Making Gay History

Temporada 2, Episódio 10: Joyce Hunter

Tradução de Daniel Lühmann

 

Joyce Hunter em seu escritório no Hetrick-Martin Institute conversando com dois estudantes do Harvey Milk High School, 1986. Crédito: © JEB -Joan E. Biren.

 

Notas do episódio

Vinte e nove anos depois de ter me encontrado com Joyce Hunter em 9 de dezembro de 1988 para entrevistá-la na sala de seu apartamento no bairro de Sunnyside, no Queens, Nova York, voltei a esse mesmo apartamento para, junto com ela, escolher fotos para este episódio. Muitas das pessoas nas fotos já não estão mais aqui, alguns de velhice, mas a maioria de AIDS, e nós não pudemos deixar de nos impressionar com o fato de, quase três décadas depois, ainda estarmos aqui.

Percorrendo séries de fotos, também foi impossível não ficar impressionado com o quanto Joyce é uma sobrevivente e quantas vidas diferentes ela teve ao longo de seus setenta e oito anos – começando recém-nascida em um lar para mães não casadas em Staten Island, tendo passado a maior parte da infância num orfanato, seus dezoito anos num hospital psiquiátrico, os vinte e poucos como jovem mãe casada, os trinta como ativista pelos direitos LGBT em ascensão, depois ainda estudante universitária, defensora da juventude LGBT, cofundadora do Harvey Milk High School, cientista pesquisadora com doutorado, professora universitária, avó e bisavó.

Joyce Hunter e o apresentador do MGH Eric Marcus no apartamento de Joyce em Sunnyside, Queens, Nova York, 24 de abril de 2017. Crédito: Cortesia de Eric Marcus.

 

Fico emocionado às lágrimas quando penso na coragem e perseverança de Joyce – e como, contrariando todas as expectativas, ela sobreviveu ao tipo de infância pelo qual trabalhou duro em sua vida adulta para garantir que esse não fosse o destino de outros jovens LGBT. A doutora Joyce Hunter é minha heroína.

Apenas um comentário sobre uma das pessoas que a Joyce menciona no episódio. Em sua entrevista original para o Making Gay History, Joyce fala sobre a professora de sexualidade humana no Hunter College, Mary Lefkarites: “Pessoas como a Mary devem ser apreciadas porque tinha que ter muita coragem em 1972 para uma professora não titular ir até a mesa dos gays na cafeteria em busca de estudantes para falar em sua aula.”

Quando Joyce mencionou Mary pela primeira vez, fiquei sem fôlego, porque a Mary é mão do Peter Lefkarites, meu melhor amigo da infância – nossas mães se conheceram no Forest Park em Kew Gardens, no Queens, quando o Peter e eu ainda estávamos nos nossos carrinhos de bebê. Almocei na mesa da cozinha da Mary junto com o Peter todos os dias da semana quando estava na sexta série, em 1969. Foi uma surpresa total descobrir que apenas três anos depois a Mary desempenhou um papel crucial na vida da Joyce e que ela tinha sido pioneira em seu auxílio para dissipar mitos sobre pessoas gays. Cresci junto com uma aliada hétero e nunca soube disso até a Joyce me contar. O Peter morreu faz dois anos. Mary e eu continuamos próximos até os dias de hoje.

— Eric Marcus, 26 de abril de 2017

Para saber mais sobre Joyce Hunter e o Hetrick-Martin Institute, confira os recursos e links abaixo.

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Para informações sobre o Hetrick-Martin Institute, visite o site deles.

 

Joyce Hunter na sede do Instituto pela proteção de lésbicas e gays (IPLG, na sigla em inglês) no 112 West 23rd Street, em 1985. De pé, da esquerda para a direita: Não identificado, Steve Ashkinazy, não identificada, Joyce Hunter, não identificada. Sentados, da esquerda para a direita: Emery Hetrick, Damien Martin. (Depois da morte de Emery Hetrick e Damien Martin, o IPLG foi rebatizado como Hetrick-Martin Institute.) Crédito: Cortesia de Joyce Hunter.

 

Para saber mais sobre Emery Hetrick e Damien Martin, que cofundaram a organização que hoje leva o nome deles, você pode ler este artigo do New York Times sobre “casais homossexuais” que encontravam um certo “orgulho silencioso” e que acabou virando um marco. Os obituários deles também no New York Times podem ser encontrado aqui e aqui. Ouça o Damien falando sobre sua relação com Emery no episódio bônus do MGH, “Love is Love” [Amor é amor].

 

Joyce Hunter na Harvey Milk School na West Street, fins dos anos 1980. Crédito: Cortesia de Joyce Hunter.

 

O Harvey Milk High School, uma escola de ensino médio pública e alternativa  pensada principalmente para jovens LGBTQ+ em situação de risco foi cofundada por Joyce Hunter e Steve Ashkinazy. O New York Times escreveu sobre a abertura do “colegial homossexual” em artigo de 1985.

Joyce Hunter doou seus papéis para o The Lesbian, Gay, Bisexual & Transgender Community Center of New York City. O arquivo inclui materiais extensos ligados ao trabalho de Joyce no movimento pelos direitos civis LGBTQ+ de 1973 até 1998.

Neste episódio, Joyce menciona sua participação numa organização do Hunter College chamada Lesbians Rising [Lésbicas em ascensão]. Como cortesia dos Lesbian Herstory Archives, aqui vai uma foto de um cartaz desse grupo em 1978.

A história oral de Joyce Hunter (assim como a de Damien Martin) pode ser encontrada no livro Making Gay History, de Eric Marcus.

Neste episódio, Joyce menciona sua experiência num baile da Aliança de Ativistas Gays (GAA, na sigla em inglês) para mulheres realizado na Firehouse (que ficava num corpo de bombeiros abandonado no bairro do Soho em Nova York), leia um post de Maggie Keenan-Bolger a respeito no site da Biblioteca Pública de Nova York. Para mais informações sobre a GAA e a Firehouse, você pode consultar este artigo do Outhistory.org e esta sinopse de John Lauritsen, que era um os representantes-chefe da GAA. O post de Lauritsen inclui links para PDFs de materiais relacionados, como panfletos, fotos e a constituição da GAA.

Joyce também menciona seu amigo Harold Pickett, que foi convidado junto com ela para falar na aula de sexualidade humana de Mary Lefkarites no Hunter College em 1972. Para mais informações sobre Harold Pickett, que foi poeta, jornalista e ativista, visite o site da Biblioteca Pública de Nova York para saber mais sobre sua vida e sua coleção que se encontra armazenada na biblioteca. O obituário de Harold no New York Times pode ser encontrado aqui.

Por fim, Joyce também menciona o SAGE (Serviços e defesa para gays, lésbicas, bissexuais e transexuais de idade), que foi cofundado pelo mentor de Joyce, Emery Hetrick, em 1978. Em 2012, o SAGE abriu o primeiro Centro para idosos LGBTQ+ em Nova York e também ajudou a fundar o Centro nacional de recursos sobre envelhecimento LGBTQ+, que hoje também caminha sob sua tutela.

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Transcrição do episódio

Eu sou Eric Marcus e este é o Making Gay History.

Joyce Hunter teve todos os motivos para fracassar. Em instantes ela vai contar para você por que havia expectativas de sobra contra ela, como seu envolvimento com o movimento pelos direitos gays no começo da década de 1970 salvou sua vida e como um ataque antigay colocou-a no caminho de ajudar jovens LGBTQ+. Mas não quero passar na frente da própria Joyce contando como sua vida se desenrolou, por isso vou deixar a palavra para ela. 

Foi um caminho curto do meu apartamento no Upper West Side em Manhattan até o bairro de Sunnyside, no Queens, em Nova York, onde ela mora. Depois de um trajeto rápido na linha 7 de trem elevado, me vi descendo uma rua arborizada com prédios robustos de tijolo à vista com seis andares, muito parecido com a casa onde cresci no Queens. O prédio de Joyce, de estilo inglês Tudor, foi construído em fins dos anos 1930, por volta da mesma época em que ela nasceu.

Joyce mora no segundo andar, por isso fui de escada. Toquei a campainha e ela me recebeu na porta com um sorriso no rosto. Joyce está com pouco menos de cinquenta anos, cabelo crespo bem escuro cortado curtinho e óculos de aros grossos. Usa calça social e camisa de botões. Sua voz me lembra de casa, porque ela fala com o mesmo sotaque de Nova York que minha mãe e meu pai. Ela me leva até sua sala iluminada. Nós nos sentamos e eu coloco o microfone na gola dela. Daí começo a gravar.

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Eric: Entrevista com Joyce Hunter do Hetrick-Martin Institute em 9 de dezembro de 1988. Local, Sunnyside, Queens. O entrevistador é Eric Marcus. Fita um, lado um.

Joyce: Eu nasci em Staten Island, em 1939. Nasci num lar para mães não casadas. Minha mãe e meu pai não eram casados. Minha mãe era judia ortodoxa. Meu pai era negro. E minha mãe, aliás, tinha dezesseis anos.

Eric: Dezesseis.

Joyce: Sim, dezesseis, dezessete. Ela era bem jovem. E minha mãe ficou doente, com hepatite, daí fomos levadas quando minha mãe estava no hospital. Hoje chamam isso de casas coletivas. Naquela época, chamavam de orfanatos, embora seus pais não estivessem mortos. Dos cinco aos catorze anos, vivi num orfanato.

Eric: Você tinha alguma ideia ao longo desses anos de que você era diferente de alguma forma?

Joyce: Diferente, diferente. Definitivamente diferente, especialmente por volta dos dez anos. Eu sabia, mas, sabe, você não sabe o que é. E era, tipo, primeiro, eles costumavam nos levar ao cinema todo sábado e eu ficava louca com as mulheres. Era a única coisa em que eu conseguia me concentrar. Sabe o que é isso? Você reconhece a diferença antes de reconhecer a igualdade. E eu não me sentia igual a todo mundo.

Eric: Então aos catorze anos você deixou o orfanato?

Joyce: Sim. Fui viver com minha mãe e meu pai no Bronx, nos conjuntos habitacionais. Crescer no Bronx, nas ruas do Bronx é meio… você ouve de tudo. E aí você é chamada pela primeira vez de bicha e esquisita. Isso me assustou pra caramba. Pensei que alguém ia vir atrás de mim, mas acho que ninguém sabia. No entanto, minha aparência não era muito diferente. Sabe, eu era meio, entre aspas, caminhoneira, mas não acho que faziam essa conexão porque eu era muito quieta e não costumava… na época eu não falava muito, acredite se quiser. Daí passei por um período em que eu simplesmente não falava e acabei fazendo terapia por isso. Tentei cometer suicídio aos dezessete. Eu estava numa situação bastante violenta.

Eric: Em casa.

Joyce: Meu pai era bem abusivo, sim. E, bom, isso era um fator. Não ser capaz de… Eu sentia falta das crianças do lar. Sabe, eles eram como minha… eu passei oito anos lá, entende. E eu não gostava de estar onde eu estava. Então a homossexualidade era um fator. A situação familiar era um fator. E eu apenas achei que seria mais fácil estar morta do que viva.

Minha mãe estava batendo na porta, daí eu parei e ela me levou ao hospital. Desde então, nunca mais voltei para casa. Essa foi a última vez que estive naquela casa.

Eric: Quando você tinha dezessete anos.

 

Joyce Hunter, grávida do primeiro filho, visitando seus irmãos Anthony e Michael, Bronx, Nova York, 1959. Crédito: Cortesia de Joyce Hunter.

 

Joyce: Sim, passei meu aniversário de dezoito anos num hospital estadual.

Eric: Então você deve ter passado por psiquiatras lá na época.

Joyce: Uma vez.

Eric: Uma vez.

Joyce: Uma vez. Você cumpria pena lá.

Eric: Sério?

Joyce: Juro por deus que foi assim comigo. Fiquei afastada por quase um ano, acho. Quando saí, comecei a ver um terapeuta e eu não queria ser gay, não queria que todo mundo me odiasse. Queria que isso desaparecesse. E um terapeuta disse: “Bom, se você se casar, isso vai sumir.” E como eu queria acreditar nisso, foi o que fiz. Aos dezoito anos me casei com um cara muito bacana.

Eric: E isso sumiu?

Joyce: Não. Fiquei casada por um ano depois conheci essa mulher, minha primeira amante adulta, quando eu estava casada e eu sabia que aquilo nunca ia passar. Eu me apaixonei por uma mulher e mantive isso em segredo. Eu era tão… Eu nunca tinha experimentado nenhum sentimento daquele tipo antes. Com nenhum cara, entende. Mas demorei treze anos para sair do casamento. E tive dois filhos quando estava casada.

Eric: Você devia se sentir presa.

Joyce: Terrivelmente presa. Quando decidi sair do armário ou eu me matava ou saía do armário, mas eu tinha as crianças e elas me impediam de fazer algo assim. E, bom, eu saí do armário e virei uma mãe muito melhor por isso. Tenho uma relação maravilhosa com meus filhos hoje.

 

Joyce Hunter com seu filho e os filhos dele em Sunnyside, Queens, Nova York, 1994. Da esquerda para a direita: Danny, Mark, Joyce e Rachel. Crédito: Cortesia de Joyce Hunter.

 

Eric: Você foi a alguma das primeiras paradas do orgulho gay?

Joyce: Não fui à primeira. Eu não estava lá.

Eric: Isso foi em 1970 – a primeira foi em 1970.

Joyce: Também não fui em 1971, 1972.

Eric: Conte-me um pouco sobre essa primeira parada.

Joyce: Eu estava meio empolgada, quase arrogante. “Direitos gays já!” Sabe? E com licença, vá se foder se você não gosta disso. Foi meio… uma das coisas que o movimento fez por mim foi me dar um veículo para expressar minha raiva.

Eric: De onde vinha essa raiva?

Joyce: De tudo. Que minha vida tinha sido negada a mim. Que eu não tinha tido uma adolescência. Minha infância foi roubada. Eu sempre digo que, quando voltar para a próxima vida, quero sair do armário aos dois anos de idade e quero aproveitar para ser quem eu sou.

Deixe-me dizer só como acabei me envolvendo, em primeiro lugar, porque acho que isso pode ajudar um pouco. Minha namorada da época me levou à Firehouse. Isso em 1971. Eu me lembro de entrar e ver um baile de mulheres. Eu fiquei realmente boquiaberta. Nunca vou me esquecer daquele momento, foi muito empolgante. E ver tanta gente gay nas ruas porque as pessoas estavam saindo do armário na rua. Eu nunca, nunca tinha visto algo daquele jeito.

Quando eu estava crescendo, não achava que tinha pessoas gays e ponto. Achava que só eu era essa entidade esquisita, entende. E foi, tipo, sabe, uau. Tudo o que eu conseguia dizer era: “Uau, nossa”. Foi tipo… ooh.

Eric: Você encontrou um lar.

Joyce: Para mim foi como chegar em casa. É isso. É isso que eu sou.

Eric: Você trabalhava com quê na época?

Joyce: Em 1971 eu trabalhava numa fábrica. Só fui ter diploma do colegial em 1975. Eu também… eu tinha largado a escola.

Além disso, na mesma época, minha ex-namorada estudava no Hunter College. Elas queriam começar uma organização lésbica feminista e acabei me envolvendo com as Lesbians Rising [Lésbicas em ascensão].

Ninguém queria ser porta-voz de um grupo de lésbicas no campus. Elas estavam preocupadas com suas carreiras. E eu disse: “Bom, eu não sou aluna.” E elas disseram: “Bom, só queremos que você seja a porta-voz.” Isso também significava que eu ia falar com outros grupos representando as Lesbians Rising.

Eric: Você também trabalhava com pessoas que não eram gays? Você falava com grupos de pessoas não gays?

Joyce: É muito interessante porque, naqueles primeiros anos, a maior parte do meu trabalho era com a comunidade não gay, para educar as pessoas. Entrei numa sala de aula em 1972, no curso de sexualidade humana da Mary Lefkarites. Sim, o Harold Pickett e eu entramos naquela aula. E basicamente chegamos lá e falamos sobre quem éramos. Embora fosse desconfortável de início, sabe, eu sentia que era tão importante desmontar esses mitos sobre nós. Porque eu também achava que, bom, você entra numa sala de trinta pessoas, tem que ter uns gays na turma.

E devo acrescentar que, durante essa época, de 1973 a 1975, eu estava trabalhando na faculdade, fazendo… aconselhamento de pares gays. Mas o que aconteceu foi que alguns desses estudantes traziam alunos do colegial ou crianças que encontravam nas ruas. E eu nunca dizia não para as crianças. Se elas viessem em busca de aconselhamento, daríamos aconselhamento a elas.

Eric: Nessa época você era considerada como um par… Você não era profissional na época.

Joyce: Eu não era profissional. Eu não era nem universitária.

Eric: Você trabalhava com alguma outra coisa na época?

Joyce: Eu estava trabalhando no Pippin’s na Quinta Avenida como aprendiz de chef. Eu ia virar chef. Mas as coisas mudaram para mim, foi em 1975 que fui atacada. E minha vida realmente mudou em torno disso. Eu não conseguia mais fazer aquele trabalho. Virar chef estava fora de questão. Porque eu tinha sido atacada, fiquei muito machucada, sobrei com um problema crônico nas costas.

Eric: Você foi atacada no restaurante ou nas ruas?

Joyce: Fui atacada numa rua perto da NYU, na região nordeste do parque, na Washington Square.

Eric: Por algum motivo específico?

Joyce: Por ser gay. Foi um ataque antigay. Eles chegaram por trás e começaram a chutar uma lata na minha direção. Estavam chutando com força e estava me acertando, daí eu me virei e… Eu me lembro de dizer algo como: “Ah, vai…”, ou “Qual o problema aqui?”, “Por que estão fazendo isso?” E o cara me bateu. Com o primeiro soco, meu nariz quebrou. E a outra pessoa me bateu no estômago, e eu não consegui mais ficar de pé depois de levar uma no estômago, daí caí no chão. Eu já tinha virado uma porcaria ensanguentada, mas ainda fui chutada nas costas.

Eric: E eles estavam gritando coisas.

Joyce: “Quem você acha que é? Quer se parecer com um homem? Vamos te mostrar.” Sabe, esse tipo de coisa.

Eric: Ai, nossa.

Joyce: A mulher que estava comigo teve que lutar com dois outros. E teve um cara que chamou um táxi e colocou a gente dentro para irmos ao hospital. Passei um mês no hospital. E aí quando saí do hospital, meu médico disse: “Você não pode fazer esse trabalho.” Porque eu estava sentindo muita dor. Meu médico me disse para ir ao OVR, o departamento de reabilitação vocacional. Eles disseram que iam me treinar de novo. Fizeram um monte de testes e tal, daí disseram: “Vamos te mandar para a faculdade. Você é gente pra faculdade.” E eu disse: “Bom, eu não tenho nem diploma de colegial.” E eles disseram: “Bom, vamos te mandar para a NYU para um cursinho para a faculdade e você vai fazer a prova.” E foi o que fiz.

Eric: Que ironia! Você já chegou a pensar na ironia dessa experiência?

Joyce: Sim, sim. Penso muito nisso. Porque o que eles fizeram de fato, quer dizer, minha educação, entende, cara, e foi… eu tinha fome daquilo.

Eric: O que esses… essas pessoas que te espancaram tinham um motivo.

Joyce: Sim, acho que queriam acabar com a minha cara, coisa que meio que conseguiram fazer.

Eric: Mas o motivo deles não era…

Joyce: Não era para fazer de mim esta ativista melhor, não. Ou esta pessoa que acabaria fazendo alguma mudança real. Não, tenho certeza de que não estava no plano deles… acho que só queriam me colocar debaixo de sete palmos. Fizeram isso de fato com uma ativista. Foi isso que eles fizeram. Foi isso que eles fizeram. Eles nem sabem.

Eric: Como você conheceu Emery Hetrick e Damien Martin?

Joyce: Eu tinha ido falar no NYPAC.

Eric: O NYPAC era?

Joyce: Comitê de Ação Política de Nova York? NYPAC. E eles eram membros do NYPAC. Eu queria que alguma coisa grande acontecesse para jovens lésbicas e gays quando os conheci… Sabe quando você tem essa sensação de que as pessoas certas se conheceram no momento certo? Levei o plano para eles na hora. O Emery era um tipo de pessoa tão maravilhosa, muito querido e gentil. E tão atencioso. Ele, bom, foi ele que começou o SAGE. Ele era um homem de visão. E ele sentiu isso mesmo, de que tínhamos que começar a proteger nossos jovens.

 

Joyce Hunter com membros fundadores do HMI, Amy e Dick Ashworth (O filho deles, Eric Ashworth, foi o agente do livro Making Gay History), 1990. Crédito: Cortesia de Joyce Hunter.

 

Então, naqueles três primeiros anos a gente fazia basicamente educação e defesa. E estávamos treinando profissionais para trabalhar com lésbicas e… Estávamos trazendo o assunto. Tínhamos muito pouco apoio da comunidade gay.

Eric: Por que você acha que isso aconteceu?

Joyce: Porque eu acredito que a comunidade gay internalizou aquele mito de molestar crianças. Sabe, acho que é isso mesmo. E acho que precisamos tirar esse piano das nossas costas. Esses jovens são parte da nossa comunidade. E não podemos negar isso.

Em 1983 abrimos as portas para serviços sociais – serviços diretos.

Eric: Você poderia me contar sobre a primeiríssima criança?

Joyce: 001, sim. E ela está indo muito bem hoje em dia. Ela é uma criança que cresceu muito. Está na faculdade e trabalhando. Tem algumas histórias muito boas. Muitas dessas crianças acabam voltando depois. É empolgante. Essa é a parte boa.

Eric: Conte-me, por que é empolgante?

Joyce: Porque elas crescem com uma noção melhor de si mesmas. Elas não precisam resolver isso na vida adulta, como muitos de nós que tivemos que resolver nossos problemas de identidade e de se relacionar com outras pessoas. Isso é uma coisa importante – aprender a socializar. Penso que, quando estávamos crescendo, não tínhamos espaço para desenvolver nossas habilidades interpessoais. Não estávamos contando para nossos amigos quem éramos. Você não podia discutir honestamente sobre relacionamentos, sexo, sexualidade, porque não estávamos contando quem éramos. E era tão incrível ver crianças tendo amigos gays.

Eric: Isso deve ter feito você pensar sobre a sua própria infância, ao ver essas crianças.

Joyce: Fez mesmo. Eu me lembro de uma vez que o Steve veio falar comigo. Ele disse: “Sabe, as crianças estão muito quietas.” E eu disse: “Então vá até lá para conferir o que está acontecendo.” Ele foi lá e depois voltou dizendo: “Quero que você vá lá ver, tem que ver para acreditar.”

Daí eu fui até lá, nunca pensei que viveria para ver algo assim. Um grupo de jovens gays jogando verdade ou desafio. Eu fiquei… eu quase chorei, na verdade, porque fiquei tão tocada por aquilo, sabe, me lembrando de como tinha sido difícil para mim. Aí eu só, tipo, meu deus… Eu disse a eles: “Quero que vocês saibam que o que está acontecendo aqui é tão bonito.”

Eric: Por que era tão bonito?

Joyce: Porque eu nunca podia ter imaginado aquilo. Eles não estavam solitários. Estavam dando risada, se divertindo. E não era, tipo… era uma coisa muito afetiva. Não era, sei lá, sexo pesado nem nada disso. Era puro afeto. Tinha uma verdadeira proximidade e amizade. E era divertido. Eles estavam se divertindo. Eu não me diverti quando era criança. E a percepção de que eles eram como qualquer outro grupo de jovens e que, se você os deixa sozinhos, eles são curiosos.

Eu expliquei isso a eles. Eu disse: “Quero que vocês saibam que vou ter que pedir para vocês pararem com isso porque estão num lugar administrativo, não é o local apropriado, mas quero que saibam que não tem nada de errado com o que vocês estão fazendo.” Daí eles sorriram e disseram: “Ah, beleza.” Mas, sabe, quer dizer, nunca foi… em lugar algum, no canto mais selvagem da minha imaginação, um grupo de jovens se reuniria para fazer aquilo.

Eric: Você sentiu que tinha cumprido sua missão?

Joyce: Ah, naquele momento?

Eric: Que aquilo estava validando.

Joyce: Isso estava mesmo validando tudo aquilo, entende… E era boa diversão, toda correta.

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Eric: Dois anos depois que o Hetrick-Martin Institute pela proteção de jovens lésbicas e gays abriu suas portas para oferecer serviços sociais diretos, Joyce Hunter cofundou o Harvey Milk High School. É uma pequena escola pública alternativa de ensino médio em Nova York voltada principalmente para jovens LGBTQ+.

O que começou como uma escola com duas salas e uma dúzia de alunos nos fundos do Hetrick-Martin Institute é hoje um prédio próprio adjacente à sede do HMI no East Village em Nova York. Todo dia letivo, uma centena de alunos enche os corredores e salas de aula ali. O HMI gere a unidade e oferece serviços de apoio que incluem aconselhamento de saúde mental, programas artísticos e culturais, preparação para o emprego, educação sobre saúde e bem-estar, além de serviços de aprimoramento acadêmico – tanto durante quanto após o tempo de aulas. É exatamente o tipo de lugar onde a Joyce Hunter adolescente teria se dado bem.

Quando a Joyce disse na entrevista dela que tinha sede de educação, ela não estava brincando. Depois de se formar na faculdade, ela continuou até obter seu mestrado e doutorado. Agora com setenta e tantos, Joyce é cientista pesquisadora no Centro de HIV para estudos clínicos e comportamentais no Instituto Psiquiátrico de Nova York e na Universidade de Columbia, onde ela também é professora-assistente de psiquiatria e saúde pública.

 

Joyce Hunter com sua parceira Jan Baer, Parada do Orgulho LGBTQ+ de Nova York, meados dos anos 1990. Crédito: Cortesia de Joyce Hunter.

 

Joyce vive com Jan Baer, sua parceira há trinta e seis anos, no mesmo apartamento em Sunnyside onde a entrevistei pela primeira vez há vinte e nove anos. Entre elas há dezesseis netos, um bisneto e mais um a caminho.

Para saber mais sobre Joyce Hunter e o trabalho do HMI, visite www.makinggayhistory.com. Você encontrará informações, fotos e links para recursos adicionais. Também é lá que você pode ouvir todos os nossos episódios anteriores e assinar nossa newsletter.

Antes de ir embora, gostaria de mandar um alô para uma de nossas ouvintes. A Sam está no último ano do ensino médio e passa por uma situação difícil em casa. Seus pais estritamente religiosos botaram sua irmã para fora de casa quando descobriram que ela é gay. A Sam ouve um episódio do Making Gay History toda manhã antes de ir pra escola e outro episódio quando volta para casa. Ela nos disse que as vozes e histórias que ela ouve aqui são um refúgio para ela. Sam, nós estamos te ouvindo. Aguente firme aí. Você não está sozinha.

É preciso uma equipe inteira para dar vida às vozes do Making Gay History. Um obrigado imenso para a equipe do MGH que faz este podcast acontecer toda semana… nossa produtora-executiva que trabalha muito Sara Burningham; a mentora, amiga e coprodutora Jenna Weiss-Berman; o produtor especial Bari Finkel; o engenheiro de áudio Casey Holford; o pesquisar Zachary Seltzer; nosso webdesigner Jonathan Dozier-Ezell; e o estrategista de mídias sociais Will Coley. Nossa música tema foi composta por Fritz Myers.

Making Gay History é uma coprodução da Pineapple Street Media, com assistência do departamento de manuscritos e arquivos da Biblioteca Pública de Nova York.

A segunda temporada deste podcast se tornou possível com apoio da Ford Foundation, que está na linha de frente pela mudança social em todo o mundo.

E se você gostou do que ouviu, por favor, assine o Making Gay History no iTunes, Spotify, Stitcher, NPR One ou onde quer que você ouça seus podcasts.

Até mais. Nos vemos na próxima.

Temporada 2, Episódio 10: Joyce é uma cortesia do Making Gay History. Encontre o podcast Making Gay History em todas as principais plataformas de podcast e em www.makinggayhistory.com.

 

Joyce Hunter com o pessoal do HMI na Parada do Orgulho LGBTQ de Nova York, meados dos anos 1990. Crédito: Cortesia de Joyce Hunter.

 

 

 

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