Livreiros #4: Praça Saens Peña

Há 29 anos, entre a Praça Saens Peña e a Rua Major Ávila, existia uma pequena passagem entre os cinemas Carioca (atualmente uma Igreja Universal do Reino de Deus) e América (atualmente uma drogaria), onde Janine Santos e Júlio Domingues começaram a vender livros.

Era uma outra Praça, em uma outra época da Tijuca. O povo da Zona Sul se deslocava até a Saens Peña para assistir algum filme em um dos oito cinemas que ocupavam o seu entorno. Havia os dois andares do Café Palheta (hoje um balcão dentro de outra drogaria), a Confeitaria Tijuca e uma agitação cultural que, entre os lambe-lambes e uma placa que dava boas-vindas ao pedestre em cinco idiomas, se contrapunha à identidade cosmopolita e praiana propagada pela elite que ocupava a Zona Sul da cidade.

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Livreiros #3: Praça da Sé

São Paulo é um turbilhão. Quem mora talvez não perceba, mas quem visita sente: a vida não para, o tempo parece escasso, as distâncias são longas e o ritmo é agitado. Como é ter um sebo em uma cidade que nunca descansa? Quais são os hábitos de leitura desses 11 milhões de paulistanos, emigrantes e imigrantes que habitam a capital?

Numa tentativa de responder a essas perguntas, fomos até a Praça da Sé, o coração pulsante e centro geográfico dessa gigante cidade. Lá existe a grande catedral que se projeta sobre a maior estação de metrô da América Latina e já assistiu a muitos protestos, encontros e manifestações de toda a sorte, além de servir de morada para uma população de rua que nunca para de crescer, e um comércio informal que vende desde chocolates abaixo do preço até truques de mágica.

Ao redor disso tudo, temos a maior concentração de sebos da capital paulista. Na Praça Carlos Gomes, na Praça João Mendes e na rua Álvares Machado encontramos mais de dez sebos separados por quadras de distância. Escolhemos cinco livrarias para visitar e entrevistar – um recorte feito a partir da relevância e da peculiaridade –, e trazemos para vocês um pouco da experiência que é ter um sebo ao redor da Praça da Sé.

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“O ponto de partida do guia/livro do Broke Ass é: ‘eu estou duro, não tenho algo que se possa chamar exatamente de emprego, mas não vou ficar parado, tenho necessidades fisiológicas e existenciais’ (leia-se encher o bucho, a cara e, se possível, me divertir e aprender alguma coisa).”

Tradutor do "Guia Broke-Ass Stuart Para Viver com Pouco Dinheiro em NY"

 

Uma entrevista com Thiago Nasser, tradutor do Guia Broke-Ass Stuart para viver com pouco dinheiro em Nova York:

 

1- O que é o Guia Broke-Ass Stuart para viver com pouco dinheiro em Nova York?  Foi um livro difícil de traduzir?

O livro é um misto de guia de sobrevivência, diário, ode a uma Nova Iorque em via de desaparecer, crítica e ao mesmo tempo agente da gentrificação, etnografia urbana e social, e, claro, um bildungsroman pós-irônico. Livros bons são fáceis de traduzir. Simples assim. Que outro livro me faria meditar profundamente sobre as similitudes e diferenças entre um boteco e dive bar?

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“Eu sempre pensei que escrever é uma conversa, e eu suponho que isso implica algum nível de encontro entre dois corpos.”

 

Gail Scott, autora de Minha Paris

 

Entrevista com Gail Scott, autora de Minha Paris:

 

1 – Qual a história por detrás de Minha Paris?

Eu estava vivendo num apartamento para escritores, tendo ganhado um intercâmbio de seis meses pelo Conseil des arts et des lettres Du Quebec. Inicialmente pensei que seria divertido fazer algo turístico, usando Arcades Project de Walter Benjamin como uma espécie de guia. Mas quanto mais eu andava por Paris, e isso era nos anos 90, mais eu me interessava pelo que acontece com as ondas consecutivas de artistas e militantes de vanguarda que datam desde a época de Benjamin até o presente. Então o livro se tornou uma conversa entre Benjamin e Gertrude Stein, entre outros, sobre essas questões.

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“Tentando lembrar agora da foda da noite passada para que eu possa então tentar fazer uma analogia tão apropriada quanto fosse possível e ainda assim dizer a verdade.”

Douglas é autor de "Seu Corpo Figurado"

 

Entrevista com Douglas A. Martin, autor de Seu Corpo Figurado:

1 – Qual a história por trás de “Seu Corpo Figurado”?

Eu menti pra conseguir um grande agente depois do meu primeiro livro, Outline of My Lover. Quando eu fui para a reunião quando seria decidido se eu iria ou não ser publicado, contei como, além do livro que depois viria a se chamar “Once You Go Back” e no qual ela estava parcialmente baseando a sua decisão, eu também estava planejando escrever um livro sobre Anais Nin, uma coisa histórica. Paris em tal e tal ano. Eu era muito amigo do Colm Toibin na mesma época, e ele então tinha uma fé extrema no que eu estava fazendo com inspiração autobiográfica a que, apesar de tudo eu ainda me referia como ficção, criação de histórias. “Essa voz ficcional que você encontrou é  uma coisa especial” Ou algo nessas linhas. Eu ainda não havia publicado Seu Corpo Figurado até então, logo ele não sabia do que estava falando. Mas quando fui visitá-lo no escritório que ele manteve por um tempo na New York Public Library, parte de algum acordo ou residência – uma dessas coisas que eu mesmo nunca conseguiria – ele me perguntou algo como “O que eu iria fazer uma vez que tudo estivesse acabado?”. Mexendo nas coisas da minha infância, comecei a pensar que gostaria de ir para além de mim mesmo e ao mesmo tempo olhar para quem obteve sucesso ou não em seus próprios termos. Existem outras raízes para isso também. Eu não escreveria sobre o relacionamento que vivia na época, mas um namorado da minha idade, que não estava me bancando financeiramente, no máximo artisticamente, me deu o livro de Guy Davenport, Balthus. Outro garoto, esse me fez mudar a forma de falar para tentar ser mais parecido com ele, me deu uma monografia do Francis Bacon antes disso. Hart Crane eu não compreendia, mas tinha vontade de fazê-lo. Foi muito importante para mim ter uma coisa com que eu pudesse trabalhar dessa forma, aprendendo e então transcrevendo essa reação inicial para o que eu estava sorvendo. Ver então como todas essas reações podem se somar, em que áreas elas podem se conectar, e o que começa a ser dito. Não imaginamos o Narciso falando, certo? É uma rara alegoria. Como não torná-la preciosa, até mesmo com esses personagens românticos? Eu tinha acabado de sair do mestrado em escrita e nunca desejei ser um desses caras gays da minha turma que escreviam protagonistas femininas para si mesmo. Uma versão anterior continha a Nin e também O’Keeffe, conectando-as a Balthus e Crane respectivamente, através de outro homem, mas eu não consegui achar alguém similar para Bacon e Dyer, então essa parte da estrutura colapsou um bocado, e eu acabei optando por retirá-la no fim para manter o balanço. Começou ainda mais ambicioso.

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“Eu quero algo na minha boca. Eu não posso dizer mais do que isso. Inglês, punjabi, urdu, francês, espanhol. Eu não sei.”

 

Uma entrevista com Bhanu Kapil, autora de Incubação: um espaço para monstros:

1 – Qual a história por trás de Incubação: um espaço para monstros?

Eu era um ponto zero na forma de uma garota. Eu era uma imigrante e pegava carona. Essa é a minha autobiografia levemente disfarçada na forma de uma novela de ficção científica mal-escrita.

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“Nós entendemos tudo errado, eu acho, em relação à organização dos sentidos e dos condutores venais que imaginamos para descrever corpos.”

 

Uma entrevista com Nathanaël, autora de Je, Nathanaël:

1 – O pau-duro literário existe?

Tem que existir. Do contrário a sua Anatomia Primária, seu livro, não existiria. Talvez seja uma questão de qual linguagem para qual boca. E o que é um corpo nesse caso. Nós entendemos tudo errado, eu acho, em relação à organização dos sentidos e dos condutores venais que imaginamos para descrever corpos. Eu suponho que me questionaria, hoje, o que de fato é a literatura, uma vez que o esforço massivo parece ser de domesticação global. Quem é “nós”?, é uma outra pergunta.

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“Ela cria um mundo que é maioritariamente muito doce, mas ela mina isso um pouco colocando egoísmo e tristeza.”

Tove por Tove

 

Para essa entrevista nós d’A Bolha, como de costume, fomos atrás do material mais completo e interessante que poderíamos encontrar sobre o nosso livro da semana e próximo lançamento: Moomin.

Entretanto, apesar da obra de Jansson ser reconhecida no mundo inteiro, a maior parte das entrevistas publicadas com a autora é na sua língua natal, sueco ou em finlandês. Portanto, a entrevista traduzida abaixo não é com a autora da série, Tove Jansson, nem com a Senhorita Snork e nem com a Mamãe Moomin. Dessa vez, o material que escolhemos trazer para vocês hoje vem de uma entrevista feita com Tom Devlin para o site Comics Reporter em 2006. Tom é um dos fundadores da Drawn & Quarterly e o responsável por trazer Moomin para um mercado internacional, e a entrevista trata exatamente do momento em que o primeiro volume estava prestes a ser lançado pela editora. Leia mais abaixo.

Tom Devlin – Em 2011 eu fui até Helsinki e tive sorte o bastante para fazer um tour pelo estúdio de Tove Jansson. Ela viveu no mesmo largo estúdio por 57 anos. Era fácil de imaginar a Tove lá. Eu vi a mesa onde ela costumava escrever, eu vi o forno a lenha que ela usava para aquecer a sua casa durante os longos invernos; eu vi as prateleiras e prateleiras de livros  ̶ muitos de autoria dela, ou seus livros favoritos de outros autores, ou até mesmo os álbuns de recortes de sua mãe, Signe, desenhados a mão, onde ela guardava as tiras que cortava do jornal. Eu vi a pequena alcova e a cama ainda menor onde ela dormiu por anos. Foi surpreendente o quão modesto o lugar  inteiro parecia. Até onde eu sabia, ela era a maior celebridade literária da Finlândia, e mesmo assim ela viveu uma vida tão simples. Claro, eu devia ter sabido disso antes de atravessar a sua porta. Está nos seus livros. E manifestada visualmente em seus quadrinhos. Os próprios Moomins vivem sua vida modesta. Eles vivem muitas  aventuras, mas o lar é simples, confortável, e não tem nada desnecessário.

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“Criar algo a partir do nada e fazer novas pilhas de coisas novas e dá-las para os amigos.”


Entrevista com Gary Panter, autor d’ O Babaca:

1 – Qual a história por trás d’O Babaca?

O Babaca é uma meditação sobre os babacas  ̶  eu queria que o quadrinho saísse engraçado e radical, mas eu não gosto de babacas. Gosto de pessoas legais. Existem babacas no mundo, e essa é uma piada e um aviso para que as pessoas tomem cuidado com esse tipo de gente. A tortura desse babaca chamado Henry Webb é que ele vive em um universo solipsístico. Todo mundo se parece com ele, então na realidade ele está se matando. É também sobre reencarnação, sobre a evolução individual cumulativa, tanto para cima ou para baixo.

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“O problema entre mim e a internet é que ela funciona em cima de fatos, números e informação. Mas sem a carne e o sangue e a respiração.”

Autor de "Gigantes do Jazz"

 

Tradução livre de entrevista com Studs Terkel, autor de Gigantes do Jazzretirada dos sites Mother Jones e The Progressive. Entrevistas originalmente disponíveis em outubro de 1995 (Mother Jones) e outubro de 2004 (The Progressive).

1 – Você ainda digita as suas entrevistas na sua velha Remington. Você já entrou na internet? (Mother Jones, 1995)

Eles me pegaram nessa na última convenção da American Booksellers Association. Eu não sabia sobre o que eles estavam falando. O problema entre mim e a internet é que ela funciona em cima de fatos, números e informação. Mas sem a carne e o sangue e a respiração. Com quem eu estou falando? Com o que eles se parecem? Seria uma multitude, 25 pessoas do outro lado? Quem é aquele garoto estranho? E a senhora com uma muleta? O toque humano é o que falta.

Esse é um dos aspectos de Coming of Age, uma das reclamações de muitas dessas pessoas mais velhas. Tecnologia – alguns dos meus heróis e heroínas bem sabem – deixa-os um pouco infelizes porque tem algo pessoal faltando.

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