendi.

Sylvia: Fui presa por fazer uma petição pelos direitos dos gays na 42nd Street.

Eric: Você tinha uma petição… era para o…

Sylvia: Isso.

Eric: …para o projeto de lei municipal sobre direitos dos gays.

Sylvia: O projeto de lei municipal sobre direitos dos gays.

Eric: Quem você conseguiu que assinasse?

Sylvia: Eu estava pedindo pras pessoas assinarem no meio da 42nd Street.

Eric: Você estava vestida de drag?

Sylvia: Não, eu estava vestida normal. Maquiagem, você sabe, o cabelo e sei lá mais o quê.

Eric: Scare drag.

Sylvia: Os policiais chegaram em mim e disseram: “Não, não, não, não, você não pode fazer isso. Ou você vai embora ou vamos te prender.” E eu disse: “Tá bom, pode me prender.” Eles me pegaram muito gentilmente, me jogaram num carro da polícia e me levaram pra cadeia.

Eric: Por fazer uma petição.

Sylvia: É. Fui na frente do juiz. O juiz olhou para os dois policiais que me prenderam como quem diz: “Vocês não entenderam o que está acontecendo?” Sabe, dava pra ver na cara dele: “Bom, em primeiro lugar, vou soltá-lo.”

Eric: Ele disse para os policiais.

Sylvia: Uhum. Ele disse: “Vocês não entendem o que acabaram de fazer. O país inteiro está em alvoroço e vocês causando confusão com as pessoas…”

Eric: Que estão fazendo petições.

Sylvia: Sim. Pois é. E eu fiquei tipo: “Ah, tá bom.”

Eric: Você também participou de… teve um protesto na NYU [New York University].

Sylvia: Uma das ocupações. Essa foi uma das ocupações. A gente sempre fazia umas danças lá e de repente eles não queriam que a gente fizesse dança nenhuma. Daí, tudo bem, não vai ter dança. A gente dominou o Weinstein Hall. Foi uma bela ocupação de três ou quatro dias. Foi interessante.

Eric: Então você esteve lá.

Sylvia: Sim, eu estava lá. E meus irmãos e irmãs da comunidade gay não estavam apoiando tanto assim.

Eric: Não estavam te apoiando.

Sylvia: Não estavam apoiando nada que os rebaixasse. Naquela época, eu estava dormindo no parque. Porque eu já tinha abandonado meu emprego e tudo mais pelo movimento de libertação dos gays. Eu estava dormindo no Sheridan Square Park, entende? E o Bob Kohler veio e me disse: “Vamos fazer uma ocupação.” Ele era do GLF [Front de Libertação Gay]. Ele foi um dos três iniciadores do movimento pela libertação dos gays. E as pessoas que fizeram essa ocupação por três dias foi o meu povo, o pessoal da STAR. Nós estávamos lá e todo mundo diz: “Ah, mas isso é porque vocês não tinham onde morar.” Isso não é verdade, a gente podia ter feito um rolê e pegado um hotel. Mas nós estávamos lá por essas pessoas. A Marsha, eu e todo mundo. Quer dizer, quando eles vieram e nos expulsaram de lá não tinha ninguém além do que eles chamam de pessoas de rua. Ou pessoas da STAR.

Eric: A STAR já estava formada na época?

Sylvia: Na verdade, a STAR nasceu a partir dessa ocupação da NYU.

Eric: O que significa STAR?

Sylvia: Revolucionárias da Ação Travesti nas Ruas.

Eric: Qual foi o motivo para iniciar isso?

Sylvia: Meus irmãos e irmãs viviam usando a gente e a gente queria ficar por conta própria.

Eric: Quantas drags estavam envolvidas na STAR? Era um grupo pequeno, umas três, quatro?

Sylvia: Era muito pequeno.

Eric: Meia dúzia?

Sylvia: Era tipo… Tinha eu, Marsha Johnson, Bambi Lamour, Endora… Tinha várias mulheres lá. Bom, espere um minuto.

Eric: Era talvez uma meia dúzia.

Sylvia: Sim, uma meia dúzia. A Bebe. A Bebe fazia parte do meu grupo em determinada época.

 

Sylvia Rivera protestando na Catedral de St. Patrick com as ativistas da STAR, outono de 1970. Crédito: © Diana Davies, cortesia do departamento de manuscritos e arquivos da Biblioteca Pública de Nova York.

 

Eric: Você foi dar depoimento na prefeitura com a Bebe, pelo projeto de lei pelos direitos dos gays?

Sylvia: Ah não.

Eric: Me conte isso.

Sylvia: Heheheh…

Eric: Ouvi algumas histórias.

Sylvia: Heheheh… Ufa… E a senhorita June Bartel. Acho que deve ter sido a primeira vez que fomos. E, você sabe, eu dei o meu ponto de vista. E a Bebe se posicionou, deu o ponto de vista dela. Daí, depois disso, dissemos: “Bom, vamos bem tranquilas, sabe.” E fomos ao banheiro das mulheres. Bom, na verdade… Não, a gente foi ao banheiro das mulheres e não queriam deixar a gente entrar.

Eric: Isso foi a polícia.

Sylvia: Sim. “Tudo bem, nós não vamos entrar aí, vamos no banheiro masculino.” E aí fomos no banheiro masculino. Saímos. E, sabe, começamos a discutir em uma pequena fila. Não me lembro do nome do conselheiro. Ele disse: “E por que devo deixar meus filhos serem educados por essas pessoas, homens vestidos com roupa de mulher?” E a Bebe estava pra virar professora, entende? Aí nos ficamos: “Qual o problema desse homem?” Ele realmente deixou a gente pra baixo.

Então a June saiu do banheiro e foi andando até a frente da mesa do conselho e disse: “Onde caralhos vocês querem que eu vá mijar? Vocês querem que eu tire minha calcinha aqui mesmo e mije na frente de vocês?” E ela ficou lá na frente deles com essa minissaia, ela levantou a minissaia e ficou ali só de fio dental e eles ficaram loucos da vida. A June lá daquele jeito, entende, e eles ficaram: “Ai, meu deus, ele vai mostrar. Será que é de verdade?” E a June respondeu, muito tranquila: “Bom, acho que a gente tem que ir embora agora.” Ela botou a roupa de volta e disse: “Mas me digam onde é que eu posso mijar.”

Mas eu prestei depoimento sim. Algumas vezes. E o projeto de lei pelos direitos dos gays, até onde sei, sabe, pra mim, esse projeto de lei e as pessoas com quem eu trabalhei nisso, essas petições que eu fiz e sei lá mais o quê, quando o projeto foi aprovado… Aquele projeto também era meu, até onde sei. Eu ajudei a espalhar e trabalhei muito duro por ele. E é por isso que eu fico chateada quando dou entrevistas e tudo, porque a porra da comunidade não tem nenhum respeito pelas pessoas que fizeram o negócio de fato. Drag queens fizeram isso. Fomos nós que fizemos, pelos nossos irmãos e irmãs. Mas, caramba, não fica colocando a gente pra trás, porra, e esfaqueando a gente nas costas e isso… Isso machuca muito. E é muito decepcionante.

Eric: Vocês apanham não só dos héteros, mas também dos gays.

Sylvia: Você apanha dos seus e isso machuca muito.

A Marsha e eu lutamos muito pela libertação do nosso povo. Fizemos muita coisa naquela época. A Marsha e eu tínhamos um prédio na Second Street, que era a STAR House. E quando pedimos ajuda para a comunidade, não tinha ninguém pra ajudar a gente. A gente não era nada! E estávamos cuidando de gente mais nova que a gente. Quero dizer, a Marsha e eu éramos jovens também e estávamos cuidando deles. E o GAA tinha professores e advogados e sei lá mais o quê e tudo o que pedíamos pra eles era, bom, será que vocês podem ajudar a gente a ensinar o nosso pessoal pra que todas nós possamos melhorar um pouco? Não tinha ninguém lá pra ajudar a gente. Não tinha ninguém.

Eric: Eles abandonaram vocês…

Sylvia: Deixaram a gente lá de canto. Só uma pessoa foi e ajudou a gente. Mais uma vez… O Bob Kohler estava lá. Ajudou a gente a pintar. Ajudou a gente a arrumar os fios. A gente não fazia ideia de porra nenhuma do que estávamos fazendo. Quer dizer, a gente ocupou um prédio que era, enfim, era uma favela. A gente tentou. Tentou mesmo. A gente ia lá, ganhava dinheiro na rua pra manter essas crianças fora da rua.

Eric: Então vocês se vendiam pra tomar conta das crianças.

Sylvia: Em vez de mostrar pra elas o que estávamos fazendo. Porque a gente já tinha passado por isso.

Eric: Vocês queriam protegê-las? Vocês estavam protegendo elas do quê?

Sylvia: Do mundo. Da vida em geral. Sabe, mostrar pra essas crianças que existia uma vida melhor.

Eric: Quem eram essas outras crianças, as mais novas? De onde elas vinham?

Sylvia: De todo canto. Tinha gente de Boston, da Califórnia, de todo lugar. A gente pegou elas…

Eric: Onde estavam as famílias delas?

Sylvia: Acho que em casa.

Eric: Então eram crianças como vocês, que tiveram que sair de casa.

Sylvia: Eram boas crianças. Eu vi algumas delas depois, sabe, no movimento e tal. E são todas… As crianças que vi por aí se viraram muito bem. Isso faz você se sentir bem.

Eric: Sim, mas se fosse fazer do seu jeito, teria um prédio onde essas crianças poderiam vir e…

Sylvia: Eu adoraria ter tido isso, pra ser sincera com você, toda vez que vejo o comercial da Covenant House, eu falo, “adoraria ter tido isso”. Adoraria ter visto isso acontecer, a STAR House pra crianças, pra pessoas que… Você sabe, essas crianças já sabiam. Você sempre saca essa coisa, entende. Você é diferente, então tem que ir pra algum lugar.

Eric: E aí elas vieram parar aqui. Mas você precisava da ajuda de… Imagino que você e a Marsha não tinham recursos, experiência…

Sylvia: A gente não tinha grana nenhuma e…

Eric: Vocês precisavam da ajuda do GAA ou de outro lugar…

Sylvia: A gente precisava da grana da comunidade e a comunidade não queria ajudar a gente.

[Frank volta pra casa com o molho de tomate.]

Frank: Eu trouxe duas latas.

Sylvia: Ah é? Que bom. Deixa eu acabar esse chile e depois eu faço o arroz. Pega o abridor de latas. Tá ali em cima.

Eric: Bom, tem alguma coisa, algo que eu não tenha perguntado, alguma história, não sei, algo que você gostaria… algo que eu deveria saber?

Sylvia: Eu gostaria de fazer muito mais pelo movimento, mas o movimento simplesmente não quer lidar comigo.

 

Sylvia Rivera em uma manifestação pelos direitos dos gays em Albany, Nova York, 1971. Crédito: © Diana Davies, cortesia do departamento de manuscritos e arquivos da Biblioteca Pública de Nova York.

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O sonho da Sylvia de ter um lugar seguro para jovens LGBTQ+ chegou ao fim quando ela e Marsha foram despejadas do prédio abandonado que era o lar da STAR Home. Mais pra frente naquela década, em 1979, o Dr. Emery Hetrick e seu parceiro de vida Damien Martin fundaram o Institute for Protection of Lesbian and Gay Youth [Instituto pela proteção da juventude gay e lésbica]. A organização hoje se chama HMI e você pode conhecer mais a respeito na segunda temporada do Making Gay History, no episódio de Joyce Hunter.


Eu gostaria de poder dizer que nos anos seguintes ao meu primeiro encontro com Sylvia, ela viveu feliz pra sempre em North Tarrytown com seu namorado. Mas sua amiga e parceira de movimento, Marsha P. Johnson, morreu em 1992, e a vida de Sylvia saiu dos trilhos. Ela acabou sem-teto, vivendo em um cais abandonado perto do Greenwich Village.

A Sylvia eventualmente parou de beber e retornou ao movimento e, em 2001, até tentou recomeçar a STAR, rebatizando-a de Revolucionárias da Ação Transgênero nas Ruas, mas acabou morrendo de câncer no fígado no ano seguinte. Sylvia tinha 51 anos de idade.

 

Sylvia Rivera (no centro) com sua parceira Julia Murray (à direita) e sua amiga Christina Hayworth na véspera da Parada do Orgulho Gay de Nova York em 2000. Esse é o primeiro retrato de uma pessoa transgênero a ser incluído na coleção da galeria nacional de retratos da Smithsonian. Crédito: © Luis Carle.

 

Eu gostaria de agradecer à nossa brilhante produtora-executiva Sara Burningham, nosso exigente engenheiro de som Casey Holford, nosso primoroso compositor Fritz Meyers. Obrigado também a Hannah Moch, nossa guru das mídias sociais, e ao nosso hábil webmaster, Jonathan Dozier-Ezell. Contamos com a assistência de produção da incrivelmente talentosa Jenna Weiss-Berman, cujo entusiasmo pelo projeto o tornou possível.

O podcast Making Gay History é uma coprodução da Pineapple Street Media, com financiamento da Arcus Foundation, que se dedica à ideia de que pessoas podem viver em harmonia entre si e também com a natureza. Saiba mais sobre a Arcus e seus parceiros em ArcusFoundation.org.

E se você gostou do que ouviu, assine o Making Gay History no iTunes, Stitcher ou onde quer que você ouça seus podcasts. Todos os nossos episódios podem ser encontrados em www.makinggayhistory.com.

Até mais! Nos vemos numa próxima!

 

1a & 3atemporada – Episódio 1: Sylvia Rivera é uma cortesia do Making Gay History. Encontre o podcast Making Gay History em todas as principais plataformas de podcast e em www.makinggayhistory.com.

 

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Notas 

Sylvia Rivera teria adorado saber que nos anos seguintes à sua morte em 2002, ela se tornou um ícone – um símbolo para pessoas LGBTQ que revidam contra a repressão policial e lutam por respeito e direitos iguais. Mas ela também gostaria que você soubesse que ela era um ser humano, nascido no Bronx em 1951. Onde anos depois, essa criança que descrevia a si mesma como efeminada, se viu sem casa e se prostituindo na 42nd Street para conseguir dinheiro o suficiente para se virar. Sylvia tinha dezessete anos quando seu caminho se cruzou com a história do Stonewall Inn na noite de 28 de junho de 1969. Ela morreu aos 51 anos, depois de lutar contra vícios e viver como sem-teto durante boa parte de sua vida, até mesmo enquanto continuava a lutar pelos direitos trans e por igualdade LGBTQ+.

 

Sylvia Rivera (segurando a faixa) e Marsha P. Johnson (carregando uma bolsa térmica) representando a organização tocada por elas, a STAR (Street Transvestite Action Revolutionaries ou Revolucionárias da Ação Travesti nas Ruas), na Parada do Orgulho e da Libertação Gay em Nova York, em 24 de junho de 1973. Crédito: Crédito: Leonard Fink, cortesia do Arquivo de História Nacional do Centro da Comunidade LGBT.

 

Para conhecer mais sobre a Sylvia, veja este impressionante vídeo de 1973, feito pelo L.O.V.E Collective, que mostra Sylvia falando na manifestação do Dia da Libertação na Christopher Street, no Washington Square Park, contra o desejo de feministas lésbicas que se opunham ao fato de Sylvia fazer cross-dressing por considerarem isso sexista. Logo depois do discurso de Sylvia, Vito Russo, mestre de cerimônias do evento, chamou sua amiga Bette Midler para cantar “Friends” e impedir que a multidão se transformasse numa revolta em grande escala. Você também pode ver o vídeo de Bette Midler cantando na manifestação, que também foi feito pelo L.O.V.E Collective, aqui. Para mais informações, entre em contato com o coletivo pelo endereço LoveTapesCollective@gmail.com.

Confira o episódio “Sylvia’s Stonewall”, produzido pelo MGH para o podcast Tales of Your City, da Netflix, aqui.

Em um artigo da NBC News de 2015, “A Forgotten Latina Trailblazer” [Uma desbravadora latina esquecida], o repórter Paul Reyes oferece um sólido panorama da vida de Sylvia e de seu impacto no movimento pelos direitos civis LGBT na cidade de Nova York, embora ele afirme erroneamente que a revolta de Stonewall marcou o início do movimento pelos direitos civis LGBTQ. Apesar de ter sido um momento chave e um acontecimento catalisador, o movimento já tinha cerca de duas décadas de existência em junho de 1969.

Se você quiser saber mais sobre a revolta de Stonewall, confira o livro completo de David Carter sobre o Stonewall e também uma coluna escrita por Eric Marcus para o New York Post pelo 40° aniversário de Stonewall, na qual ele desafia alguns dos mitos mais comuns acerca desse evento que foi um divisor de águas.

E, por fim, vale também conferir o documentário de 2010 “Stonewall Uprising”, produzido pela série American Experience da PBS, que conta a história do que aconteceu no Stonewall através das vozes de pessoas que estavam lá.

 

 

 

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