“Nós entendemos tudo errado, eu acho, em relação à organização dos sentidos e dos condutores venais que imaginamos para descrever corpos.”

 

Uma entrevista com Nathanaël, autora de Je, Nathanaël:

1 – O pau-duro literário existe?

Tem que existir. Do contrário a sua Anatomia Primária, seu livro, não existiria. Talvez seja uma questão de qual linguagem para qual boca. E o que é um corpo nesse caso. Nós entendemos tudo errado, eu acho, em relação à organização dos sentidos e dos condutores venais que imaginamos para descrever corpos. Eu suponho que me questionaria, hoje, o que de fato é a literatura, uma vez que o esforço massivo parece ser de domesticação global. Quem é “nós”?, é uma outra pergunta.

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“We have it all wrong, I think, the organisation of the senses, and the venal conduits we imagine to describe bodies.”

1 – Does a literary hard-on exist?

It must do. Otherwise your Primary Anatomy would not exist. Maybe it is a matter of what language for what mouth. And what a body is in such a case. We have it all wrong, I think, the organisation of the senses, and the venal conduits we imagine to describe bodies. I suppose I would wonder, today, what a literature is at all, as the overwhelming effort seems increasingly to be one of global domestication. Who “we” is is another question again.
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“Ela cria um mundo que é maioritariamente muito doce, mas ela mina isso um pouco colocando egoísmo e tristeza.”

Tove por Tove

 

Para essa entrevista nós d’A Bolha, como de costume, fomos atrás do material mais completo e interessante que poderíamos encontrar sobre o nosso livro da semana e próximo lançamento: Moomin.

Entretanto, apesar da obra de Jansson ser reconhecida no mundo inteiro, a maior parte das entrevistas publicadas com a autora é na sua língua natal, sueco ou em finlandês. Portanto, a entrevista traduzida abaixo não é com a autora da série, Tove Jansson, nem com a Senhorita Snork e nem com a Mamãe Moomin. Dessa vez, o material que escolhemos trazer para vocês hoje vem de uma entrevista feita com Tom Devlin para o site Comics Reporter em 2006. Tom é um dos fundadores da Drawn & Quarterly e o responsável por trazer Moomin para um mercado internacional, e a entrevista trata exatamente do momento em que o primeiro volume estava prestes a ser lançado pela editora. Leia mais abaixo.

Tom Devlin – Em 2011 eu fui até Helsinki e tive sorte o bastante para fazer um tour pelo estúdio de Tove Jansson. Ela viveu no mesmo largo estúdio por 57 anos. Era fácil de imaginar a Tove lá. Eu vi a mesa onde ela costumava escrever, eu vi o forno a lenha que ela usava para aquecer a sua casa durante os longos invernos; eu vi as prateleiras e prateleiras de livros  ̶ muitos de autoria dela, ou seus livros favoritos de outros autores, ou até mesmo os álbuns de recortes de sua mãe, Signe, desenhados a mão, onde ela guardava as tiras que cortava do jornal. Eu vi a pequena alcova e a cama ainda menor onde ela dormiu por anos. Foi surpreendente o quão modesto o lugar  inteiro parecia. Até onde eu sabia, ela era a maior celebridade literária da Finlândia, e mesmo assim ela viveu uma vida tão simples. Claro, eu devia ter sabido disso antes de atravessar a sua porta. Está nos seus livros. E manifestada visualmente em seus quadrinhos. Os próprios Moomins vivem sua vida modesta. Eles vivem muitas  aventuras, mas o lar é simples, confortável, e não tem nada desnecessário.

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“Criar algo a partir do nada e fazer novas pilhas de coisas novas e dá-las para os amigos.”


Entrevista com Gary Panter, autor d’ O Babaca:

1 – Qual a história por trás d’O Babaca?

O Babaca é uma meditação sobre os babacas  ̶  eu queria que o quadrinho saísse engraçado e radical, mas eu não gosto de babacas. Gosto de pessoas legais. Existem babacas no mundo, e essa é uma piada e um aviso para que as pessoas tomem cuidado com esse tipo de gente. A tortura desse babaca chamado Henry Webb é que ele vive em um universo solipsístico. Todo mundo se parece com ele, então na realidade ele está se matando. É também sobre reencarnação, sobre a evolução individual cumulativa, tanto para cima ou para baixo.

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“O problema entre mim e a internet é que ela funciona em cima de fatos, números e informação. Mas sem a carne e o sangue e a respiração.”

Autor de "Gigantes do Jazz"

 

Tradução livre de entrevista com Studs Terkel, autor de Gigantes do Jazzretirada dos sites Mother Jones e The Progressive. Entrevistas originalmente disponíveis em outubro de 1995 (Mother Jones) e outubro de 2004 (The Progressive).

1 – Você ainda digita as suas entrevistas na sua velha Remington. Você já entrou na internet? (Mother Jones, 1995)

Eles me pegaram nessa na última convenção da American Booksellers Association. Eu não sabia sobre o que eles estavam falando. O problema entre mim e a internet é que ela funciona em cima de fatos, números e informação. Mas sem a carne e o sangue e a respiração. Com quem eu estou falando? Com o que eles se parecem? Seria uma multitude, 25 pessoas do outro lado? Quem é aquele garoto estranho? E a senhora com uma muleta? O toque humano é o que falta.

Esse é um dos aspectos de Coming of Age, uma das reclamações de muitas dessas pessoas mais velhas. Tecnologia – alguns dos meus heróis e heroínas bem sabem – deixa-os um pouco infelizes porque tem algo pessoal faltando.

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“É a mistura entre quadrinhos, publicação e arte que sempre me interessou.”

 

Tradução livre de entrevista com Stéphane Blanquet, autor de A Pior Notíciaretirada dos sites Liberation.fr e Laspirale.org. Entrevistas originalmente disponíveis em abril de 2005 (Libération) e fevereiro de 2015 (La Spirale)

1 – Você começou a publicar muito jovem. (Libération, 2005)

Eu autopublico desde os 15-16, quando montei um coletivo que se chamava Chacal Puant e publicávamos um fanzine chamado La Monstrueuse. Todos os artistas que eu admirava autopublicavam também, fazendo tiragens de cinquenta exemplares. É a mistura entre quadrinhos, publicação e arte que sempre me interessou. Acredito que a autopublicação permite que você se encontre consigo mesmo, sem ter de se confrontar imediatamente com um editor, ou um olhar crítico ou financeiro. É bom se surpreender com os seus próprios jogos. Eu sempre amei os artistas que contavam mal as histórias, mas que desenhavam muito bem, só que com um certo grau de precariedade, com um pouco de espírito de filmes de zumbis, como por exemplo o Y5/P5.

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“É estranho e um tanto perturbador porque nos lembra que somos claramente uma máquina ou um organismo.”

Entrevista com Seth, autor de Wimbledon Green:

1 – Qual a história por trás de Wimbledon Green?

Uma resposta simples. Depois que publiquei um livro de ilustrações dos meus cadernos de rascunhos (“Vernacular Drawings”) eu comecei a perder interesse em rascunhar ilustrações de página inteira nos cadernos a partir
daí… e descobri que estava mais interessado em fazer pequenas tirinhas soltas em vez disso. Eu fiz algumas peças autobiográficas nos meus cadernos, mas achei que elas eram um pouco tediosas de serem trabalhadas. Queria algo mais imaginativo, mais divertido de desenhar. Entretanto, eu também não queria colocar nem muito tempo nem esforço em planejar uma história complicada. Então eu decidi simplesmente improvisar e criar a narrativa enquanto desenhava, algo divertido mas fácil de inventar. Algo próximo de mim que eu não precisasse fazer pesquisa de nenhuma forma. Sendo um colecionador por natureza e conhecendo intimamente o mundo dos quadrinhos pareceu natural pra mim fazer uma história leve e engraçada sobre os tipos de colecionadores e as suas idiossincrasias.
Além disso, na época eu estava lendo um ótimo livro sobre colecionadores chamado “A Fine Madness” do N. Basbanes. Serviu como um bom guia pra minha história. Ladrões de livros, leilões corruptos e obsessivos compulsivos. Foi pura diversão.

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“Ah sim, a autopublicação é também inerentemente a grande ação anticapitalista…”

Heather Benjamin por Heather Benjamin

 

Entrevista com Heather Benjamin, autora de Exorcise Book:

 

1 – Qual a história por trás de Exorcise Book?

Exorcise Book nasceu basicamente de uma ideia que eu tive de fazer um livro que fosse apenas uma coleção de ilustrações, sem uma narrativa linear explícita, mas uma história solta formada a partir da repetição de imagens diferentes e símbolos.

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“A revista Animal foi formadora do meu caráter, eu tinha 12 anos, e ela determinou o rumo da minha vida.”

O Divino quando criança?

 

Entrevista com Adriano Motta, autor de Mickey Speed #_01:

 

1 – Qual a história por trás de Mickey Speed?

Vinha fazendo uma série de trabalhos chamados “Storyboards” desde 2004,para filmes que não existiriam. Eram uma associação livre de desenhos que sugeriam cenas cinematográficas. A estrutura desses desenhos quase que forçava quem se propusesse a lê-los a abdicar de uma ordem linear, tornando o processo de leitura totalmente randômico. Uma narrativa abstrata, algo que permeia todas as frentes do meu trabalho. Mickey Speed veio de uma vontade natural de produzir um dos meus Storyboards em forma de livro.

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