Herói(na)s Butch

Herói(na)s Butch*

Ria Brodell, 2018  [traduzido por Daniel Lühmann]
________________
Ria Brodell é artista, educadorx e autorx trans não binária baseadx em Boston, nos EUA, que recupera histórias perdidas realizando pesquisas e pintando retratos de pessoas de gênero não conformista ao longo da história.

 

 

Katherina Hetzeldorfer, circa 1477, Alemanha.
Guache sobre papel, 28 x 18 cm, 2012.

(mais…)

Os fins do livro: leituras, economias e públicos

OS FINS DO LIVRO: LEITURAS, ECONOMIAS E PÚBLICOS

Matthew Stadler, 2011 [tradução de Daniel Lühmann]

 

A crise editorial é o colapso do livro enquanto mercadoria, como nexo de compra. É isso. Esse é o ponto principal que destruiu subsistências e que pode arruinar corporações. Ironicamente, essa catástrofe também cega editoras para um movimentado renascimento na cultura da leitura. Ler e comprar nunca foram um par perfeito – eu diria até mesmo que são opostos. Conforme o mercado editorial se esforça para configurar novos locais de compra e resgatar uma economia que costumava apoiar escritoras através da venda de livros, surgem novas e vigorosas comunidades de leitura, tanto on-line quanto em livros de pequenas tiragens. Para aqueles dentre nós que amam ler e que estão cansados de comprar, este é um momento notável e repleto de oportunidades. A questão com que somos confrontados, a despeito do que acreditam muitas editoras,  não é como recuperar as compras, e sim como criar uma economia viável numa cultura de leitura.
(mais…)

Publicando zines para presos: uma entrevista com Anthony Rayson

PUBLICANDO ZINES PARA PRESOS:

UMA ENTREVISTA COM ANTHONY RAYSON

[A zine publicada em 2015, traduzida para o português por Daniel Lühmann, nos foi cedida gentilmente por Anthony Rayson e o Temporary Services.]

 

 

 

Anthony Rayson é responsável pelo South Chicago ABC Zine1ABC é a sigla para Anarchist Black Cross [Cruz Negra Anarquista]. Ilustrações da capa: Hon. Mark A. Reid Bey, 2008 (capa); McKeehan, 2011 (contracapa).Durante boa parte do tempo nas últimas quatro décadas ele vem se dedicando a suas publicações independentes. Rayson, hoje com sessenta anos, entrou na política bem cedo, por ser filho de Leland Rayson, representante do estado de Illinois por doze anos, de 1965-77. Quando criança, Rayson sempre participou de manifestações, comícios e outros eventos políticos, além de ajudar nas campanhas e eventos de seu pai. Durante a época do Vietnã, a mãe de Rayson fez parte da organização Women for Peace [Mulheres pela paz]. Em seu primeiro ano no colegial, Rayson se juntou a uma campanha da qual a namorada de seu irmão fazia parte para reivindicar que mulheres pudessem usar calças para ir à escola em vez de apenas vestidos e saias. Nos invernos congelantes abaixo de zero de Chicago, isso não é pouca coisa.
(mais…)

Livreiros #5: Asa Norte e Sul

“O Chiquinho tá fechado hoje?”
“Não, ele tá abrindo mais tarde. Mas ele abre! Ontem ele abriu às 11h”
“Tá ok, muito obrigada!”

Estamos retomando um projeto que temos muito carinho por aqui, o “Livreiros”.

Partindo de conversas com donos de sebo, livreiros autônomos e vendedores ambulantes de livros que trabalham pelas ruas do país, vamos aos poucos fazendo um mapeamento da atividade livreira e das pessoas por trás dessas geografias de troca, desses espaços de cultura e diálogo que têm como principal atuação a venda de livros.
(mais…)

O mestre da monstruosidade requintada

O MESTRE DA MONSTRUOSIDADE REQUINTADA

O trabalho do artista gráfico francês Stéphane Blanquet exerce uma atração gravitacional sobre o espectador, seja qual for o material da vez

                                                                                              por Alla Chernetska

                                                                                         [Artigo publicado na edição #90 da revista Raw Vision*]

 
Le Train [O trem] (detalhe), 2009, instalação com diversos materiais, parte da exposição “Quintet” no MAC Lyon, França, 76m²/24m², foto de Céline Goergen

O mundo criado por Stéphane Blanquet é um circo monstruoso da realidade. As pessoas, insetos e demais personagens que convivem em seus livros ou ocupam a parede inteira de uma exposição são monstros que pululam em espaços pictoriais apertados em excesso. Como o próprio Blanquet reconhece, o papel e a tela são muito limitadores, por isso, ao ir além das molduras, seus mundos e personagens conquistam paredes inteiras, e também exposições inteiras. Nas palavras dele: “Os espaços são sempre pequenos demais para necessidade que sinto de espirrar minhas imagens em tudo que há em volta. Se me dessem um prédio inteiro, eu iria cobri-lo todo de sêmen gráfico. Preciso de uma cidade para poder cobri-la de imagens; uma cidade é o espaço mínimo para uma exposição”. Os monstros de Blanquet interagem bem de perto, criando uma miríade de padrões vivos e orgânicos que pulsam e absorvem nosso olhar. Seja na narração de contos ou na abstração de murais horror vacui, o universo de Blanquet se torna uma provação na qual somos forçados a confrontar nosso próprio lado sombrio, e isso tudo é uma alucinação carnal de puro prazer.
(mais…)

Entre fins de mundos, toque

                                            Entre fins de mundos, toque

                                                                             Por Stephanie Sauer

 

Assim como as mulheres, os livros não são vasos vazios a serem preenchidos com ideias de homens. Eles são estruturas que, de maneira ativa, veiculam ideias, opiniões e crenças culturais mantidas há tempos e, potencialmente, também novos modos de ver.

Fazer publicações que muitas vezes são chamadas de livros de artista é um projeto tanto de ativismo quanto de prática artística. Esses livros insistem que a forma veicula o conteúdo, que os olhos precisam traduzir o que é e o que não é contido em palavras, que as mãos têm suas próprias maneiras de ler. A cada novo feitio, eu me contraponho a uma cultura que insiste na minha passividade. O meu best seller é um livro que precisa ser rasgado. It’s fun to be naked [É divertido ficar pelado] contém um divertido poema de seis versos espalhado em cinco tiras de uma polegada de papel dobrado que são seguradas por um ilhós. Os leitores só podem acessar o texto por inteiro ao destacar a página nas linhas pontilhadas que fiz à mão. A maioria dos leitores pede duas cópias, insistindo que não gostam da ideia de “destruir” um livro. Eu garanto a eles que esse livro só se realiza inteiramente quando o leitor interage com ele.
(mais…)

A acessibilidade como valor maior na busca pela sustentabilidade e independência. Um experimento.

A acessibilidade como valor maior na busca pela sustentabilidade e independência. Um experimento.

                                                                                                                                Por Rachel Gontijo Araujo

 

Nossa única fonte de financiamento vem das pessoas que compram nossos livros. A verdade, entretanto, é que muitas vezes o próprio público não tem consciência do seu papel de colaborador, não se vê, não se enxerga como investidor. Infelizmente, essa nossa visão restrita das relações humanas e da economia talvez não nos possibilite compreender a relação entre público e editora para além de uma simplista equação mercantil. Somos ensinados na maior parte do tempo a pensar que investidores são somente aquelas corporações, instituições bancárias, privadas e governamentais, “grandes fortunas”, quase que sem rosto. E não que o ato de consumir e o investimento na cultura (e, sejamos sinceras, em tudo na verdade) é um instrumento de ação sociopolítica, individual e coletiva, e por consequência, um instrumento para atingir o tipo de desenvolvimento desejado na cidade, país e mundo que habitamos. Em outras palavras, temos aceitado há muito tempo as estruturas que inventamos e que muitas vezes já nascem ultrapassadas e continuamos as dando como verdade em si.
(mais…)

Revolução: um poema coletivo. Potências poético-políticas da rede de arte postal

Revolução: um poema coletivo. Potências poético-políticas da rede de arte postal

 

Por  Fernanda Nogueira
[Artigo publicado em março de 2014 no post, plataforma on-line do Museu de Arte Moderna de Nova York dedicada à arte e à história do modernismo num contexto global.]

 

A arte postal, como sabemos, é uma desculpa, estamos interessados em coisas mais importantes que têm a ver com nós mesmos, nossas famílias, nosso povo. Se aceitarmos isso, as diferenças estarão dissolvidas; depois de tanto drama e tanto sangue, precisamos discernir quem são nossos verdadeiros inimigos.

​​​​​​​— Clemente Padín em carta a Mauricio Guerrero, Montevidéu > México D.F., 8 de janeiro de 1985.

 

ARTISTA, ARME-SE!

– Vlado Martek (Iugoslávia), em Poema Colectivo Revolución, 1981.

(mais…)

BOTANDO O ID PRA FORA: Les Coleman apresenta a arte catártica de Mark Beyer

BOTANDO O ID PRA FORA
Les Coleman apresenta a arte catártica de Mark Beyer

                                                                  [Artigo publicado na edição #78 da revista Raw Vision*]

Sem título, 2008, caneta, tinta e tinta acrílica em pintura invertida sobre acrílico, tamanho desconhecido

 

Detalhes biográficos acerca de Mark Beyer, um artista recluso e autodidata, se limitam a poucas linhas de fatos e datas. Ao procurar on-line, não se pesca muito além do que já foi publicado. Beyer não tem um site pessoal. Parece haver uma única fotografia dele em domínio público. A única entrevista dele de porte foi publicada na segunda edição da Escape, realizada por Paul Gravett em 1983, quando Beyer estava em Londres para a exposição Graphic Rap no ICA. Em quase trinta anos, esse continua sendo o único comentário feito pelo artista sobre seu trabalho. Para minha grande surpresa e prazer, estive em contato com ele, que foi bastante simpático nas respostas às minhas inúmeras perguntas por e-mail, além de fornecer imagens de todos os períodos de seu percurso criativo.
(mais…)

Mark Beyer: Mais noites pertubadoras

MARK BEYER: MAIS NOITES PERTUBADORAS
Por Paul Gravett

beyer1976fixed-1

Depois de ter sido deliciosamente perturbado por seus quadrinhos nas páginas da Raw, eu vim a conhecer Mark Beyer em 1982, quando ele foi convidado para vir a Londres participar da exposição de quadrinhos Graph Rap no Instituto de Arte Contemporânea. Por sorte, tive a oportunidade de entrevistá-lo para a segunda edição da Escape Magazine, uma das pouquíssimas entrevistas dadas por ele. Acompanhei o trabalho de Beyer de perto, desde seus títulos independentes até as tirinhas de Amy e Jordan, passando por suas narrativas visuais e incursões no mundo da pintura, mas eventualmente acabei perdendo contato com ele, exceto por uma outra exposição no Festival de Quadrinhos de Berlim em 2003.
(mais…)