Livreiros #5: Asa Norte e Sul

“O Chiquinho tá fechado hoje?”
“Não, ele tá abrindo mais tarde. Mas ele abre! Ontem ele abriu às 11h”
“Tá ok, muito obrigada!”

Estamos retomando um projeto que temos muito carinho por aqui, o “Livreiros”.

Partindo de conversas com donos de sebo, livreiros autônomos e vendedores ambulantes de livros que trabalham pelas ruas do país, vamos aos poucos fazendo um mapeamento da atividade livreira e das pessoas por trás dessas geografias de troca, desses espaços de cultura e diálogo que têm como principal atuação a venda de livros.
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O mestre da monstruosidade requintada

O MESTRE DA MONSTRUOSIDADE REQUINTADA

O trabalho do artista gráfico francês Stéphane Blanquet exerce uma atração gravitacional sobre o espectador, seja qual for o material da vez

                                                                                              por Alla Chernetska

                                                                                         [Artigo publicado na edição #90 da revista Raw Vision*]

 
Le Train [O trem] (detalhe), 2009, instalação com diversos materiais, parte da exposição “Quintet” no MAC Lyon, França, 76m²/24m², foto de Céline Goergen

O mundo criado por Stéphane Blanquet é um circo monstruoso da realidade. As pessoas, insetos e demais personagens que convivem em seus livros ou ocupam a parede inteira de uma exposição são monstros que pululam em espaços pictoriais apertados em excesso. Como o próprio Blanquet reconhece, o papel e a tela são muito limitadores, por isso, ao ir além das molduras, seus mundos e personagens conquistam paredes inteiras, e também exposições inteiras. Nas palavras dele: “Os espaços são sempre pequenos demais para necessidade que sinto de espirrar minhas imagens em tudo que há em volta. Se me dessem um prédio inteiro, eu iria cobri-lo todo de sêmen gráfico. Preciso de uma cidade para poder cobri-la de imagens; uma cidade é o espaço mínimo para uma exposição”. Os monstros de Blanquet interagem bem de perto, criando uma miríade de padrões vivos e orgânicos que pulsam e absorvem nosso olhar. Seja na narração de contos ou na abstração de murais horror vacui, o universo de Blanquet se torna uma provação na qual somos forçados a confrontar nosso próprio lado sombrio, e isso tudo é uma alucinação carnal de puro prazer.
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Entre fins de mundos, toque

                                            Entre fins de mundos, toque

                                                                             Por Stephanie Sauer

 

Assim como as mulheres, os livros não são vasos vazios a serem preenchidos com ideias de homens. Eles são estruturas que, de maneira ativa, veiculam ideias, opiniões e crenças culturais mantidas há tempos e, potencialmente, também novos modos de ver.

Fazer publicações que muitas vezes são chamadas de livros de artista é um projeto tanto de ativismo quanto de prática artística. Esses livros insistem que a forma veicula o conteúdo, que os olhos precisam traduzir o que é e o que não é contido em palavras, que as mãos têm suas próprias maneiras de ler. A cada novo feitio, eu me contraponho a uma cultura que insiste na minha passividade. O meu best seller é um livro que precisa ser rasgado. It’s fun to be naked [É divertido ficar pelado] contém um divertido poema de seis versos espalhado em cinco tiras de uma polegada de papel dobrado que são seguradas por um ilhós. Os leitores só podem acessar o texto por inteiro ao destacar a página nas linhas pontilhadas que fiz à mão. A maioria dos leitores pede duas cópias, insistindo que não gostam da ideia de “destruir” um livro. Eu garanto a eles que esse livro só se realiza inteiramente quando o leitor interage com ele.
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A acessibilidade como valor maior na busca pela sustentabilidade e independência. Um experimento.

A acessibilidade como valor maior na busca pela sustentabilidade e independência. Um experimento.

                                                                                                                                Por Rachel Gontijo Araujo

 

Nossa única fonte de financiamento vem das pessoas que compram nossos livros. A verdade, entretanto, é que muitas vezes o próprio público não tem consciência do seu papel de colaborador, não se vê, não se enxerga como investidor. Infelizmente, essa nossa visão restrita das relações humanas e da economia talvez não nos possibilite compreender a relação entre público e editora para além de uma simplista equação mercantil. Somos ensinados na maior parte do tempo a pensar que investidores são somente aquelas corporações, instituições bancárias, privadas e governamentais, “grandes fortunas”, quase que sem rosto. E não que o ato de consumir e o investimento na cultura (e, sejamos sinceras, em tudo na verdade) é um instrumento de ação sociopolítica, individual e coletiva, e por consequência, um instrumento para atingir o tipo de desenvolvimento desejado na cidade, país e mundo que habitamos. Em outras palavras, temos aceitado há muito tempo as estruturas que inventamos e que muitas vezes já nascem ultrapassadas e continuamos as dando como verdade em si.
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Revolução: um poema coletivo. Potências poético-políticas da rede de arte postal

Revolução: um poema coletivo. Potências poético-políticas da rede de arte postal

 

Por  Fernanda Nogueira
[Artigo publicado em março de 2014 no post, plataforma on-line do Museu de Arte Moderna de Nova York dedicada à arte e à história do modernismo num contexto global.]

 

A arte postal, como sabemos, é uma desculpa, estamos interessados em coisas mais importantes que têm a ver com nós mesmos, nossas famílias, nosso povo. Se aceitarmos isso, as diferenças estarão dissolvidas; depois de tanto drama e tanto sangue, precisamos discernir quem são nossos verdadeiros inimigos.

​​​​​​​— Clemente Padín em carta a Mauricio Guerrero, Montevidéu > México D.F., 8 de janeiro de 1985.

 

ARTISTA, ARME-SE!

– Vlado Martek (Iugoslávia), em Poema Colectivo Revolución, 1981.

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BOTANDO O ID PRA FORA: Les Coleman apresenta a arte catártica de Mark Beyer

BOTANDO O ID PRA FORA
Les Coleman apresenta a arte catártica de Mark Beyer

                                                                  [Artigo publicado na edição #78 da revista Raw Vision*]

Sem título, 2008, caneta, tinta e tinta acrílica em pintura invertida sobre acrílico, tamanho desconhecido

 

Detalhes biográficos acerca de Mark Beyer, um artista recluso e autodidata, se limitam a poucas linhas de fatos e datas. Ao procurar on-line, não se pesca muito além do que já foi publicado. Beyer não tem um site pessoal. Parece haver uma única fotografia dele em domínio público. A única entrevista dele de porte foi publicada na segunda edição da Escape, realizada por Paul Gravett em 1983, quando Beyer estava em Londres para a exposição Graphic Rap no ICA. Em quase trinta anos, esse continua sendo o único comentário feito pelo artista sobre seu trabalho. Para minha grande surpresa e prazer, estive em contato com ele, que foi bastante simpático nas respostas às minhas inúmeras perguntas por e-mail, além de fornecer imagens de todos os períodos de seu percurso criativo.
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Mark Beyer: Mais noites pertubadoras

MARK BEYER: MAIS NOITES PERTUBADORAS
Por Paul Gravett

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Depois de ter sido deliciosamente perturbado por seus quadrinhos nas páginas da Raw, eu vim a conhecer Mark Beyer em 1982, quando ele foi convidado para vir a Londres participar da exposição de quadrinhos Graph Rap no Instituto de Arte Contemporânea. Por sorte, tive a oportunidade de entrevistá-lo para a segunda edição da Escape Magazine, uma das pouquíssimas entrevistas dadas por ele. Acompanhei o trabalho de Beyer de perto, desde seus títulos independentes até as tirinhas de Amy e Jordan, passando por suas narrativas visuais e incursões no mundo da pintura, mas eventualmente acabei perdendo contato com ele, exceto por uma outra exposição no Festival de Quadrinhos de Berlim em 2003.
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Um tempo morto

No cruzamento da filosofia, da poética e do ensaio, Nathanaël nos entrega aqui uma correspondência que se oferece ao leitor como uma ética do encontro. Uma foto de Claude Cahun se impõe como alvo das atenções deste texto que, escrito num entregênero, se pretende tanto como narrativa (impossível) do desaparecimento, do afastamento e da (ir)responsabilidade histórica, quanto infatigável inferno de um olhar. O que volta a ser questionado nestas páginas e está irrevogavelmente em jogo é nossa situação diante daquilo que – da língua, mas também de e em nós mesmos – (nos) escapa.

É a primeira vez que o texto, parte do livro L’Absence au lieu (Claude Cahun et le livre inouvert), publicado em francês em 2007, é traduzido para o português.
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Dan Nadel: Punk e Hippie

PUNK E HIPPIE

Por Dan Nadel


[Artigo publicado na edição de maio de 2016 da Art in America.
Cortesia da Art Media Holdings, llc.]


De vida curta mas altamente influente, a dupla Paper Radio incendiou a cultura underground da Nova Inglaterra no início dos anos 2000 com seus quadrinhos dinâmicos e um éthos colaborativo.

Dizem que, para dominar a arte dos quadrinhos, você deve se tornar invisível e depois parar de fazer quadrinhos para sempre, deixando apenas que eles se desenhem por conta própria. Deus não gosta de quadrinhos que surgem de motivações do ego.

—Ben Jones

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Livreiros #4: Praça Saens Peña

Há 29 anos, entre a Praça Saens Peña e a Rua Major Ávila, existia uma pequena passagem entre os cinemas Carioca (atualmente uma Igreja Universal do Reino de Deus) e América (atualmente uma drogaria), onde Janine Santos e Júlio Domingues começaram a vender livros.

Era uma outra Praça, em uma outra época da Tijuca. O povo da Zona Sul se deslocava até a Saens Peña para assistir algum filme em um dos oito cinemas que ocupavam o seu entorno. Havia os dois andares do Café Palheta (hoje um balcão dentro de outra drogaria), a Confeitaria Tijuca e uma agitação cultural que, entre os lambe-lambes e uma placa que dava boas-vindas ao pedestre em cinco idiomas, se contrapunha à identidade cosmopolita e praiana propagada pela elite que ocupava a Zona Sul da cidade.

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