Making Gay History

Temporada 6, Episódio 3: Barbara Smith

Tradução de Daniel Lühmann

 

Barbara Smith, Albany, Nova York, agosto de 1987. Crédito: Foto de Robert Giard © Jonathan Silin, cortesia da coleção Miriam e Ira D. Wallach de arte, impressos e fotografias, Biblioteca Pública de Nova York.

 

Transcrição do episódio

Narração de Eric Marcus: Eu sou Eric Marcus e este é o Making Gay History!

Barbara Smith nunca foi uma ativista de uma ocasião só. Ao longo de toda sua vida, ela pediu justiça e dignidade para pessoas cujas vozes não são ouvidas. Foi assim que ela foi criada.

Barbara e sua irmã gêmea, Beverly, nasceram em 1946 em Cleveland, Ohio. Foi lá que a família se instalou depois de deixar uma cidade pequena na Georgia, no sul de Jim Crow. A mãe delas, Hilda, primeira pessoa da família a se formar na faculdade, morreu quando elas tinham nove anos. A partir daí, as irmãs foram criadas por uma família estendida, em um lar de mulheres que davam grande importância à educação.

Em meados dos anos 1960, Barbara frequentou a Mount Holyoke, uma faculdade só para mulheres onde depois se lembraria estar cercada por “correntes lésbicas subterrâneas que não eram ditas”. Na época, Barbara não tinha conhecimento de nenhum esforço voltado para os direitos gays e, embora seus sentimentos por mulheres não fossem nenhuma novidade, ela só viria a sair do armário em meados dos anos 1970.

Em 1974, Barbara cofundou o Combahee River Collective, um grupo organizado por lésbicas feministas negras dedicado à luta contra “opressão racial, sexual, heterossexual e de classe”. Em 1980, Barbara e Audre Lorde – que descreve a si mesma como guerreira negra lésbica feminista mãe poeta – fundaram juntas a Kitchen Table: Women of Color Press. A iniciativa era tocada por e para mulheres de cor cujos escritos têm fôlego curto na indústria editorial mainstream.

Na época que entrevistei Barbara, ela já vinha contando umas verdades ao poder há décadas – como mulher contra a misoginia, como afro-americana contra o racismo, como lésbica contra a homofobia e como lésbica negra contra aquelas pessoas do movimento pelos direitos dos gays que deixavam de lado as questões de pessoas LGBTQ de cor.

A cena é a seguinte. É dia 29 de janeiro de 2001, e a Barbara veio de carro da casa dela em Albany, Nova York, até minha casa de fim de semana, meia hora ao sul. Estamos sentados em um sofá confortável e olhando fotografias que a Barbara trouxe. Ela me mostra uma foto dela e de sua irmã gêmea na Marcha nacional em Washington pelos direitos das lésbicas e gays, em 1979.

Da esquerda para a direita, Barbara Smith, Sheryl McCarthy e Sharyn Ainsworth, coautoras de um artigo publicado no Alumnae Quarterly da faculdade Mount Holyoke na primavera de 1969, intitulado “Mount Holyoke from the Other Side” [Mount Holyoke do outro lado]. Crédito: Arquivos e coleções especiais do Mount Holyoke College.

Barbara Smith: Essas somos minha irmã e eu na marcha de 1979.

Eric Marcus: Nossa!

BS: Eu sou a da direita, com tranças no cabelo. Fiquei pensando nisso quando peguei essa foto. Significa que passei horas trançando o cabelo, coisa que fiz poucas vezes na vida. Porque não gosto tanto da bagunça e do auê disso tudo. Fiquei pensando que só o fato de ver meus cabelos trançados mostra o quanto essa marcha era especial.

EM: Você se lembra de algo em particular sobre essa marcha? Das pessoas que falaram ou de outras impressões?

BS: Só me lembro do sentimento de uma alegria incrível. De estar lá. Da empolgação. Tem um pique nisso de estar visível e na rua, entende. E fazer isso em massa, acho que se alguém está se manifestando ou sendo visível por conta própria, é de fato meio assustador. Isso me assusta. Até hoje. Mas o negócio é ter o apoio dos números.

A coisa toda, acho que isso é uma afirmação geral sobre os anos 1970. Ou a segunda metade dos anos 1970, que foi o período em que eu saí do armário. Havia uma sensação de que podíamos fazer qualquer coisa. Eu tinha a sensação de que podia fazer qualquer coisa. De que tudo era possível. Porque, hum, estávamos derrubando tabus e noções gigantescas.

EM: Tipo…

BS: Que as mulheres deviam, sei lá, ser passivas. Ficar em casa e ter filhos. E num contexto negro nacionalista, ficar em casa e ter filhos para a nação. Me parece que existe uma quantidade extrema de machismo num determinado contexto negro, que é resultado direto do racismo e do deficit de nunca ter podido liderar e ter liberdade em um país racista. Então, para compensar a supremacia branca, em determinados contextos políticos negros, os homens negros são ainda mais machistas. Porque eles vão mostrar de verdade, entende, quem é que manda. Porque eles estão tão legitimamente com raiva por não serem reconhecidos como seres humanos capazes e íntegros num contexto em que homens brancos dão as ordens.

Ser uma lésbica feminista como eu era naquela época era basicamente fincar uns buracos, entende, em todo valor e crença estimado.

EM: Quando você diz que estava fazendo um trabalho lésbico feminista, quer dizer o quê com isso?

BS: Havia um movimento lésbico feminista de fato que era muito fundamental e tinha um imenso impacto positivo no modo como as questões de uma série de movimentos eram moldadas e definidas naquele período. E nós trabalhávamos com homens gays, que estavam prontos para lidar com a gente como se não fôssemos cidadãs de segunda classe. O negócio é que a linha entre o feminismo lésbico e o feminismo e as lésbicas e o movimento pela liberação dos gays, é que essas linhas não eram estabelecidas e ágeis. Assim, as lésbicas feministas eram ativas no movimento pelos direitos reprodutivos. As lésbicas feministas foram cruciais na construção de um movimento contra violência doméstica e agressão sexual. Se não fosse pelas lésbicas, não haveria movimento. Mas a questão é que boa parte dessa história é apagada.

Nós éramos mesmo… éramos muito… como se diz? Hum, odiadas. Éramos muito odiadas e ostracizadas, acho, pelas nossas comunidades de cor. Não havia nada de lúcido a ser ouvido. Basicamente nada de lúcido a ser ouvido sobre a realidade que nem todo mundo é hétero em um contexto de pessoas de cor, onde quer que seja.

EM: Quais eram as coisas que você ouvia?

BS: Eu falei… a Howard University costumava fazer conferências nacionais de escritores negros. Eles bancaram isso ao longo da década de 1970. E eu fui convidada para a última conferência que aconteceu. Foi em 1978. Eu tinha escrito e publicado “Toward a Black Feminist Criticism” [Rumo a uma crítica negra feminista] em 1977 e, como resultado disso, fui convidada a falar nessa conferência. Eu deveria falar sobre o ensaio, em que falo que as lésbicas isso, as lésbicas aquilo, e as lésbicas sei-lá-mais-o-quê.

É um exemplo tão perfeito de como as pessoas negras estavam lidando com a realidade de políticas tanto de gênero quanto de sexualidade. Bom, então eu fui convidada a falar. Foi no primeiro painel que fizeram sobre mulheres negras escritoras.

EM: Mas não eram escritoras lésbicas negras?

BS: Não, não. E eles sequer convidaram outras feministas. Eu pedi que convidassem… “Vocês poderiam, por favor, colocar outra feminista neste painel?” E eles se recusaram a fazer isso. Foi num dos grandes auditórios da Howard. O lugar estava lotado. Sabe, umas quinhentas pessoas. Li trechos do “Toward a Black Feminist Criticism”. Daí escrevi alguns parágrafos que eram especificamente direcionados à comunidade negra. Não eram coisas cruéis, de jeito nenhum. Apenas questões de interpretação que seriam úteis, considerando que o ensaio foi escrito para um público a princípio branco e feminista. Então eu li isso e depois me sentei. E aí o mundo desabou.

EM: Por quê?

BS: Porque eles ficaram tão decepcionados.

EM: O que você disse que os decepcionou?

BS: Que as lésbicas existem e que merecemos não ser odiadas. Pois é. Não. Eles ficaram loucos. Você tem que ler o ensaio, você devia lê-lo. Porque quando eu conto o quanto eles ficaram decepcionados, você devia ver as coisas às quais eles estavam respondendo. Era algo meio: “Ei, sabia que tem uma tradição literária de mulheres negras? Ela é tão forte e antiga quanto qualquer outra. E é legítima. Nós deveríamos usar uma perspectiva feminista para olhar para os escritos de mulheres negras. Existe essa coisa de sexismo. E as pessoas que são mais marginalizadas nessa mistura toda são as lésbicas negras e as escritoras lésbicas negras. Mesmo assim, nós vamos continuar fazendo o que fazemos.”

A primeira pessoa que se levantou é uma que ainda está entre nós, chamada Frances Cress Welsing. Ela é psicóloga e bastante conhecida. Ela basicamente disse: “Bom, eu sinto muito pela irmã, tenho pena dela…”

EM: De você?

BS: Sim, de mim! Euzinha! “Sinto muito por ela e acho que… Sabe, tenho pena de você porque você não pode ser uma heterossexual como eu. Mas, entende, você pode contar com a minha solidariedade.” Qualquer coisa assim. “Mas a homossexualidade é e será a morte da raça.” Essa foi a primeira afirmação. “A homossexualidade é a morte da raça.” Eles estavam à solta e caíram com tudo. Eu fiquei simplesmente devastada.

Só para te dar uma ideia do quanto o clima era assustador lá… Tinha uma fileira miúda de amigos meus, pessoas vindas de Boston, de Nova York… E a Audre Lorde estava lá. Agora claro que a Audre é conhecida por ser uma guerreira e a mais corajosa de todas e sei-lá-mais-o-quê. Ela não abriu a boca. A multidão foi ficando feia, entende. Eles estavam muito raivosos e dando medo mesmo.

 

Audre Lorde (esquerda) brincando com os cabelos trançados de Barbara Smith, 1979. Crédito: Foto de Tia Cross.

 

E, veja só, a Audre tendo vários anos a mais do que eu – doze anos, mais exatamente –, ela já tinha se envolvido com o movimento de arte negra nos anos 1960 e 1970. E eles a conheciam como uma poeta entre eles. Daí, quando ela saiu do armário… ou pelo menos quando começaram a reavaliá-la como lésbica, ela realmente pagou um preço alto por isso. E acho que ela ficou tão machucada por essa experiência… O ataque foi tão visceral e violento… Não consigo pensar em nenhuma outra palavra que não violento. A Audre não abriu a boca. E depois me disse que sentia muito por não ter dito ou não ter podido dizer nada.

Quando fui para a parte de trás do auditório, depois que esse suplício todo passou, vi alguém que eu conhecia vagamente. Um crítico, homem, negro. Eu estava dizendo como tinha sido horrível, quer dizer, porque… essa gente é o meu povo. E estavam todos mirando esse ódio na minha direção. Aí eu disse pra esse cara… eu estava praticamente sem palavras. E estava falando com ele à espera de um “ah sim, foi mesmo muito difícil”. Sabe o que ele me disse? “Bom, pelo menos você não foi linchada.” De uma pessoa negra a outra pessoa negra. De uma a outra. Entende? “Bom, pelo menos você não foi linchada.”

EM: Que outras coisas as pessoas disseram a você?

BS: Eu realmente não consigo me lembrar de muita coisa além disso. Mas foi uma dessas experiências traumáticas que você provavelmente… você se lembra da sensação, mas não necessariamente dos detalhes.

Uma coisa que me disseram… não sei se devia te contar isso. Mas é lisonjeiro para mim. Eu gosto. Ela disse… acho que foi uma mulher hétero. Ela disse… E, claro, você também tem que se lembrar que a maioria das pessoas ali nunca tinha ouvido nada sobre a realidade das lésbicas e dos gays, a não ser do quanto era uma coisa horrível, pecaminosa, doente e corrompida. Enfim, essa mulher negra, que eu até revi há não muito, disse: “Bom, sabe de uma coisa, o que eu me lembro era só o quanto você estava linda.” E eu estava mesmo. Fiz um esforço extra para ficar bem bonita.

EM: Fez mesmo? Por que era tão importante para você ter uma boa aparência naquele dia?

BS: Sabe, tendo sido criada por mulheres negras como foi o meu caso, você nunca sai com aquela cara de quem caiu da cama e tal. E foi particularmente importante – na Howard! A Howard, a universidade negra mais distinta deste país. No fim das contas.

 

Barbara Smith no fim da adolescência, no livro da turma que entraria no primeiro ano da Mount Holyoke em 1964. Crédito: Arquivos e coleções especiais do Mount Holyoke College.

 

Eu achava que era particularmente importante que eu tivesse uma boa aparência porque o estereótipo, claro, é que o motivo para alguém ser lésbica, um deles, é que você é tão pouco atraente que nenhum homem vai te querer. E costumávamos rir muito disso, fazer piada, entende, lá nos anos 1970 quando éramos todas jovens e maravilhosas. A gente dizia: “Bom, é óbvio que eles nunca foram aos bares que a gente vai.” Cada mulher era mais maravilhosa que a outra.

Não só éramos jovens, como também tínhamos esse brilho interno de espírito, um espírito solto. Porque, sabe, estávamos criando algo que era tão incrível e magnífico, a nossa maneira de estar no mundo. Por isso, a gente tinha não só o glamour ou a aparência da juventude, como também essa autoconfiança inacreditável.

EM: Você chegou a voltar na Howard alguma vez?

BS: Não. A Howard… não falei lá desde então. Não recebo convites de instituições negras, para falar em instituições negras, exceto a Spelman.

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Narração de EM: A homofobia que Barbara encontrou na Howard University dificilmente era uma anomalia no meio – e não acabou ali. No início dos anos 1980, líderes da luta pelos direitos civis dos negros estavam se preparando para o vigésimo aniversário da Marcha em Washington por empregos e pela liberdade em 1963. Barbara e a Coalizão nacional de gays negros – NCBG, na sigla em inglês – tentaram persuadir os organizadores a convidar uma pessoa gay para falar na celebração.

Os discursantes sugeridos foram James Baldwin, Audre Lorde e a própria Barbara. No entanto, apesar dessa lista impressionante, a NCBG informou que não haveria um discursante gay. Foi aí que vários homens afro-americanos decidiram entrar – ou melhor, ocupar – o escritório de Walter Fauntroy. Ele era o representante do distrito de Columbia sem direito a voto no Congresso.

Um rápido aviso. Não sei direito o que aprontei em 2001 quando gravei a entrevista de Barbara, porque na história a seguir a qualidade do áudio não corresponde aos nossos padrões habituais. De todo modo, é uma história a se ouvir.

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BS: Eles foram até o escritório dele e lá ficaram. E acabaram presos por conta dessa história, se ia ter algum gay ou lésbica negro discursando na marcha. Como resultado dessa ocupação e das prisões, acabamos conseguindo que alguém discursasse de fato. E foi a Audre Lorde quem falou. Foi tão irônico. Quer dizer, ele era um cara que fazia parte do movimento pelos direitos civis, que participava de ocupações…

EM: Quem?

BS: O Fauntroy. Pois é. Tipo… essa era uma tática que ele mesmo já tinha usado contra a estrutura de poder branco. E aí, por causa da homofobia, foi uma tática que teve que ser usada contra ele. Foi ele quem deu a declaração infame que, até onde lhe dizia respeito, os direitos dos gays… Ele disse: “se tivéssemos alguém falando sobre os direitos dos gays, então talvez também precisássemos ter alguém falando do direito dos pinguins.” Em consequência disso, nas paradas gays e tal, sempre tinha gente vestida de pinguim mesmo. Enfim… Isso foi um grande triunfo. Mas foi um trabalho e tanto que fizemos juntos. E aí…

EM: Essa marcha foi em novembro de 1983?

BS: Sim. Daí eu me mudei para…

EM: A Audre Lorde falou nessa ocasião?

BS: Sim, ela falou. Falou sim. Foi incrível. Foi, tipo, lá está a minha amiga chutando, chutando eles por trás. Não. Foi uma sensação incrível. A sensação de que, pelo menos naquele momento, a verdade e a sanidade estavam sendo transmitidas a um grupo de pessoas para quem aquilo era novidade.

EM: E as pessoas sabiam quem era ela?

BS: Não acho que soubessem de fato quem era ela. Muita gente negra não sabia quem ela era.

EM: Naquela época do discurso, as pessoas sabiam que ela era lésbica?

BS: Totalmente. Ah sim. Não, ela sempre falou isso na cara das pessoas. Sempre começava com: “Eu sou uma negra, lésbica, guerreira, mãe e sobrevivente do câncer e estou aqui para fazer o meu trabalho. Você está fazendo o seu?”

EM: Então foi um ponto alto bem importante…

BS: Foi um negócio muito, muito importante. É uma parte muito importante da história das lésbicas e gays negros. Quer dizer, o trabalho que fiz ao longo da minha vida no contexto da organização LGBT foi tentar aumentar o nível de entendimento e diminuir o nível de homofobia e sexismo em contextos negros. Esse é o trabalho da minha vida.

Acho que o motivo pelo qual a minha política continuou sendo firme e inabalável desse jeito é porque sempre tive uma base de mulheres de cor, de pessoas de cor em quem confiar, com quem eu podia contar para não acabar sendo só uma única voz enlouquecida dizendo: “Vocês pensam em algum momento em racismo e brutalidade policial ou em pobreza e nos sem-teto?”

 

Integrantes do Combahee River Collective em uma marcha em memória de mulheres de cor assassinadas na Massachusetts Avenue, em Boston, 1° de abril de 1979. Segurando a faixa, da esquerda para a direita: Maria Elena Gonzales, Margo Okasawa-Rey, Barbara Smith e Demita Frazier. Crédito: Foto de Tia Cross.

 

O contexto ético no qual fui educada, parte disso por meio da igreja, parte apenas das pessoas ao meu redor que funcionavam desse jeito, era que eu tinha responsabilidade. E eu também tinha que ser decente e cuidar de todos os que precisam.

Quer dizer, tem havido esse movimento real para a direita no país como um todo. E isso afetou o movimento das lésbicas e dos gays também. Do tipo: “Me dê o casamento gay e eu calo a boca. Nunca vou fazer nada para perturbar nem bagunçar seus planos. Não vou mencionar aquelas outras pessoas. Eles podem, sei lá, tipo… Seja qual for o iceberg onde estão boiando, podem apenas afundar ou nadar por conta própria. Sabe, os pobres, as pessoas de assistência social, as pessoas de cor, as mulheres. Não ligue para essas pessoas. Você não precisa se sentir ameaçado por mim. Posso até votar no partido republicano se for isso o que você gostaria que eu fizesse.” Quer dizer, um não movimento. Sem fazer conexões. Entende? Nada que tenha um potencial revolucionário, porque, quando tudo o que você quer são algumas reformas oferecidas a você por entidades corporativas e/ou pelo governo, você realmente não está falando sobre mudança política e social fundamental. Não está.

EM: Porque isso vem de onde?

BS: Isso vem do fervor de pessoas que são as mais oprimidas e dizem: “Isso tem que ser diferente daqui pra frente.” Essa foi minha experiência de como os movimentos são criados. Esse é o espírito do Stonewall. Esse é o espírito do movimento das mulheres. Foi espírito do movimento anti-escravidão. O espírito do movimento pelos direitos civis dos negros. Ninguém em Washington disse: “Acho que as pessoas negras realmente precisam ser tratadas melhor aqui.” Eles não dizem isso. Eles não estão se lixando a mínima. Eles não ligam.

EM: Eu queria falar rapidamente sobre 1993. Você disse que foi difícil ir a essa marcha de 1993. O que aconteceu?

BS: Tudo tinha ficado mais corporativo. E nós também tínhamos a impressão de que queriam que as pessoas fossem apresentáveis. Eles queriam realmente mostrar uma face branda e não ameaçadora para o americano médio.

Não era só uma questão das pessoas de cor. Era para qualquer coisa que não fosse bolinho, muito fácil de digerir, sabe, coisa vendida nos noticiários da noite. E eu acho isso ofensivo. Sabe, quando falo da alegria de estar naquelas primeiras manifestações, parte disso era só de ver o quanto as pessoas eram e podiam ser escandalosas. E o quanto elas eram ainda mais amáveis fazendo isso, entende. Isso incluía pessoas que eram radicais do sexo. Incluía pessoas de drag. Incluía pessoas que curtiam couro.

Era algo que me empolgava de algumas maneiras por ser uma garota que foi criada em uma cidade do centro-oeste dos EUA – ainda que seja Cleveland, que tem a cara virada para o Leste, reconhecidamente –, vinda de fato de uma família oriunda do sul profundo, sendo criada na igreja batista negra, que eu pudesse estar ali falando de fato com um cara de vestido. E muito feliz em fazer isso. Isso me empolga muito. Porque é uma questão de romper fronteiras. De encontrar aquilo que te conecta a pessoas e que não tem a ver com armadilhas. Entende? Isso é parte daquilo pelo que estávamos lutando. Embora até eu mesma… eu sempre me descrevo como sendo bastante conservadora socialmente, ainda que politicamente radical, por causa desse histórico que acabo de te descrever. A única coisa ousada que faço é lutar pela revolução e pela liberdade. Mas o negócio é que, no supermercado, sou só aquela senhorinha negra de meia-idade de novo.

 

Barbara Smith no painel “An Evening of Lesbian Literature” [Uma noite de literatura lésbica] patrocinado pela CLAGS e PEN, em Nova York, fevereiro de 1993. Crédito: Foto de Morgan Greenwald/Lesbian Herstory Archives.

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Narração de EM: Nos anos que se seguiram a essa ocasião em que a encontrei pela primeira vez, Barbara Smith envolveu-se profundamente na política local e ajudou a eleger o primeiro afro-americano como representante de distrito no Condado de Albany. Isso foi antes de ela própria se candidatar a um cargo público e conquistar uma cadeira para representar seu bairro no Conselho dos Comuns, de 2006 a 2013. Durante seu último ano no cargo, ela também ajudou a eleger a primeira prefeita da cidade de Albany.

Em 2014, Barbara e suas coautoras publicaram Ain’t Gonna Let Nobody Turn Me Around: Forty Years of Movement Building with Barbara Smith [Não vou deixar ninguém me passar pra trás: quarenta anos construindo o movimento com Barbara Smith]. É um relato das contribuições de Barbara para o feminismo negro, para os estudos, a crítica literária, as políticas urbanas de mulheres negras, e muito mais.

Recentemente, Barbara foi convidada pelo New York Times para fazer uma reflexão sobre a vida após o Stonewall. O artigo dela se chama “Why I Left the Mainstream Queer Rights Movement” [Por que deixei o movimento mainstream de luta pelos direitos queer]. Nele, Barbara reconhece que o movimento pelos direitos civis LGBTQ operou grandes esforços legislativos e sociais, mas observou que muita gente da comunidade continua sofrendo. E completa: “Conquistar direitos para alguns, enquanto se ignora a violação e o sofrimento de outros, não leva à justiça. No melhor dos casos, resulta em privilégio.”

Depois de mais de quatro décadas como ativista, Barbara continua tentando fazer da gente pessoas mais honestas. Acho que era isso que a Audre Lorde chamava de “fazer o seu trabalho”.

 

Barbara Smith conversando com a autora Dorothy Allison no painel “An Evening of Lesbian Literature” patrocinado pela CLAGS e PEN, em Nova York, fevereiro de 1993. Crédito: Foto de Morgan Greenwald/Lesbian Herstory Archives.

 

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Muito obrigado a todo mundo que faz com que o Making Gay History seja possível: a produtora sênior Nahanni Rous, os produtores Josh Gwynn e Katherine Cook, a diretora substituta Inge De Taeye, o engenheiro de som Jeff Towne, o pesquisador Brian Ferree, o editor de fotos Michael Green e a nossa equipe de mídias sociais: Cristiana Peña, Nick Porter e Denio Lourenco. Um obrigado especial para Jenna Weiss-Berman e para nossa produtora e editora-fundadora Sara Burningham. A música tema foi composta por Fritz Meyers.

Making Gay History é uma coprodução da Pineapple Street Media, com assistência do departamento de arquivos e manuscritos da Biblioteca Pública de Nova York e do ONE Archives das USC Libraries.

A sexta temporada deste podcast se tornou possível com financiamento da Jonathan Logan Family Foundation, Calamus Foundation, Broadway Cares/Equity Fights AIDS, Small Change Foundation, Irwin e Andra Press, e aos nossos ouvintes, incluindo Ann Northrop. Obrigado, Ann!

Fique ligado no Making Gay History, é só assinar nossa newsletter em makinggayhistory.com. No nosso site você também encontra episódios anteriores, fotos de arquivo, transcrições completas e informações adicionais sobre cada uma das pessoas e histórias que publicamos.

Até mais! Nos vemos numa próxima!

Temporada 6, Episódio 3: Barbara Smith é uma cortesia do Making Gay History. Encontre o podcast Making Gay History em todas as principais plataformas de podcast e em www.makinggayhistory.com.

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Notas do episódio

De Eric Marcus: Barbara Smith me inspira a sentar com postura, prestar atenção e me esforçar para fazer o melhor. É esse o poder da sua maneira de dizer a verdade sem escusas, da sua paixão e da sua alegria de viver de coração aberto. Nós nos encontramos pela primeira vez na sala da minha casa ao norte de Nova York, há quase duas décadas, para a primeira de uma dúzia de outras entrevistas que realizei para a segunda edição do Making Gay History (entre as pessoas entrevistadas estão Al Gore e Ellen DeGeneres, entre outras.)

Foi o fato de ter fundado a Kitchen Table: Women of Color Press e seu envolvimento com na Marcha nacional em Washington pelos direitos das lésbicas e dos gays em 1979 que chamou minha atenção, mas esses tópicos eram apenas o ponto de partida. Tivemos uma conversa memorável e bastante ampla sobre a sua vida inteira de ativismo e estudos – tudo isso acompanhado de muita risada, embora o que dê para ouvir no episódio seja a minha risada em resposta incrédula às coisas chocantes que Barbara compartilhou comigo. Ouça.

Barbara Smith na conferência nacional da Women’s Studies Association em 17 de novembro de 2017. Crédito: Foto de Shalor/CC BY-SA 4.0 cortesia Wikimedia Commons.

 

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Conheça Barbara Smith melhor assistindo a este vídeo rápido. Para um mergulho profundo na vida e no trabalho dela, leia Ain’t Gonna Let Nobody Turn Me Around: Forty Years of Movement Building with Barbara Smith, editado por Alethia Jones e Virginia Eubanks. Ouça Barbara falando sobre sua saída do armário aqui, e confira também sua história oral, que é mantida no Smith College.

Para mais informações sobre a pauta ampla e interseccional de justiça social defendida por ela, leia esta entrevista na Autostraddle e assista a esta palestra. Leia sobre as frustrações dela com o movimento LGBTQ mainstream pelos direitos civis na Nation e no New York Times. Veja Barbara conversando com líderes feministas negras aqui. Para consultar uma lista de livros escritos e editados por ela, vá por aqui.

Em 1974, Barbara foi uma das cofundadoras do Combahee River Collective. Ela foi uma das principais autoras do manifesto do grupo, uma poderosa articulação de políticas feministas negras que incluem lésbicas.

 

Primeiro retiro feminista negro do Combahee River Collective, em julho de 1977, em South Hadley, Massachusetts. Barbara é a segunda a partir da esquerda. Crédito: Foto cortesia de Margo Okazawa-Rey.

 

Em 1977, Barbara publicou “Toward a Black Feminist Criticism”, o revolucionário ensaio que levou-a a ser convidada para falar na Howard University no ano seguinte. Saiba mais sobre Frances Cress Welsing, a psiquiatra que respondeu ao discurso de Barbara declarando que a homossexualidade era “a morte da raça”, por aqui.

Em 1980, Barbara e sua amiga Audre Lorde cofundaram a Kitchen Table: Women of Color Press, primeira editora nacional tocada por e para mulheres de cor; Barbara descreve a fundação da editora neste ensaio. A Kitchen Table publicou dúzias de obras, incluindo Home Girls: A Black Feminist Anthology, da própria Barbara. Você pode lê-la aqui e ouvir Barbara falar sobre isso aqui.

Para saber mais sobre Audre Lorde, assista a este vídeo rápido, ouça esta entrevista sobre suas experiências como uma jovem lésbica negra na Nova York dos anos 1950, ou leia a poesia dela. Mais gravações de Audre podem ser encontradas no site do Lesbian Herstory Archives.

No começo do episódio do Making Gay History com Barbara, ela descreve uma foto em que ela e sua irmã estão na Marcha nacional em Washington pelos direitos das lésbicas e dos gays, em 1979 – a foto está abaixo. Leia mais sobre essa marcha aqui e ouça o discurso que Audre Lorde fez para milhares de pessoas que se juntaram à manifestação. Outros áudios da marcha podem ser encontrados aqui e aqui, além do programa do evento.

 

As irmãs Beverly (à esquerda) e Barbara Smith na Marcha nacional em Washington pelos direitos das lésbicas e dos gays, 14 de outubro de 1979. Crédito: Foto de Tia Cross.

 

 

 

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